Javier Tolcachier: a comunicação alternativa a partir da experiência de Pressenza

07.02.2021 - Javier Tolcachier

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Javier Tolcachier: a comunicação alternativa a partir da experiência de Pressenza
(Crédito da Imagem: CII-Otras Voces en Educación)

No marco do Ciclo de Debates sobre Comunicação Alternativa, Javier Tolcachier, integrante de Pressenza, nos brindou com uma apresentação sobre a experiência de comunicação da agência.

Esses seminários em formação crítica e contra o neoliberalismo educativo, totalmente abertos e gratuitos, são organizados pelo Centro Internacional de Investigación – Otras Voces en Educación (CII-OVE,) em parceria com as organizações CEIP-H, MAEEC, Masa Critica, Savia, Kavilando, Mujer Pueblo-Magisterio, vice-reitoria de extensão da Universidad de Panamá, Emancipación, CIPCAL, coletivo Kaichuk Mat Dha, Red Global/Glocal pela qualidade educativa e o coletivo CENTRO MARTIN LUTHER KING-Uruguai

Tolcachier indicou a necessidade de incluir a comunicação como um tópico fundamental da Educação, para que se consiga fortalecer o potencial educativo diante do choque permanente de conteúdos difundidos pelas mídias corporativas.

Além de comentar sobre a origem doutrinária da ação comunicacional de Pressenza, baseado nos ensinamentos do argentino Mario Luis Rodríguez Cobos, mais conhecido pelo seu pseudônimo Silo, mencionou a necessidade de ampliar a difusão da não violência preparando o mundo que virá, mundo esse “que se anuncia como intensamente multicultural e intercultural, de igualdade, de diversidade, de horizontalidade entre pessoas, gêneros, povos e culturas”.

Em sua explanação, desenvolveu as estratégias colaborativas adotadas pela agência, assim como o empenho dedicado em processos formativos na comunicação para a não violência.

O colunista enfatizou a necessidade de nos prepararmos e a esse horizonte que desponta através da percepção da relação estrutural entre a interioridade humana e as situações sociais e de trabalhar para transformá-las, simultaneamente, a partir de um sentido de humanização.

Reproduzimos, a seguir, o texto integral da apresentação.

Comunicação alternativa e processo educativo

O único sentido evolutivo possível da Educação é um sentido emancipador, um sentido que esteja orientado para a transformação de condições dadas e da superação daqueles fatores que produzem dor e sofrimento pessoal e social. Um sentido que permita crescer aprendendo sem limites.

Citando Paulo Freire, reforça que a educação verdadeira é “práxis, reflexão e ação do homem sobre o mundo para transformá-lo”.

Os processos de comunicação alternativa buscam um objetivo similar, acompanhando lutas sociais justas, abrindo a consciência a novas possibilidades, rebelando-se a discursos monopólicos cujo propósito é a aceitação de situações indignas e ultrapassadas.

Ambos os processos, o educativo-emancipador e o da comunicação alternativa têm em comum algumas ferramentas, como os significantes e significados, que não somente transmitem e transferem conteúdos, mas que os desconstroem e reconstroem criticamente para ajudar a forjar novas possibilidades de realidade.

Assim como o aprendizado não fica circunscrito aos espaços educativos formais, tampouco os códigos transmitidos neles estão imunes ao espaço comunicacional. Espaço que hoje tudo abarca, desde o momento em que nos levantamos até a hora em que vamos para a cama, onde quer que estejamos.

Portanto, para obter êxito formativo, entendemos que a educação deveria incorporar a comunicação aos seus objetivos de estudos, já que ela pode ser uma aliada de peso ou uma concorrente letal.

Com certeza, a comunicação não se reduz aos modelos mediado ou intermediado ao que nos estamos referindo até agora. Ainda que seja óbvio, é importante fazer referência também à fundamental importância da comunicação direta, o diálogo e seu manejo suave por parte de todos os atores de qualquer processo grupal, seja ele educativo ou político, portanto, a relevância do tema sugere sempre uma especial atenção.

Voltando ao eixo central desta apresentação, diremos que o âmbito educativo pode ser um grande aliado da comunicação no sentido transformador, ao fortalecer desde os primeiros anos de aprendizagem um sentido crítico e esclarecedor da intenção que fundamentam a toda produção, seja ela a comunicação a serviço do protesto, da resistência ou a eminentemente subjetiva, como são a informação e a comunicação em seu sentido mais amplo.

Essa revelação de intenções, que constituem a verdadeira matéria-prima da história humana, leva-nos a comentar a perspectiva da comunicação que permeia as atividades da nossa agência, a Pressenza.

