Treze meses após o surto de Covid-19 nas Filipinas e à medida que os casos aumentavam, um novo tipo de manhã surgiu em um bairro de classe média em Teachers Village, Cidade Quezon no dia 14 de abril, o que surpreendeu positivamente um misto de motoristas de triciclos, trabalhadores de construção civil e outros pedestres. E deu um lampejo de esperança a milhares de outros, próximos e distantes, nos dias seguintes.

Foto por Ana Patricia Non – página do Facebook da Mercado Comunitário

Tudo começou quando a residente Ana Patricia Non de 26 anos organizou um carrinho feito de bambus com vegetais, frutas, arroz, ovos, alimentos enlatados e embalados, e itens de proteção na calçada de Maginhawa, uma rua repleta de restaurantes que lotavam do meio-dia até tarde da noite antes da pandemia. Ainda mais interessante era o cartaz de papelão preso no poste ao lado do carrinho, contendo uma mensagem rabiscada em Filipino nativo que pode ser traduzido como “Pegue de acordo com sua necessidade, doe de acordo com sua capacidade”. O Mercado Comunitário de Maginhawa, foi nomeado em homenagem àquela rua de Maginhawa (nome derivado de um adjetivo que sugere ter conforto e uma vida tranquila), uma ironia nestes tempos em que a economia está em depressão.

Praticamente qualquer pessoa, estando entre famílias indigentes, pode entrar na fila para receber os suprimentos diários necessários, observando os protocolos básicos de segurança contra a Covid-19 (utilizar máscara e face shield, manter um metro de distância entre as pessoas, e realizar limpeza com álcool antes de se aproximar do carrinho de alimentos). Gratuitamente, sem necessidade de preenchimento de formulários, ou de provas de status econômico. Para assegurar suprimentos constantes, a senhora carinhosamente chamada de Patreng, planejou reunir amigos, parentes e outros contatos do Facebook para doar artigos que as famílias precisam, mas têm dificuldade de comprar devido à perda de empregos e rendas. Eventualmente, ela contava também com desconhecidos que haviam testemunhado ou que apreciavam o benefício da atividade.

A ideia do mercado comunitário se tornou viral, com uma média de 300 barracas organizadas na área metropolitana de Manila em menos de uma semana, e mais de mil por todo o país enquanto o primeiro mês da ideia se aproximava. Alguns organizadores são pessoas comuns com bons corações e tempo livre durante o lockdown, pelo fato de alguns deles haver perdido seus empregos e negócios. Alguns têm organizações muito maiores do que a de Patreng e acabaram de cindir um mercado comunitário de seus projetos de caridade prévios, como a Igreja Católica que têm administrado estações de “gentileza” e outras atividades sob a égide de seu setor social, a Caritas Filipinas. As filas para receber doações têm crescido a ponto de contornar quarteirões inteiros nos horários de pico durante as manhãs, cheias de pessoas felizes por serem poupadas de ficar sem uma refeição. Os doadores, individuais e institucionais, também se multiplicaram aumentando inclusive estações de entrega de doações. Tudo isso para assegurar a sustentabilidade durante a pandemia.

Foto por Ana Patricia Non – página do Facebook da Mercado Comunitário

Ana Patricia Non, formada em comunicação visual pela Universidade das Filipinas, diz que o desejo de ajudar sua comunidade se tornou intenso quando após fechar temporariamente seu pequeno negócio de remodelação de móveis, ela não se preocupou somente com sua perda de renda, mas sentiu ainda mais o estresse e sofrimento de outros que sobrevivem com o pequeno auxílio do governo e de outras instituições. O fato de o serviço comunitário estar em seu sistema, ajudou ainda mais – criada pela mãe, que trabalha com serviço social, guiada por uma irmã mais velha que trabalha em Washington D.C. que em seu tempo livre é voluntária em projetos comunitários de mercado comunitário, e em projetos sociais de sua universidade como membro do conselho estudantil.

As pessoas também viram o coração filipino brilhando nessa iniciativa. Ela claramente espelha o espírito Bayanihan e a prática dos Filipinos conhecida também por muitos estrangeiros que tiveram a experiência durante sua visita ao país. Bayanihan (buy-uh-nee-hun) se refere a um aspecto da cultura filipina, o de trabalhar em comunidade para alcançar um objetivo comum. Antigamente, quando as casas eram feita de materiais mais leves como folhas de coco, Bayanihan também significava ajudar o vizinho a mover sua casa para outro lugar. Até hoje, o Bayanihan é invocado durante tempos de desastres e calamidades. Eu seu interior, os filipinos têm a esperança de que não vão ficar sozinhos em tempos difíceis. Sempre haverá parentes, amigos, vizinhos e até mesmo desconhecidos com bons corações, que vão estender a mão.

O mercado comunitário tem a intenção de ser um projeto de curto prazo, talvez terminando com a pandemia, ou assim que o programa do governo para auxiliar famílias afetadas se tornar adequado e eficiente para levá-las para tempos melhores.

(Parte 2 – Beneficiários e doadores nas filas dos Mercados Comunitários – Suas histórias)

(Parte 3 – Notas amargas sobre o Mercado Comunitário)


Traduzido do inglês para o português por Barbara Sena / Revisado por Larissa Dufner