Domenico (Mimmo) Lucano, o ex-prefeito de Riace, foi condenado a 13 anos de prisão

Riace é uma pequena cidade nas montanhas da Calábria, no sul da Itália, que tem acolhido refugiados e demonstrado solidariedade desde o final dos anos 1990. A cidade e seu prefeito Domenico Lucano tornaram-se mundialmente famosos por isso.

Várias centenas de pessoas que buscavam proteção viviam em Riace, uma pequena cidade que estava ameaçada de desaparecer devido ao êxodo dos jovens. As pequenas associações e cooperativas criaram empregos para moradores e refugiados em oficinas que reviveram os antigos ofícios de tecelagem, cerâmica, bordado, processamento de vidro e madeira e passaram a vender os produtos aos turistas. A atenção com os migrantes também trouxe trabalho para a população. Mesmo com alguns conflitos, a pequena cidade conseguiu um modesto crescimento ao longo dos anos. Em 2017, Domenico Lucano recebeu o Prêmio da Paz de Dresden por seu empenho.

O ex-prefeito se comprometeu a ajudar aqueles que haviam encontrado o caminho para a sua cidade. Ele nunca disse não, mesmo quando as autoridades enviavam muitos refugiados, às vezes em demasia. Houve apoio financeiro do Estado e da União Europeia para acomodar as pessoas que buscavam proteção, mas essa ajuda nunca foi a motivação de Lucano; para ele, a humanidade era primordial, mais importante do que a burocracia. Quando necessário, ele gerenciava o financiamento de forma criativa e em prol do interesse das pessoas envolvidas.

Mas então – sob o comando do Ministro do Interior Salvini – abateu-se a repressão. Em outubro de 2018, Lucano foi preso, depois banido de Riace e não teve mais permissão para entrar em sua cidade. Ele levou quase um ano até poder retornar. Foi acusado de ajudar e incitar a imigração ilegal e de não usar os fundos destinados ao acolhimento de refugiados de forma adequada. Muitos outros residentes de Riace também foram acusados. As oficinas foram fechadas e muitos refugiados tiveram que ir embora.

Desde então, vários julgamentos ocorreram. Mas também foram realizadas várias ações de solidariedade em apoio à Riace na Calábria, em toda a Itália e também na Europa. Lucano continuou defendendo os refugiados, mesmo quando não era mais prefeito. Ele garantiu, por exemplo, que as oficinas continuassem funcionando, protegidas de qualquer perseguição das autoridades. Em 2019, um pequeno moinho de azeite foi colocado em operação, e moradores e recém-chegados encontraram trabalho remunerado na colheita e produção de azeite de oliva.

“Não há justiça”

Domenico (Mimmo) Lucano foi condenado a 13 anos e dois meses de prisão, informou o The Guardian em 30 de setembro de 2021, e o condenado ficou chocado: “Estou sem palavras, não esperava isto”, teria dito Lucano após a sentença, e prossegue “passei minha vida perseguindo ideais, lutei contra a máfia, fiquei do lado dos últimos, os refugiados. E nem tenho dinheiro para pagar os advogados… Hoje, tudo acabou para mim. Não há justiça”.

O veredito é um triunfo da oposição e frustra a candidatura de Lucano nas próximas eleições regionais. Salvini festeja. Domenico Lucano quer apelar.

O livro de Mimmo Lucano Grâce à eux, “Graças a eles”, é publicado aqui. Todos podem ver por si mesmos a profunda humanidade do ex-prefeito de Riace.

Mais informações sobre Riace no meu artigo Un avenir pour Riace (em alemão), em Pressenza de 22.10.2019 e aqui: www.riace.solioeko.de


Traduzido do francês por Aline Arana / Revisado por Graça Pinheiro