Umbauba

31.01.2021 - Rio de Janeiro, Brasil - Clementino Junior

Umbauba
(Crédito da Imagem: Umbauba d’Oyá — Clementino Junior — esferográfica sobre papel e app — 2020)
OLHARES

 

 

Por Clementino Jr.

 

 

“A Umbauba balançou com o vento,
O tronco envergou, mas ela ficou no lugar
Dona Iansã é quem sopra ventania
Se Umbauba não caiu, nada vai me derrubar.”
(Umbaúba — Chica Xavier — Chica Xavier Canta Sua Prosa — 1999)

Nos anos 80, a primeira vez que prestei atenção na existência e funcionalidade de algo “flexível” foi em alguma publicação de rock/música pop da época, que eu comprava nas bancas, que, em um número especial, dava de brinde um flex-disc. Era um disco compacto que, ao invés dos tradicionais vinis rígidos, era flexível, de plástico, colorido, dobrava tal qual a revista plastificada na qual vinha “encartado”. Você o colocava no prato do toca-discos e ele tocava lindamente, com uma qualidade ligeiramente inferior pelo material, mas como era “brinde” (logicamente embutido no preço da revista) ninguém chiava. E, para um pisciano descuidado com suas preciosidades, um disco flexível, diante de tantos vinis arranhados, dava menos trabalho. Tanto assim que nem sobreviveu à bagunça do lar, mas que era prático e funcional, isso era. Funcional, barato e descartável.

rigidez e a flexibilidade são muito comparadas à resistência e à resiliência. A flexibilidade, pensando em objetos físicos, é o motivo pelo qual o que pode ser rígido não se quebra. Há uma tolerância da matéria, uma certa elasticidade, uma resistência com limites persistindo para não perder a forma e funcionalidadeRigidez é 8 ou 80, ou fica firme ou quebra. Regras são rígidas e a flexibilidade está mais próxima do diálogo. Ao menos deveria ser assim.

O “Capetal”, tão pintado pelo Profeta Gentileza nas colunas dos viadutos do Gasômetro e da extinta Perimetral, se adapta rapidamente às intempéries e faz com que o flexível deixe de ser uma possibilidade de diálogo, mas a possibilidade de se livrar da responsabilidade da vida de terceiros.

Cada discurso que busca flexibilização do isolamento social, em meio aos números de vítimas oficiais — abaixo dos reais — do Covid-19, mostram o quanto a responsabilidade individual e institucional pela vida de terceiros é sem vínculos com estes. Veem a responsabilidade com a saúde do próximo, indivíduo ou grupo, como se fosse uma relação terceirizadaonde cada perda pode ser substituída por “uma fila de pessoas que precisam”.

Quanto mais penso sobre a flexibilização se distanciando do diálogo, em uma relação vertical, onde eu posso trabalhar de casa dando minhas aulas, vejo também empresários podendo gerenciar suas vidas e a dos demais empregados de casa. Enquanto isso, o terceiro setor tem que se amontoar nos cada vez mais raros transportes públicos para se expor ao risco , e assim fica mais nítido a quem atende a flexibilização.

Flexibilidade não é igual a afrouxamento. Mas, em se tratando do outro, afrouxa-se a responsabilidade do poder e flexibiliza-se o risco de quem não tem acesso ao já mencionado Dome Office. Serão os mesmos que não terão acesso às vacinas quando disponíveis e nem às UTIs quando em estado grave. Funcionais, baratos e descartáveis.

Não é de se estranhar que as populações afrodescendentes e pindorâmicas vem persistindo nesse plano após várias formas de violência e extermínio, seja por maus tratos, envios para guerras, insalubridade durante inúmeras epidemias, mas, mesmo assim, estamos aqui 5 séculos depois. Não sem dor, sem luta, sem estratégias. A Casa grande só flexibilizou nos tambores e na dança — inclusive na capoeira — por perceber que, se não cedesse um pouco naquela altura, o Haiti seria aqui, sem vibrato de Caetano e abacateiro do Gil. Creio que a urgência é a pressão popular para que o Estado flexibilize as medidas de prevenção ao Covid-19 a favor do povo. As urnas não serão suficientes para dar esta resposta, mas o diálogo, quando vem das bases, tem que ser com projeção na voz, pois o som emana para cima e essa voz tem que vir forte para não negarem a escuta.

“Se ao dizer suas palavras, ao chamar ao mundo, os homens o transformam, o diálogo impõe-se como o caminho pelo qual os homens encontram seu significado enquanto homens; o diálogo é, pois, uma necessidade existencial”
Paulo Freire

Esse texto contou com a revisão crítica de Tayna Arruda, com a brisa de Iansã e lirismo de minha mãe Chica.

 

 

Categorias: Ámérica do Sul, Cultura e Mídia, Opinião
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