Troca de Pele

07.02.2021 - Rio de Janeiro, Brasil - Clementino Junior

Troca de Pele
(Crédito da Imagem: Laba Laba de Oyá — Bela d’Oxossi — hidrocor sobre papel)
OLHARES

 

 

Por Clementino Jr. 

 

 

Recentemente, em uma live de cinema, debatendo sobre uma questão política, me surgiu para explicar o que vem acontecendo conosco, como resultado do processo eleitoral: a metáfora da troca de pele. Em especial, pensando na troca de pele das cobras.

Assim como vários animais, inclusivo que chamamos de homem, a epiderme é a parte externa da pele. No caso dos humanos, a pele é trocada com frequência, às vezes imperceptível, pois as células desta camada externa vão morrendo e o corpo providencia a sua reposição. Por isso que as pessoas, quando vão à praia e se expõe demais ao sol, tendem a descascar a pele, pois a epiderme se torna pouco resistente e o próprio corpo reage. A cobra já tem uma pele muito resistente, em função da sua forma de locomoçãorasteira, e também para evitar a desidratação. Então, até 5 vezes ao ano, a cobra troca a pele, que nada mais é do que buscar uma pedra ou tronco seco e esfregar sua cabeça até conseguir separar a sua epiderme da camada mais interna. Então, ela vai se deslocando, enquanto a superfície na qual se põe em atrito prende a epiderme. É como se tirasse a meia-calça de uma perna e, ao final, ela abandonasse a sua pele murcha pelo avesso, incluindo a cabeça.

metáfora da troca de pele é porque, efetivamente, não há troca, há renovação da camada de defesa do corpo. O que contém os órgãos vitais, que transpira, que determina a sua aparência e representação diante do outro, mas que, no final das contas, é uma capa de algo essencial que está por baixo dela. E é essa essência que sofre com as desigualdades presentes e persistentes a cada troca de governo. É essa essência que não consegue mudar a aparência quando troca de pele. É essa essência que passa naturalmente pela renovação, mesmo sem descascar, mas que não entende que, a cada novo roçar na pedra, a luta pela permanente renovação continua, pois o mundo é movimento e, sem movimento, a pele murcha não fica para trás.

Essa metáfora também poderia seguir para o argumento de que a cor da pele não importa, porque a tal essência, o que está por baixo da epiderme, é o que deveria importar. Ledo engano. A epiderme se recompõe e a cor da pele retorna junto com a nova pele, pois, socialmente, a pele é a mesma e a essência do ser humano, que subjuga outro ser humano por razões — literalmente — superficiais, faz com que talvez a essência precise passar por metamorfoses, onde as dores da desigualdade, que persiste por gerações na chamada espécie humana, não virem uma tatuagem que não sai com a pele do corpo.

Metamorfose, aliás, trata da mudança da natureza e de uma certa maneira da essência desse ser durante o seu ciclo de vida. O exemplo mais conhecido é o da lagarta que se envolve no casulo — que não deixa de ser uma outra camada espessa de pele –, se transforma numa borboleta e voa. É fazer o ser evoluir e se transformar em outro e, com isso, poder transitar de forma mais cômoda em diversos ambientes. E, no sentido figurado, no caso humano, tem a ver com a mudança de caráter.

Metáforas, metamorfoses e metafísicas à parte, a borboleta é um dos símbolos da Iansã, pois ela representa várias fases de transformações desta Iabá. Em uma de suas lendas, Exú criou um encantamento em gratidão à Iansã, para que esta, toda vez que sentisse medo, se transformasse numa borboleta, linda e inofensiva, mas leve e rápida. E a borboleta também, ainda na metafísica, representa a reencarnação.

Talvez, para pensarmos novos caminhos e mudança de nossos rumos, tenhamos que fazer esta troca de pele ser mais uma metamorfose: uma mudança lenta no tempo e na construção, mas radical na essência e na aparência, por um mundo mais leve e bonito.

Sejamos borboletas, com a urgência de mudar a pele como as cobras.

Este texto contou com a revisão crítica de Tayna Arruda, com a arte de minha irmã Izabela (Bela d’Oxossi) e agradecimentos pela organização do acervo iconográfico da artista por minha irmãzinha Suzane Nahas.

Esse texto é dedicado a minha mais querida filha de Iansã, rainha das transformações em minha vida, minha mãe Chica Xavier.

Categorias: Ámérica do Sul, Cultura e Mídia, Ecologia e Meio Ambiente, Opinião
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