Vacina cubana pronta em julho. Entrevista com o Embaixador cubano na República Tcheca

14.04.2021 - Praga, República Tcheca - Gerardo Femina

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Vacina cubana pronta em julho. Entrevista com o Embaixador cubano na República Tcheca
Danilo Alonso Mederos, Embaixador cubano em Praga, nos concedeu esta entrevista sobre a pandemia da covid-19, vacinas e o direito à saúde.

Em todo o mundo, há uma luta para vencer a pandemia da covid-19. Existem avanços importantes, mas, infelizmente, também há grandes contradições e atrasos no combate a esse problema. Soubemos que Cuba está trabalhando para produzir uma vacina contra a covid-19.

Quando a vacina poderia estar pronta para uso?

Pesquisadores cubanos, desde o início da pandemia da covid-19, começaram a trabalhar incansavelmente para obter uma vacina contra esta doença que tem causado tantos danos à humanidade.

Hoje o país tem cinco vacinas candidatas: Soberana 01, Soberana 02, Abdala, Mambisa e, mais recentemente, Soberana Plus.

A vacina Soberana 02 iniciou sua terceira fase no início de março deste ano e espera-se ter essa etapa concluída em junho. É a primeira vacina da América Latina a chegar a essa fase de estudo. Se os resultados continuarem indo como estão, ela deve estar pronta para uso em julho de 2021.

Qual é o cronograma possível para vacinar todos os cubanos?

Assim que a fase III da Soberana 02 for concluída em junho, estima-se que a vacinação de toda a população cubana possa começar em julho, e há a vontade e a decisão de imunizar todos os cubanos antes do fim de 2021.

O país tem a capacidade de produção necessária para produzir 100 milhões de doses da vacina este ano, o que permite garantir 100% da vacinação de toda a população e ter uma quantidade adicional para atender às solicitações de diferentes países.

O que você acha da proposta de suspender as patentes das vacinas contra a covid-19 promovida pela Índia e África do Sul e apoiada por mais de 100 países?

A questão das patentes e da comercialização de produções científicas, em minha opinião pessoal, exigiria uma abordagem diferente.

Mesmo que seja uma proposta justa e apesar do fato de que muitos países a apoiem, penso que é extremamente difícil que ela tenha sucesso. Há muitos interesses econômicos envolvidos e não parece que as farmacêuticas transnacionais e os países mais economicamente poderosos tornariam essa ideia viável.

Não se trata apenas dacovid-19, a questão das patentes abrange toda a produção científica, nas diferentes áreas do conhecimento, e sua comercialização.

A ciência e os cientistas poderiam construir um mundo melhor com base na colaboração internacional onde prevalecesse a solidariedade e não o egoísmo.

Certamente, se houvesse mais cooperação e uma distribuição mais justa dos recursos no mundo, a pobreza, a miséria e a fome que milhões de pessoas hoje sofrem poderiam ser erradicadas.

A Europa tem grandes dúvidas sobre a capacidade tecnológica de outros Estados e, portanto, uma certa desconfiança em relação às vacinas que não são produzidas no Ocidente. Qual é o seu ponto de vista?

Essas dúvidas são infundadas e sem base científica. Isso não é verdade apenas para vacinas, mas também para muitos medicamentos que não são desenvolvidos por transnacionais.

Por um lado, pode estar relacionado ao protecionismo dessas transnacionais que favorece a produção de suas vacinas e o poder de mercado que podem perder.

Pode ter a ver também com o pensamento neocolonialista que está por trás de alguns e com a descrença de que países com menos recursos sejam capazes de dar contribuições importantes para o conhecimento científico.

Os meios de comunicação de massa também desempenham papel negativo nessas dúvidas. Não se noticia muito sobre o que está sendo feito em países que pertencem a áreas geográficas fora do chamado Ocidente.

Se você olhar para as origens dos cientistas que trabalham em universidades e centros de pesquisa no Ocidente, encontrará muitos cientistas renomados que nasceram em outras partes do mundo e migraram para os países ocidentais por razões econômicas. Em muitos casos, eles conseguiram esses empregos por recursos próprios, mas em outros, por meio de ofertas materiais substanciais para desenvolver sua atividade no Ocidente. Isso é o que é conhecido como fuga de cérebros.

Os dados mostram que o impacto do coronavírus em Cuba foi mínimo. Que medidas foram tomadas para minimizar o contágio?

