#Tbt

07.03.2021 - Rio de Janeiro - RJ, Brasil - Clementino Junior

#Tbt
(Crédito da Imagem: Tbt no dozotro — esferográfica sobre papel — Clementino Junior — 19/01/2021)
OLHARES

 

 

Por Clementino Jr. 

 

 

Sempre fui um aficionado por trocadilhos e ironias. Quem lê o que escrevo, mesmo antes da pandemia, sabe que sou capaz de fazer o trocadilho mais infame colocando meu bom “nome a lazer” em risco para não guardar sozinho a descoberta de uma boa besteira.

Então, não é de se estranhar que eu me interesse mais pelo simbolismo de uma das principais hashtags da internet, o Throwback Thursday, conhecido como #tbt.

O tbt surge num blog gringo na primeira década deste século, mas só retorna com força com o surgimento das hashtags nas redes sociais digitais. Hashtag é quando a tag — palavra-chave — se transforma num hiperlink, vinculando publicações com temática semelhante e virando uma maneira de criar postagens afinadas por outras relações que eventualmente não seriam possíveis e espontâneas nas redes de internet.

As hashtags nas discussões nas redes mais populares podem, a partir de sua mobilização, quando a palavra-chave envolve uma campanha, ser uma ferramenta de influência e poder. Mas, no caso do tbt, o elemento explícito é uma hipotética nostalgia.

A ironia que percebo no tbt está na palavra throwback que, para além de retorno, pode significar retrocesso. A saudade representada em momentos vividos — ontem, semana passada, mês passado ou em um passado distante — dizem muito sobre o que nos faz falta, mais especificamente sobre o que nos faz falta na quinta-feira, pois se estabeleceu um dia da semana para você expressar os seus momentos saudosos através de um hyperlink que vincula suas memórias às dos demais. Nesse momento, não me interessa falar sobre quantos dados de comportamento e consumo são passados para os gigantes da tecnologia, mas sobre o comportamento que buscamos nesse retrocesso de nossa memória, ironicamente, em um momento de retrocesso dos hábitos e das relações sociais, com tantas possibilidades de avanço que as hashtags poderiam possibilitar.

Outro dia mencionei uma frase a qual sempre recorro, mas que não uso em #tbts: odeie o jogo, não o jogador. Mas o que seria do jogo e as eventuais necessidades de atualização e acirramento das regras se não fossem as fragilidades dos jogadores? A rede e o que postamos é interpretada da mesma forma pelos smartphones e computadores como em um encontro casual, onde o diálogo “à moda antiga” seria suficiente.

digitalização de comportamentos e desejos nas redes sociais tem inúmeras ferramentas e estas aqui mencionadas são apenas algumas que codificam a saudade de um período que, talvez, não fosse tão bom para as demais pessoas, mas que no próprio microuniverso de quem posta suas memórias, só tinham coisas boas ou melhores que o momento atual.

A memória, sendo boa para a sociedade ou só para o indivíduo, surge toda quinta-feira em algum perfil, como forma de ampliar uma dimensão, a partir de quem você foi, sobre quem você é… Ou sobre quem se pensa que é. O Tbt, estrategicamente, pode ser o desenho de uma persona que não é a pessoa. O dimensionamento de um passado, recente ou distante, que diz muito sobre quem se pretende construir aos olhos do público.

Daí que é também irônico, durante a pandemia, o crescimento dos “falsos tbts”, onde as pessoas mantém um exibicionismo necessário para alimentar a visibilidade de seus perfis, com situações desejáveis a todos — como estar em festas se aglomerando, praias e locais paradisíacos, porém não recomendáveis pelas regras sanitárias de combate ao Covid-19 — e colocam a #tbt para simular como se “estivesse com saudade de um banho de mar”, mas no fundo burla as regras mexendo num imaginário “ponteiro do relógio”, mas no sentido anti-horário.

Real ou fake, o retrocesso buscado nas quintas-feiras, dia da semana consagrado ao planeta Júpiter — quinto mais próximo do sol — e à última ceia de Cristo, coincide com o clima de saudosismo que algumas poucas e influentes pessoas tem em achar que, em outros tempos sem liberdade, a vida era melhor que na “bagunça que está agora”. E como naquele tempo, agem em redes obscuras e não se articulam em redes abertas. Organizam suas ações conjuntas sem hashtags, mas com eficiência. Em comum entre os narcisistas das redes e os fascistas do deep web, só a saudade construída em suas mentes sobre uma vida que o tempo não trará de volta, mas que persistem que tem que voltar.

Acredito mais na conscientização dos narcisos em criar boas memórias hoje para um futuro de liberdade do que em quem tem memórias tão obscuras como os seus desejos de futuro.

Texto com revisão crítica de Tayna Arruda.
Categorias: Ámérica do Sul, Cultura e Mídia, Opinião
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