Comunicação a partir de uma perspectiva de não violência

A Pressenza é uma agência internacional de notícias de espírito humanista que dá visibilidade, prioritariamente, a acontecimentos, iniciativas, propostas e situações ligadas à Paz, a Não Violência, ao Desarmamento, aos Direitos Humanos e à luta contra toda forma de Discriminação. Posiciona o ser humano como valor e preocupação central e celebra a diversidade. É assim que propõe um jornalismo ativo e lúcido que respeite essas premissas essenciais, visando a resolução das crises e conflitos sociais em todas as latitudes.

Nesse sentido, divulga estudos, análises e ações que contribuam para a paz mundial e a superação da violência; priorizando o desarmamento nuclear e convencional, a resolução pacífica de conflitos, sua prevenção e a retirada dos territórios ocupados.

Ao mesmo tempo, denuncia todos os acontecimentos e situações que provocam dor e sofrimento nas populações, tentando decifrar e transformar as causas desses eventos sociais, indo além de sermos meros espectadores.

A agência nasce em 2008 para servir de suporte informativo à 1ª. Marcha Mundial pela Paz e a Não Violência. Tanto a agência como aquele ato, que contou com a participação de milhões de pessoas em nível planetário, foram impulsadas pelo Movimento Humanista.

Esse movimento coloca entre seus principais postulados o ser humano como valor e preocupação central e tem suas origens nos ensinamentos de Silo, quem, ao longo de 50 anos, desenvolveu uma doutrina e uma práxis com tendência à transformação simultânea do indivíduo e da sociedade.

Dentre suas principais contribuições, está o tema da intencionalidade como elemento definidor do humano, questão que é tributária da fenomenologia husserliana. Indo mais longe, Silo propõe como definição do ser humano a de “um ser histórico, cujo modo de ação social transforma sua própria natureza”.

Além das múltiplas implicações dessa definição, essa premissa é de fundamental importância para qualquer processo de transmissão de conteúdos, seja ele educativo ou comunicacional.

A negação da intencionalidade de um ser humano o “coisifica”, converte-o em objeto e constitui o pano de fundo da violência, em qualquer das suas múltiplas formas: violência física, econômica, psicológica, étnica, religiosa ou moral.

Assim é que o humanismo maneja (por coerência com sua própria lógica doutrinária) a não violência como única metodologia possível para a relação entre os seres humanos e seus motivos inerentes para transformação de tudo o que lhe é atribuído.

É preciso aqui expurgar outro preconceito que costuma vir associado à não violência, relacionando-a com atitudes passivas, contemplativas, ingênuas ou reduzidas a um pacifismo desconectado das contradições sociais, que estão na base do militarismo.

A Não Violência é, eminentemente, ativa, transformadora e, por sua própria postura, tem a estatura moral indiscutível para reunir o apoio dos grandes conjuntos. E, na prática social, vemos que hoje isto já se consolidou como um consenso entre os povos.

Essa atitude não violenta deve ser comunicada, deve ampliar sua influência, deve fortalecer a compreensão e a fé no seu potencial transformador. Para instalar uma cultura de não violência, que sirva de sustento para as próximas etapas da espécie, é preciso mostrar que diariamente são suscitados milhões de fatos não violentos e geradas matrizes de informação que contrabalancem a manipulação dos aparatos midiáticos do poder violento, interessados em justificar sua ilegítima ação e permanência.

A intenção de Pressenza não se esgota ao denunciar a violência estabelecida em suas múltiplas formas, mas também, em um sentido propositivo, visa informar sobre alternativas embrionárias ou já em curso, para consolidar horizontes de transformação efetiva.

Ao mesmo tempo, o propósito de comunicar explicitamente a partir da não violência é alentar a aderir, de modo consciente, a essa atitude de vida, multiplicando as possibilidades para que os conjuntos possam se unir às tentativas de mudança do seu entorno. Da mesma maneira, a comunicação de uma perspectiva de não violência tem como missão persuadir sobre a necessidade de coerência e reflexão sobre si mesmo, sobre os conteúdos da própria interioridade que devem acompanhar, mas que, se não forem suficientemente avisados, retardam ou impedem a ansiada transformação social e histórica.

Processos formativos de Comunicação para a Não Violência

Um aspecto-chave da ação da Pressenza é promover processos formativos relacionados à Não Violência e sua tradução, no campo da comunicação. Essa formação é imprescindível para atender aos seus propósitos informativos de maneira adequada, mas também para difundir e desenvolver metodologias de aprendizagem que ajudem a conformar e consolidar uma atitude humanista como modo de relação interpessoal e social.