Primeiramente, a saúde é um direito de todo cidadão cubano e isso está consagrado na Constituição. Em Cuba existe um sistema nacional de saúde pública que oferece atendimento gratuito a todos os cubanos, independentemente de seus recursos econômicos, raça, crenças religiosas e ideológicas ou qualquer tipo de discriminação.

Em nosso país, a saúde não é apenas um direito, mas uma prioridade. Não há nada mais importante do que a vida humana. Com base nesse princípio, nenhum esforço ou recurso é poupado na prevenção de doenças e seus tratamentos.

É compreensível que a pandemia tenha agravado a situação econômica de Cuba, porque, além da persistência do bloqueio econômico, comercial e financeiro que o Governo dos Estados Unidos impôs ao nosso país há mais de 60 anos, houve também os efeitos de uma administração norte-americana extremamente agressiva contra Cuba, que impôs no ano passado mais de 240 novas medidas para asfixiar o país e fazer com que os cubanos abrissem mão de suas conquistas e de sua soberania.

Em Cuba, o propósito do sistema de saúde não é apenas garantir a saúde dos cidadãos por meio de um tratamento adequado, mas também assegurar uma prevenção oportuna. Nesse sentido, temos tido várias experiências positivas.

Vale destacar também que a proporção de médicos por mil habitantes é uma das mais altas do mundo. Cuba apresenta indicadores de saúde elevados, muitos deles equivalentes aos dos países ocidentais e, em muitos casos, superiores aos dos países economicamente mais desenvolvidos. Entre os principais valores estão a taxa de mortalidade infantil e a expectativa de vida ao nascer.

Especificamente, na luta contra a pandemia da covid-19, a triagem ativa é um elemento-chave. Isso se refere à busca por pessoas suspeitas de terem sido infectadas antes que qualquer sintoma apareça. Vale ressaltar que em Cuba mais de 50% dos casos detectados foram assintomáticos.

Outra medida importante é a hospitalização precoce de todas as pessoas infectadas e o confinamento de seus possíveis contatos até que seja determinado se eles foram ou não infectados. Isso evita a transmissão da doença nas comunidades.

Experiências internacionais também são estudadas e muitas das medidas que foram utilizadas com sucesso em outros países e as recomendações da Organização Mundial de Saúde são aplicadas.

Além disso, protocolos para o cuidado dos infectados e dos internados em unidades de terapia intensiva são continuamente desenvolvidos e aprimorados.

Medicamentos desenvolvidos pela indústria biofarmacêutica cubana são usados com bons resultados em outras doenças semelhantes. Medicamentos têm sido distribuídos à população saudável para aumentar seus níveis de imunidade para que, no caso de contraírem a doença, estejam mais bem preparados para superá-la.

Até o momento, mais de 90% dos cubanos que adoeceram se recuperaram, e a taxa de mortalidade em Cuba é de 0,6%, uma das mais baixas do mundo.

Há uma grande falta de vacinas na Europa; a República Tcheca está em estado de emergência, mas atualmente não há possibilidade de usar a vacina russa ou a chinesa. O que você pensa sobre essa situação, que chamo de “guerra fria das vacinas”?

Esta questão foi parcialmente respondida nos tópicos anteriores.

Talvez os órgãos e mecanismos reguladores em vigor deveriam ter sido mais rápidos, embora permanecendo rigorosos e seguros. Se essas vacinas comprovaram sua eficácia e efetividade de acordo com os padrões estabelecidos, não haveria razão para não utilizá-las.

Nem a pandemia nem as vacinas têm ideologia. Quanto mais a imunização com vacinas for adiada, mais as pessoas continuarão a contrair a doença e, infelizmente, mais pessoas morrerão.

No ano passado, a Itália foi repentinamente atingida pelo vírus de modo devastador. A ajuda veio da China, da Rússia e da Albânia. Os italianos ficaram emocionados com a chegada de médicos e enfermeiros de Cuba. O que você pode nos dizer sobre essas missões de solidariedade?

A solidariedade internacional é um princípio que caracteriza o povo cubano. Para nós, solidariedade não significa dar o que temos de sobra, mas compartilhar o que temos.

O nosso povo sempre foi grato pelas numerosas expressões de solidariedade que recebemos em diferentes momentos da história, e a nossa forma de expressar essa gratidão é oferecer solidariedade a todos aqueles que dela necessitem.

