PATRIMÔNIO

 

 

Por Paolo D’Aprile

 

 

Tá venu, meu sinhô, esse adifício arto, grande, enorme, na imensidão do céu? Aqui era nossa casa véia. Aí, veio os homi pra derrubá, o dono mandô saí…

 

Adoniran, é agora um busto na praça. Sulcos em rugas, ou rugas cavando sulcos no rosto de palhaço triste. Que o Vinícius me perdoe, mas Nóis não é o túmulo do samba, não. Não é mesmo: porque a Vai-Vai, aqui ao lado, pulsa mais viva do que nunca. E basta um passeio pelas vielas do bairro para ver, perceber, sentir na pele e no baticum do coração, a presença negra que misturada com gentes e culturas vindas dos migrantes italianos, deu ao samba uma caraterística singular, só nossa. A Paulicéia desvairadamente agradece, o samba agradece, o mundo agradece cada frase dele, Adoniran, alma imortal de bairro. Mas os homi chegaram, o dono mandô saí…

Antes mesmo do parecer definitivo, da reunião do Conselho, tapumes cercam o terreno, arame farpado para defender a propriedade privada, o stand de venda pronto para receber a ilusão de compradores. Dezoitos andares no coração da rua de casinhas antigas, testemunhas do século da imigração, do trabalho, e da adaptação abrasileirada das reminiscências europeias a formar um conjunto arquitetônico típico, único. No terreno funcionava um estacionamento, medonho espaço para centenas de carros, que com sua vulgaridade intrínseca, manchavam de fedor a tranquilidade das ladeiras, das árvores, das balaústras, das cores, das janelas emolduradas. Agora que o Conselho se dobrou aos interesses do mercado, naquele terreno baldio, surgirá um monstro, um insulto arquitetônico de dezoito pavimentos, lazer privativo, vista exclusiva, guarita e segurança para sua família, uma aberração estética que lançará sobre o primeiro olhar do transeunte a violência de dois andares de garagem, abrigo de automóveis dos futuros moradores: sufocando a calçada, violentando o sol, a luz, o ar, o espaço, aberração estética e ética, punhal cravado no coração dos homens. Sim, conceber um edifício desse porte em uma ruazinha de um bairro histórico, onde Arnesto brincava de tiro ao Álvaro, é mais uma agressão ao direito de viver na cidade que queremos mais humana, onde as relações de vizinhança não sejam engolidas pela violência do imanente, mas continuem na dimensão do manso decorrer do dia-a-dia.

Escadarias monumentais e vielas mediterrâneas unem a planimetria acidentada do local atravessando quintais onde o cheiro de jasmim resiste ao do diesel vindo das monstruosas avenidas, como muralhas barulhentas no limiar de portas e varandas. Lojas de antiquariado e feirinhas garantem instigantes passeios culturais, cantinas e barzinhos, rodeiam a igreja, onde uma imagem sagrada de Nossa Senhora, chama a si milhares de fiéis em uma das maiores festas da cidade, em que a Itália se reinventa pelas mãos de mammas redondas e fofas e seus segredos culinários. Senhorinhas de bobes sobem e descem as ladeiras com suas pesadas sacolas de compras. Um centro de acolhida para homens em situação de rua trata com dignidade os irmãos mais necessitados. Marceneiros levam à calçada suas ferramentas para que a luz do dia ilumine a precisão de seu trabalho. Grupinhos animados discutem de política perto do menor boteco do bairro, menor, mas bem bonito, onde, até pouco tempo atrás, quem gritasse “Fora Temer” podia ganhar um belo desconto. Pulsando vida, a vida pulsa. O gabarito baixo de casas e predinhos, deixa o sol brincar na sombra de esquinas impossíveis, nas quais o ângulo reto foi abolido por decreto divino. Sobe de um lado, desce do outro…, e o “progresso” chegou com seus tratores, seus viadutos e o mundo infame debaixo deles. Mas o teatro, sonho de Lina Bo Bardi e Zé Celso conseguiu resistir bravamente. Querem agora sufocá-lo, rodeá-lo no abraço mortal de um centro comercial. O Teatro resiste. Mas está com medo. A decisão do Conselho pode ser um precedente letal, não só para o teatro mas para o bairro inteiro.

O Conselho, órgão municipal com função deliberativa, cede às pressões das construtoras e dá seu aval para a edificação de um prédio, naquele terreno ao lado das casinhas coloridas, das janelas emolduradas e das balaústras. Não importa que o entorno seja tombado e protegido. Não importa. O prédio surgirá com sua violência sórdida. Um único voto contrário: a professora tenta reverter a situação, explica a importância fundamental da paisagem como meio de pertencimento comunitário, fala da história do bairro e da dimensão do viver urbano. Mas já estava tudo decidido. A pressão da especulação imobiliária possui meios e tentáculos capazes de convencer os conselheiros que, desta vez, desvirtuam a função do próprio Conselho: proteger, cuidar, zelar pelo patrimônio histórico, artístico e cultural, sem ceder à pressão empresarial do lucro a qualquer custo. A quem pertence a paisagem? Ao dono do empreendimento, ou a todos nós? Está decidido. O prédio enorme nascerá e crescerá com sua vulgaridade, sua ostensiva feiura. Acabou. Quando fumos pro meio da rua apreciá a demolição, nóis sentia uma tristeza que vou te contá, cada taubua que caia era pedaço de nóis que se ia.

Sentado no banco da praça, observo o busto de Adoniran, palhaço triste. Espero que agora, apesar da ignóbil decisão do Conselho, os aguerridos coletivos populares do bairro consigam reverter a situação. Adoniran me olhando, e um pássaro colorido deixa sua lembrança na manga da minha camisa. Dizem que dá sorte… dim dim donde nóis passemos dias feliz da nossa vida…