Rock and Roll Lullaby

06.06.2021 - Marco Da Costa

Rock and Roll Lullaby
(Crédito da Imagem: Ilustração: Guilherme Maia)

A chuva fina deixava sempre suas marcas na velha janela do sobrado da rua Fonseca Hermes, em Juiz de Fora. Eu acompanhava as gotas caindo, deslizando do vidro, anunciando o frio da noite.  O chão de tábua corrida estalava e por isso crianças eram quase proibidas no lugar.  Minha permanência aquele dia tinha uma justificativa. Eu era o único entre meus primos que gostava de televisão e que acompanhava com minhas tias e avó, os capítulos de “Selva de Pedra”.

O Brasil de 1972 era preto e branco, cinzento como o céu da cidade naquele inverno.  Sentado no sofá – bem comportado e sob olhares de censura a cada movimento, esperava cada capítulo. Minha avó Alayde e minha tia-avó Ondina conversavam com as personagens e por isso acho que presenciei o início das mídias interativas. Embora Regina Duarte, Francisco Cooco e DIna Sfat não pudessem ouvir os gritos e choros, eu deliciosamente testemunhava aquelas noites de catarse.

A autora Janete Clair havia se inspirado em uma notícia de jornal sobre um crime no nordeste para escrever a trama, que tinha como base a obra “tragédia Americana”, do escritor Theodore Dreiser. Nessa época as telenovelas eram tão presentes em nossas casas que até nossos nomes eram escolhidos de acordo com as personagens do momento.  Eu mesmo, recebi o nome de um, um médico da novela mexicana “O direito de nascer”. Vim ao mundo no último capítulo e segundo contam as lendas familiares os médicos e minha mãe comentavam em tempo real, escutando e comentando graças a um pequeno rádio, ligado na sala de cirurgia.

Foi nessa época que escutei pela primeira vez ‘Rock and Roll Lullaby’ na voz de Billy Joe Thomas. A canção fala de um adulto que lembrava que sua mãe – provavelmente uma mulher dos anos 60 – o embalava ao som do rock.  Eu, que nasci ao som das novelas, me liguei na melodia e mesmo sem entender as letras, fiz dela a minha trilha sonora favorita.   Enquanto Cristiano Vilhena e Simone Marques, os personagens da novela se beijavam a bordo de um navio no último capítulo, minhas tia e avó choravam e davam graças aos céus.  As novelas marcaram também fases de nossas vidas.  A cada ciclo, um romance, uma nova trilha sonora.

A folk song americana de BJ Thomas passou a fazer parte de toda minha adolescência e juventude.  Ia e voltava nas rádios. Ia e voltava dos meus romances platônicos e meus segredos.  A voz de um cantor de uma pequena cidade de Oklahoma saia por um radinho em juiz de fora e no subúrbio carioca, se transformando no som que embalava os amores dos bailes do subúrbio, do final das festas juninas. Provavelmente hoje existem pessoas – assim como eu – nascidas de casais que a cantavam e que a tiveram como tema de seus namoros.

O Calendário não marca o tempo. É apenas uma distração, uma tabela matemática para anotar nosso envelhecimento.  O que marca o tempo são as histórias, as canções, os perfumes, os temas de filmes e novelas, os acordes que nos fazem lembrar de alguém ou de uma época.  “Rock and Roll Lullaby” toca na minha vitrolinha e eu mergulho no sofá embebecido de lembranças.  BJ Thomas canta e me vem a doce memória das minha tias esperando “Selva de pedra” começar, com aquela tela inicial da “censura Federal”, do meu mundo que já foi preto e branco.  As lembranças de músicas e novelas me resgatam o cheiro do caderno da escola, da borracha, do uniforme escolar, de uma menina que vendia pastel e empadas, do sabor da fanta uva que vendia na cantina.

Selva de Pedra terminou em uma noite fria, no início dos anos 70. Dona Alyde – minha avó – girou o dial da velha TV, sentou-se no sofa e seguiu seu crochet.  Todas as tias voltararam a rotina no dia seguinte, embora o vazio tenha ficado naquela sala.  Voltei a caminhar lentamente para evitar o ranger das madeiras do piso, olhei novamente para a janela e a chuva continuava a deixar as gotinhas no vidro.  Não tinha ideia de como seriam lindas essas lembranças.

O calendário não marca o tempo. Repito a mim mesmo. A voz de BJ Thomas sai da agulha que percorre o disco de vinil. Da minha janela no Bronx, quarenta anos depois, ainda escorrem lágrimas ao ouvir “And she’d sing sha na na na na na na na na It’ll be all right””

 

 

 

 

Categorias: Cultura e Mídia
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