Desde os primeiros anos da Revolução Cubana, as brigadas médicas foram a diferentes partes do mundo para enfrentar desastres naturais ou necessidades de saúde em países que as solicitaram. Para citar apenas alguns exemplos, posso mencionar os terremotos que atingiram o Paquistão e o Haiti, ou a resposta ao ebola na África. Os médicos cubanos têm ido aos lugares mais remotos do mundo para contribuir no atendimento às pessoas necessitadas.

Em 2005, após os furacões que atingiram a região da América Central, foi formada a Brigada Henry Reeves, um contingente de médicos especializados para lidar com desastres e epidemias graves em qualquer país que a solicite. Quinze anos após sua criação, a brigada deixou sua marca no mundo.

A pandemia da covid não foi exceção e, dada a situação internacional e os pedidos de numerosos países, a presença de médicos cubanos não tardou a chegar.

Posso dizer que, ao longo de 2020, a presença deles chegou a 39 Estados. Mais de 550.900 pessoas foram tratadas e 12.488 vidas foram salvas. Mais de 3.800 profissionais de saúde cubanos participaram, dos quais 61,2% são mulheres.

Pela primeira vez, países europeus solicitaram a presença da brigada médica cubana, entre eles a Itália. O povo italiano acolheu os nossos médicos que, com o seu trabalho cotidiano e o caráter cubano, conquistaram o carinho dos italianos.

Os médicos e profissionais de saúde cubanos estão permanentemente prontos a ajudar em qualquer país do mundo. Por essas razões, o Contingente Médico Cubano foi nomeado por numerosas personalidades e organizações para o Prêmio Nobel da Paz em 2021.

Em que tecnologia se baseia a vacina Soberana 02?

A vacina Soberana 02 é uma vacina conjugada porque possui um antígeno que se funde a uma molécula transportadora para reforçar sua estabilidade e eficácia. Ela tem uma tecnologia muito segura porque utiliza uma plataforma tecnológica que já foi utilizada com sucesso em outras vacinas fabricadas em Cuba.

Em seu desenvolvimento, uma toxina foi anexada à proteína com a qual o vírus se liga à célula. Sua ação é baseada em um tipo de antígeno que é usado na espícula do vírus, que é a chave com a qual o patógeno entra na célula. Assim, quando o vírus tenta entrar na célula usando essa proteína, é gerada uma reação imunológica contra a toxina carregada pela proteína, bloqueando sua entrada na célula.

Outra questão importante é que a Soberana requer apenas de 8 a 2 graus de refrigeração. O antígeno é seguro, pois não contém o vírus vivo, mas partes dele, então, segundo os especialistas, gera imunidade, mas não causa grandes reações e, portanto, não precisa de refrigeração extra como outras vacinas contra a covid desenvolvidas em outros laboratórios…

Há alguma restrição relacionada à idade para o seu uso? Em particular, ela também pode ser usada com pessoas mais velhas ou existem limites de idade?

Até o momento, nenhuma restrição de idade foi estabelecida para seu uso.

No entanto, como parte do processo de teste de eficácia da fase III, foi decidido administrar a vacina a 44 mil pessoas dentro de 30 dias a partir de 8 de março de 2021, o que permitirá a conclusão dos estudos de eficácia.

Pessoas entre 19 e 80 anos de idade foram selecionadas para este ensaio de fase III, mas outras faixas etárias serão testadas em um estágio posterior para garantir que não haja restrições de idade.

O ensaio de fase III deve demonstrar que a vacina candidata atende às expectativas e requisitos não apenas da agência reguladora nacional, mas também das agências internacionais.

A vacina será administrada em 1 ou 2 doses?

A decisão final sobre a quantidade de doses dependerá dos resultados do estudo de fase III.

Os estudos de fase II concluíram que, após as duas doses, mais de 80% dos vacinados tiveram uma resposta positiva. Essa porcentagem subiu para 96% quando uma terceira dose foi administrada.

Na fase III, um grupo de pessoas receberá duas doses e será acompanhado por três meses. Outro grupo receberá três doses e também será acompanhado para finalização do estudo e estabelecimento de um cronograma definitivo de vacinação.

Você tem dados sobre a eficácia em termos das novas cepas ou mutações do vírus que estão aparecendo?

Segundo os pesquisadores cubanos, a Soberana pode proteger as pessoas das variantes do vírus que surgiram em diferentes países com a aplicação de duas doses da Soberana 02, e uma terceira dose da Soberana Plus está sendo considerada para reforçar a resposta dos anticorpos ao vírus.


Traduzido do inglês para o português por João Paulo Coelho e Castro / Revisado por Larissa Dufner 

Categorias: Entrevista, Internacional, Saúde
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