O Movimento Brasil Livre (MBL) e Vem Pra Rua conseguiram deflagrar uma avalanche de ódio na sociedade brasileira que resultou na eleição de Jair Bolsonaro em 2018. Diante da desmoralização e do fracasso econômico que o país vivencia, seus líderes estão tentando se redimir, forçando um impeachment de Bolsonaro, em nome de uma “Terceira Via”. Neste domingo (12/09) quiseram demonstrar força levando seguidores para protestar contra o presidente que investe contra os direitos humanos e contra a República. Mas não conseguiram.

Responsáveis pela onda de manifestações deflagradas em 2014, e que em 2016 culminaram no impeachment da ex-presidenta Dilma Vana Rousseff, esses dois “Movimentos”, de natureza ultraliberal, defendem, entre outras questões, segundo eles próprios dizem, “autonomia contratual para o trabalhador” (leia-se, para empresas e empregadoras/empregadores), “aumento da participação do setor privado em serviços públicos como educação, saúde, infraestrutura” (leia-se, entrega do país ao capital privado), “redução da carga tributária” (leia-se, sem imposto para o capital e sim para a classe trabalhadora).

Tratam-se de dois grupos alinhados e aliados às elites nacional e estrangeira, cujo objetivo maior é transformar o Brasil em um país completamente subordinado aos interesses dessas elites, em detrimento dos interesses da maioria da população.

Revoltados com o PT, que, apesar de não se constituir em um partido de esquerda, ainda mantinha certos princípios progressistas, tanto o MBL como o Vem Pra Rua foram criados para, em nome do “combate à corrupção”, construir um ambiente propício à subida no poder de grupos cujos escrúpulos não impedissem a realização das reformas que as elites nacionais e estrangeiras tanto almejavam.

MBL e Vem Pra Rua conseguiram, depois de inúmeras manifestações de rua, criar um ambiente favorável à derrubada de Dilma Rousseff da Presidência da República, claro, com o apoio maciço da mídia hegemônica, liderada pelas Organizações Globo e seguida pelos demais (grupos Abril, Bandeirantes, Folha, etc.). Com Michel Temer no poder, conseguiram aprovar a Reforma Trabalhista, em 2017; e, em 2019, já na gestão de Bolsonaro, aprovaram a Reforma da Previdência.

Essas reformas foram dois dos principais golpes perpetrados à classe trabalhadora e significaram o “sinal verde” para o desmantelamento total da proteção que o Estado brasileiro dava a essa classe, fruto de muita luta historicamente construída, cuja culminância se deu com a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) instituída em 1943 e com as conquistas garantidas na Carta Magna de 1988 (chamada de a Constituição Cidadã).

O “tiro” que saiu pela culatra

Ocorre que os rompantes antidemocráticos, aliados aos escândalos de corrupção que rondam a administração bolsonarista, incluindo, ainda, o envolvimento dos filhos parlamentares do presidente em investigações da Polícia Federal por supostos crimes, aliado à crise econômica e à ridicularização do país em nível mundial, fica difícil defender um governo desses, principalmente quando se apregoa lutar “contra a corrupção, impunidade e provilégios”, como o fazem o MBL e o Vem Pra Rua.

Dessa maneira, após as manifestações bolsonaristas do dia 7 de setembro, os líderes do MBL e do Vem Pra Rua resolveram demonstrar força, mobilizando manifestações contrárias a Bolsonaro, as quais se realizaram no dia de ontem (12 de setembro), e que contaram com inexpressiva participação. Dessa vez não deu certo. Os/as “inocentes úteis”, que anteriormente caíram na conversa deles e foram para as ruas derrubar a presidenta petista, dessa vez usaram a cabeça e resolveram ficar fora de mais uma manobra das elites dominantes, que, sem dúvida, querem garantir que seu projeto de poder seja instituído sem tensão e, sobretudo, com a adesão da maioria do povo.

Eles (MBL e Vem Pra Rua) contavam com uma adesão multitudinária, incluindo grupos progressistas, com o objetivo de “emplacar” o discurso de “Terceira Via” (leia-se, o governador de São Paulo João Dória, por exemplo). Ocorre que, apesar de se opor a Bolsonaro no que se refere aos arroubos antidemocráticos de ataques a instituições republicanas, essa Terceira Via” está plenamente de acordo com o projeto ultraliberal que favorece o agronegócio em detrimento da vida (vide o Marco Temporal), que deseja a desregulamentação da relação capital-trabalho, entre outras, que constituem o sustentáculo desse projeto desumano. Só que, dessa vez, o povo não não caiu na armadilha. Como diz o ditado, “o tiro saiu pela culatra”.

Isso põe de relevo uma questão importante: Bolsonaro colocou o “gado” dele na rua, mas o “rebanho” foi menor do que o desejado. E se o MBL e o Vem Pra Rua, que apregoam essa Terceira Via”, não conseguiram adesão, significa que a esquerda (a verdadeira esquerda) pode assumir um protagonismo nesse processo de crise e discutir um projeto diferente com o povo, descartando qualquer acercamento com a elite (diferentemente do que deseja o PT de Lula). Mas essa esquerda precisa se unir, se organizar e mobilizar a população trabalhadora.

Porque sem união e mobilização, não haverá possibilidade de implementar um projeto de país baseado nos direitos humanos, na paz, no trabalho com salário digno, na educação pública e gratuitas para todos e todas, no direto universal à saúde, enfim, um país cujo Estado esteja à serviço do bem-estar social.