OPINIÃO

 

 

Por Paolo D’Aprile

 

 

Zico abriu as portas da lenda ao seu Flamengo, o time mais popular do Rio de Janeiro. Sócrates colocou seu Corinthians na vanguarda da luta pela democracia após vinte anos de ditadura. Pelé esculpiu a ferro e fogo o nome do Santos na eternidade. Claro, estou falando de alguns dos melhores jogadores de todos os tempos, times e épocas que vão além do esporte e fazem do futebol um dos mais importantes fenómenos sociais de massa do nosso tempo. Definir o futebol como o ópio do povo, ou, pior ainda, como uma válvula de escape para o mal-estar existencial, significa ignorar um século de história no qual o esporte mais popular do mundo participou ativamente, por vezes como verdadeiro protagonista. A corrupção dos dirigentes, as fraudes de todos os tipos, as negociatas para construção de estádios e toda a infraestrutura, a conivência com governos ditatoriais, nada disso tem a ver com o jogo em si, com a paixão que ele desperta. Dizem que há mais drama nos noventa minutos de uma pelada de periferia entre solteiros e casados do que em todas as tragédias de Shakespeare; e se você duvidar, tente jogar uma.

Os brasileiros forçados ao exílio pela ditadura dos anos de 1960/70 contam que a Checoslováquia assumiu a liderança, abrindo o placar no jogo de abertura da Copa do México. Dizem que, com as feições sem graça de quem comeu e não gostou, congratularam-se mutuamente: um pequeno país comunista colocava de joelhos a colossal seleção brasileira, o orgulho da junta militar, coisa que podia ser interpretada como um símbolo de vitória contra o capitalismo internacional, avante companheiros! Pouco depois, quando Roberto Rivellino marcou um golaço de falta, os brasileiros no exílio sorriram, como quem não quer nada, um mero reflexo corporal involuntário que, instintivamente deixa voar uns tapinhas benevolentes nas costas. Um golaço é muito mais do que um gol qualquer, um golaço é um super-gol, é um gol autoral, uma obra prima, tanto pela ação em si como pela situação que o propiciou. Estava na cara que o do Rivellino era um verdadeiro golaço, o tapinha nas costas era realmente apropriado, e mesmo algumas palavras de admiração explícita cabiam direitinho. Quando Pelé colocou o Brasil à frente, os exilados viram que o maior jogador de todos os tempos podia realmente fazer o tempo parar, viram que uma força estranha o levava a jogar como se cantasse, viram que Pelé arrastaria o time para a conquista definitiva da Taça Jules Rimet, viram que a seleção brasileira não pertencia aos execráveis militares que esmagavam o país: a seleção brasileira era, e é, patrimônio coletivo, símbolo de pertencimento, verdadeira paixão popular. E assim os exilados choraram e abraçaram-se, abraçaram os seus sonhos de criança e sua realidade de adultos, abraçaram seu povo miseravelmente rico, abandonado na orgia coletiva de delírio efémero, felicidade eterna, tão inútil como um gol, tão necessária como o Sim definitivo. Por isso o futebol vai além do esporte, do jogo, da FIFA, dos governos. No futebol podemos reconhecer-nos como membros de uma comunidade de iguais. No futebol vemo-nos como crianças; no futebol projetamo-nos como os adultos que poderíamos ter sido e confrontamo-nos com o que realmente somos. Zico e o Flamengo, Sócrates e o Corinthians, Pelé e o Santos. Nomes que vão além, pessoas que significam algo, mesmo para aqueles que nunca viram um jogo na vida.

A pandemia esvaziou os estádios. Mas o futebol permaneceu. Os seus gols, suas derrotas, as vitórias, seus gestos, continuam a encher de sentido a semântica dos povos.

Clube de Regata Vasco da Gama, ou simplesmente, Vasco. É uma das grandes equipes do futebol brasileiro. Fundada por um grupo de remadores de origem portuguesa que decidiram prestar homenagem ao grande navegador. Desde o início o clube caracterizou-se por abrigar em suas fileiras o povo simples, os filhos dos trabalhadores braçais, operários e moradores dos bairros pobres do Rio. O futebol era ainda um esporte praticado exclusivamente pela elite: vindo da Inglaterra, como as palavras utilizadas em campo atestam: corner, penalty, cross, drible, offside, e o vocábulo mais importante de todos: goal … brazilianizado em GOL. Tal como aconteceu com a palavra que define o jogo: Football, imediatamente transformado em Futebol.

E o Vasco não é apenas uma equipe de Futebol. Na linha de frente durante cem anos da luta pelos direitos civis, a 7 de Abril de 1924, assinou e divulgou um documento conhecido até hoje como a “Resposta Histórica”. Informou a federação e todo o país que o time não iria participar do campeonato sem os seus jogadores de origem afro-brasileira. De fato, de acordo com as exigências da federação, de acordo com as regras ditadas pela tradição britânica, as equipes teriam de ser formadas exclusivamente por jogadores brancos, com características somáticas marcadamente europeias. O Vasco, nascido em bairros da classe trabalhadora, nunca se prestou à comédia de camuflar os seus jogadores negros com pó de arroz para branquear a pele, como fora feito por todas as outras equipes, a fim de enganar o regulamento: nunca! O Vasco recusou, escreveu e divulgou a “Resposta Histórica”. O Vasco impôs a presença dos afro-brasileiros em campo como parte integrante do time. E assim foi.

Rio de Janeiro, 28 de Junho de 2021. Germán Cano, jogador nascido na Argentina, escreveu o seu nome na história do Vasco, do Futebol Brasileiro e do futebol mundial. Apanhou um passe do seu companheiro e, de primeira, colocou uma bola imparável no fundo da rede. Sem esperar pelo abraço, Germán Cano correu em direção à bandeira do escanteio.

O Vasco joga com um uniforme diferente do habitual, hoje a camisa é branca. E a faixa diagonal, tradicionalmente preta, ostenta enfaticamente as cores do arco-íris, as cores do Dia Mundial do Orgulho LGBTQIA+. Mesmo as bandeiras dos quatro cantos de onde é cobrado o escanteio lembram-nos que hoje é um dia especial. E Germán Cano corre em direção do canto do campo, tira o mastro da bandeira do chão, levanta o braço segurando-o orgulhosamente, agita a bandeira e chama os seus que se unem à festa. O estádio está vazio, mas o Brasil inteiro aplaude de pé. O acenar da bandeira do arco-íris como gesto de respeito para uma comunidade historicamente marginalizada e, hoje, mais do que nunca, alvo da violência institucional do governo Bolsonaro, tem um significado que vai para além da exultação por um gol. Não importa que o Vasco agora jogue na segunda divisão, não importa que não vença um titulo há anos, não importa que seus jogadores não sejam convocados na seleção, não importa. Ao transformar uma simples comemoração em uma atitude, uma declaração de intenções, uma afirmação de respeito, autonomia, identidade, em um gesto simbólico para milhares de pessoas que muitas vezes não têm nem a possibilidade, nem a força para revelar sua identidade, hoje, um jogador do Vasco, permite que o Futebol volte a incidir na realidade, como cem anos atrás, para lembrar a todos que a luta pelos direitos civis não pode parar. Vasco, orgulho do Futebol Brasileiro. Germán Cano, atleta, jogador de futebol, homem livre!