O ponto de partida desses processos formativos é desalojar o preconceito de que a violência é parte da natureza no ser humano, já que, caso esse pré-diálogo inflexível se afirme, qualquer esforço de superação perde todo o sentido. E se esse axioma nocivo se sustenta, será difícil aceitar que as pessoas também possam ser generosas ou solidárias, ou que possam colaborar entre si, já que uma suposta “natureza” violenta impediria tais atitudes. E, caso se aceitasse que o ser humano pudesse ser de um modo ou de outro, então, na sua “natureza” estaria a possibilidade de escolher ou não a violência.

A assertiva é de que a violência é intrínseca à conduta humana e a própria noção da natureza humana tem sido usada para justificar atrocidades e erros, com base em naturezas supostamente diferentes, classificadas por uma ordem supostamente pré-estabelecida, cujos intérpretes moralistas e mandatários imorais foram geralmente colocados no topo da escala.

Sobre o tema da “natureza humana”, é conveniente ilustrar o particular com uma breve citação de Silo:

“A ampliação do horizonte temporal da consciência humana permite a ela atrasos diante dos estímulos e a localização deles em um espaço mental complexo, permitindo o posicionamento de deliberações, comparações e resultantes fora do campo perceptual imediato.

Em outras palavras: no ser humano não existe ‘natureza’ humana, a menos que essa ‘natureza’ seja considerada como uma capacidade diferente da capacidade animal de mover-se entre tempos fora do horizonte de percepção. Dito de outra maneira: se há algo ‘natural’ no ser humano, não é no sentido mineral, vegetal ou animal, mas no sentido de que o natural nele é a mudança, a história, a transformação. Tal ideia de mudança não se enquadra adequadamente na noção de ‘natureza’ e por esta razão preferimos não usar esta palavra como tem sido usada e com a qual numerosas deslealdades para com os seres humanos têm sido justificadas”.

E em um trecho mais adiante ele afirma:

“Estamos a uma grande distância da noção de natureza humana. Estamos no oposto. Quero dizer, se o natural havia asfixiado o humano, sujeito a uma ordem imposta com a ideia do permanente, agora estamos dizendo o contrário: que o natural deve ser humanizado e que essa humanização do mundo faz do homem um criador de sentido, de direção, de transformação.”[1]

A partir da relação estrutural entre a consciência humana e o mundo, tendo como ponto de partida uma necessidade evidente nos seres humanos de modificar as condições de vida, constrói-se uma concepção que permite pensar na dinâmica da evolução pessoal e social para sociedades e sujeitos sociais não violentos.

Deste ponto de vista, assim como o ser humano é concebido em uma influência íntima e recíproca com o ambiente que o cerca, da mesma forma que o campo da interioridade humana é apreciado em uma ligação permanente com a exterioridade circundante.

Por isso, a formação na atitude não violenta atua para a superação de fatores pessoais, interpessoais e sociais que geram dor e sofrimento, fatores que, ao se projetarem, realimentam a violência interna e externa.

Trocando em miúdos, nosso propósito é o de que, através de processos formativos na não violência e da prática comunicacional, esse modo de comunicar atue sobre ambos os termos de uma comunicação dialógica, operando transformações não somente em quem recebe uma informação, mas também em quem a produz.

Estratégias e desenvolvimento da Pressenza

Desde o começo, Pressenza se apoiou em virtudes provenientes da acumulação de processo do Movimento Humanista: a formação, o voluntariado de seus integrantes e a possibilidade de contar com correspondentes em distintos países e culturas.

Quanto ao voluntariado, essa não é apenas uma característica de ordem, sem dúvida, prática, que permiti contar com a colaboração de centenas de comunicadores militantes e expandir-se sem limites. A atitude voluntária implica generosidade, fazendo com que se tenha um estilo de vida próprio que desafia os valores impostos por um sistema mesquinho.

Mais além da necessidade de sobrevivência, que poderia ser perfeitamente coberta com a distribuição equitativa do que é socialmente produzido (que atualmente excede em muito as necessidades de toda a população mundial), o humanismo se rebela contra a crença que serve de base a toda forma de alienação humana: Ou seja, que toda ação produtiva deve corresponder a uma retribuição monetária e que esta retribuição, portanto, converte-se em uma motivação central para a existência.

Por sua vez, a ação militante voluntária coloca a agência em total liberdade de ação, não devendo ajustar sua linha editorial a nenhum mecenas permanente ou ocasional.

