LITERATURA

Por Sabine Mendes Moura

 

Saiba mais sobre o evento e sobre a vencedora da categoria “narrativa curta horror”

 

Domingo, 03/10, 19:37. A plateia virtual da VII Odisseia de Literatura Fantástica, transmitida por canal de YouTube exclusivo, aguarda o anúncio da obra vencedora na categoria “narrativa curta horror”. Duda Falcão, idealizador do evento e jurado na modalidade, apresenta os indicados. Entre eles, O alinhamento das estrelas, de Juliane Vicente, conto de abertura na antologia Lovecraft Re-Imaginado (Editora Diário Macabro).

Assista: https://www.youtube.com/watch?v=On9HLZ_xuW8

No conto, a autora nos apresenta a Safira, uma policial que se vê obrigada a investigar ocorrências estranhas, envolvendo imigrantes como ela, na cidade de Plymouth. Além de autora, Juliane Vicente é organizadora da antologia, junto a Julia do Passo Ramalho. E, sim, ela está prestes a ganhar!

Será o primeiro prêmio da Diário Macabro, editora independente voltado ao gênero terror, cujo trabalho, como o de tantas outras no nicho, está sendo celebrado esta noite. Em sua segunda edição virtual, a Odisseia de Literatura Fantástica segue oferecendo um importante espaço de reconhecimento para quem aposta em autores nacionais.

E já é possível sentir que o evento de 2021 terá sabor especial. Nas palavras de Israel Neto, vencedor em “narrativa curta ficção científica” com Não Podemos Esperar (Editora Nua), “esse prêmio foi significativo por contemplar, além de mim, mais dois artistas negros, mostrando nossas vozes na literatura fantástica”.

Ele se refere ao prêmio de Juliane e ao de Raphael Silva Santos, em “narrativa longa literatura infanto-juvenil” com Ubuntu 2048. O livro foi publicado pela Kitembo Edições Literárias do Futuro, onde Israel é editor uma vitória dupla, primeiro prêmio da Kitembo.

E haveria outras novidades, como o espaço aberto para “quadrinhos fantásticos”, que premiou Romeu Martins, Val Oliveira e Sandro Zambi por A cor que caiu do espaço (Skript Editora). A mãe carpideira criada por Fernanda Castro levou “narrativa curta fantasia” com Lágrimas de Carne (Dame Blanche) e Clécius Alexandre Durán arrematou o troféu de “narrativa longa horror” com “A Outra Casa”, uma publicação independente.

Até o final da noite, Enéas Tavares se tornaria o primeiro autor a ser premiado duas vezes na mesma edição, com “capa e projeto gráfico” e “narrativa longa ficção científica”, pelo romance steampunk Parthenon Místico (DarkSide Books). Erick Sama ainda levaria “narrativa longa fantasia” com Guirlanda Rubra, projeto da Editora Draco, onde também é editor.

Tudo isso em meio aos festejos do chat ao vivo, que celebra vencedores e indicados com a mesma empolgação. Mas queremos voltar ao momento em que Juliane, finalmente, iniciou seu discurso. “A diferença entre o cânone literário e todas as publicações que levam a prêmios, a única diferença entre aqueles que têm acesso a todo esse sistema e as incontáveis escritoras negras que não o alcançam, se chama OPORTUNIDADE”, diz, emocionada.

“Eu não tô sozinha. Nós temos nomes e sobrenomes. Nós, escritoras negras, existimos e resistimos. Maria Firmina dos Reis, Conceição Evaristo, Eliane Marques, Carolina Maria de Jesus, Ryanne Leão, Lélia Gonzalez, Alzira Rufino, Agnes Mariá, Sueli Carneiro, Fernanda Bastos, Preta Rara, Lilian Rocha, Ana Maria Gonçalves, Lu Ain-Zaila, Cidinha da Silva, Elisa Lucinda, Ana dos Santos, Cristal Rocha. ”

A essa altura, o chat inteiro já vibra com ela, mas Juliane ainda tem algo mais a dizer. “E, por fim, Luiza da Silva Conceição, minha avó, a quem dedico esse prêmio, essa mulher que sempre foi e sempre vai ser minha base, que acreditou em mim e no meu sonho de ser escritora. Uma mulher guerreira que não pode ter acesso a uma educação formal, mas que garantiu, com muito suor e sangue, que eu pudesse ser aquilo que sempre sonhei. ”

Com essas palavras, terminamos nosso panorama de uma noite que comprovou, uma vez mais, o quão potente o mercado editorial brasileiro pode ser caso haja o devido investimento. Como a própria Juliane diria mais tarde, em seu perfil do Instagram: “Não há como premiar narrativas que não estão publicadas.”