Quanto à presença internacional, além da importância de poder proporcionar informação a partir de distintos continentes, na atualidade em nove (9) idiomas, contextualiza os acontecimentos com uma visão global, e isso tem um valor intangível adicional, que é fundamental.

Pela interconexão e o contato crescente entre todas as culturas, estamos em presença do nascimento da primeira civilização planetária da história humana. Partindo dessa percepção, faz-se necessário forjar o entendimento, a convergência e o sentido de comunidade entre os distintos processos culturais, objetivo esse que a Pressenza aborda a partir da riqueza da diversidade, da resolução não violenta de conflitos, do multilateralismo geopolítico, da reparação das injustiças históricas e da reconciliação entre os povos como matérias informativas.

Em tempos de ruptura social e tendo presente o mesmo espírito de convergência sobre os pilares da não violência e da luta contra todas as formas de discriminação, a agência abre suas portas para um número considerável de colaboradores, com suas redações instaladas em diversos países ou atuando sob o prisma dos mais diversos idiomas, assumindo um caráter autônomo que lhe confere um importante grau de liberdade de ação.

E é essa característica de autonomia que lhe permite fixar as prioridades editoriais de relevância local, nacional, regional ou, inclusive, cultural, adaptando-se às necessidades de conjuntura, mas também forjar um espírito interno de agrupamento da diversidade, incluindo, sem dúvida, o debate e aprofundamento em temáticas nas quais não necessariamente há acordo editorial automático.

Em sua estratégia de desenvolvimento, a Pressenza tem feito do relacionamento colaborativo um eixo do seu modo de atuação. A criação e a manutenção de redes de comunicação, conjuntamente com as mídias e agências de todas as regiões do planeta, criam as condições necessárias para deslocar a manipulação da informação das agências que hegemonizam o discurso público, a tempo de propor novos sentidos comuns de solidariedade, cooperação e integração.

Projeção

Enquanto continuamos nos exercitando e aperfeiçoando o ofício da produção comunicacional, enfrentamos atualmente o mesmo desafio que todos aqueles que desejam uma revolução profunda e duradoura para uma nova matriz de relações, rumo a uma nova organização social de características humanistas e a um novo ser humano.

Esse desafio consiste em poder travar um contato dialógico com os grandes agrupamentos humanos, em conseguir penetrar a capa de superficialidade induzida pela desanalfabetização e incomunicação de um sistema capitalista cruel, que hoje tenta se reinventar através das chamadas novas tecnologias.

O desafio para concretizar esse diálogo de novos significados se vê facilitado não apenas pelo declínio evidente da situação objetiva que vivem os conjuntos na atualidade, mas pelo enfraquecimento cada vez maior dos paradigmas que mantinha de pé um tipo de organização social que já foi ultrapassada.

Entretanto, diante da incerteza e instabilidade que a situação promove, emerge também o retrógrado, o conservador, como ponto de apoio provisório, como ilusória compensação à ansiedade de conjuntura.

A humanidade requer, de maneira imperiosa, novas bases sobre as quais assentar seu horizonte futuro, um horizonte que se anuncia intensamente multicultural e intercultural, de justiça, de diversidade, de horizontalidade entre pessoas, gêneros, povos e culturas.

Para concretizar essa imagem, o desafio é então sintetizado na conexão com um mecanismo profundo que desde o início da história impulsionou o ser humano entre dúvidas e certezas, entre sucessos e fracassos, em direção a utopias inalcançáveis que mais tarde se tornaram a realidade mais plena e inquestionável.

Assim nos diria Paulo Freire: “Fazendo e refazendo-se no processo de fazer história, como sujeitos e objetos, mulheres e homens, tornando-se seres que se inserem no mundo e não de pura adaptação ao mundo, eles acabaram tendo no sonho também um motor a impulsionar a história. Não há mudança sem um sonho, assim como não há sonho sem esperança.”[2]

E tal como Silo destaca:

“Inútil e maléfica profecia que anuncia a hecatombe do mundo. Afirmo que os seres humanos não só continuarão a viver, mas crescerão sem limites. E também digo que os negadores da vida desejam nos furtar de toda a esperança: o coração palpitante da ação humana.”[3]

Tentar, pelo menos, vale a pena.

Muito obrigado.

[1] Silo. Acerca de lo Humano. Habla Silo. Editorial Plaza y Valdés.

[2] Freire, P. Pedagogía de la Esperanza. Siglo XXI Editores.

[3] Silo. Humanizar la Tierra. Editorial Plaza y Valdés.


 

Traduzido do espanhol por Graça Pinheiro / Revisão: José Luiz Corrêa

Categorias: Cultura e Mídia, Humanismo e Espiritualidade, Não violência
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