Nota Preta: João Carlos Bororó – “O Porto-Maravilha foi uma gigantesca especulação imobiliária”

18.12.2020 - Rio de Janeiro, Brasil - Mauro Viana

Nota Preta: João Carlos Bororó – “O Porto-Maravilha foi uma gigantesca especulação imobiliária”
(Crédito da Imagem: Bruno Bartholini /Cdurp)

Presidente da Associação Bloco Carnavalesco Coração das Meninas, João Carlos Basílio da Silva, é o popularíssimo Bororó,  líder comunitário da Região Portuária do Rio de Janeiro. Ele integra o Sindicato dos Estivadores e Trabalhadores em Estiva de Minério do Rio de Janeiro – Setemrj  e é um porta-voz das comunidades Santo Cristo, Providência, Pedra Lisa e Morro da Conceição, quando o assunto é o consórcio público-privado ou o Porto Maravilha, cuja história recua aos anos de 2010.  Bororó falou a Pressenza Brasil sobre esse e outros assuntos.

João Bororó

Confira a entrevista: 

– Qual o saldo do projeto público-privado Porto Maravilha para as comunidades afro-indígenas da Região Portuária?

– Para mim negativo. A Comunidade Afro-indígena, em nada, se beneficiou. Na verdade, foi e é até hoje,  uma região usada por aqueles que vivem da exploração de nossas histórias com a especulação imobiliária. O comércio local, por exemplo, continua desassistido. E o nome Pequena África? Só ganhou fama e apareceu quando começaram a explorar a história dos bairros, que compõem a Região Portuária. Nosso território é rico em cultura e história.– Qual a importância da Região Portuária para a cultura carioca? – Para mim é de grande importância. Primeiramente, pelo grande poder  da História da Região e seus legados como nosso patrimônio.– Quais são as  diferenças e as similaridades entre a produção cultural das comunidades (Santo Cristo, Providência, Pedra Lisa e Morro da Conceição) e do asfalto, na Região Portuária?

– Hoje em dia já não existe mais essa diferença de produção cultural entre esses bairros. Existia, na época,  dos blocos carnavalescos principalmente, nos banhos de mar à fantasia ou nos desfiles na Avenida Rio Branco Ali, os blocos se cruzavam. Na realidade era Saúde, Morro da Favela  (Providência), Gamboa e Santo Cristo.  Naquela  época, havia preconceito. Não só pela cor, mas também pela parte socioeconômica. Aqueles que não moravam no asfalto e sim nos morros e ladeiras eram simplesmente chamados de favelados.– Qual a contribuição dos povos originários (nações indígenas) na formação cultural da Região Portuária?– A meu ver, praticamente nenhuma. A Região Portuária é um território originariamente constituído por afrodescendentes. Somos Bantus, Jêges e Nagôs.– Em quais agremiações culturais, sindicais ou partidárias, você está associado? 

– Associação Bloco Carnavalesco Coração das Meninas, fundada em 25 de  de dezembro 1964, oriundo do bairro da Saúde, na Praça da Harmonia, no qual ingressei aos 14 anos de idade. No Coração das Meninas  ocupei o cargo de primeiro repenique. Hoje, estou na  Presidência. Na verdade desde 2012.  Na Liga de Bandas e Blocos da Zona Portuária estou vice-presidente. Sou diretor-presidente da Associação Previdenciária dos Estivadores Aposentados do Rio de Janeiro. Estou, ainda, na vice-presidência do Grêmio Recreativo Escola de Samba Acadêmicos de Vigário Geral. N0 Conselho Municipal dos Direitos do Negro (Comdedine)  represento a Associação das Baianas do Acarajé. Não posso deixar de citar o Afoxé Filhos de Gandhi.
                     
– Você conhece alguma iniciativa  dessas entidades direcionadas à juventude das comunidades da  Região ou Portuária?– Sim.  A diretoria do “Coração das Meninas” está trabalhando na elaboração de um Curso de Passistas e Ritmistas Mirins.

– E seus projetos, referentes à cultura do samba? Quais são? 

– Meus Projetos são o Bloco Carnavalesco Coração das Meninas  e o Um Bamba no  Berço do Samba onde os destaques são os compositores e as compositoras.  Na maioria das vezes, o pessoal da composição  fica no anonimato. Por isso, convido cantoras e cantores e os artistas apresentam as obras autorais.

– Você já tem um calendário da sua Roda de Samba para 2021?

– Não.

– Quais as lições que você aprendeu enquanto candidato a vereador? 

– Que a grande parte das pessoas, principalmente os de comunidade, não busca se unir por um bem ou um  amanhã melhor. Mas, sim, ao que melhor lhe convier ou lhe trouxer algum benefício imediato. Em resumo:  se trocam ou se vendem.

– E sobre o próximo pleito eleitoral? Você estará na disputa?
Sim. Com Certeza.

– O que a história dos sindicatos (Portuários, Gráficos e Construção Civil) e  a
História  das agremiações da cultura do samba (Vizinha Faladeira, Fala, Meu Louro e Prata Preta)  podem  nos ensinar, em relação ao futuro,  e a cultura da Região Portuária? 

– Referente à história dos sindicatos, só posso dizer aquele que realmente é do meu conhecimento. Que muito contribuíram não só para a história da Região Portuária, mas também foram de grande poder no desenvolvimento econômico dos bairros do complexo portuário. São eles:  Sindicato dos Estivadores e Trabalhadores em Estiva de Minério do RJ,  com 117 anos. O primeiro sindicato do Brasil teve uma de suas primeiras sedes na Praça dos Estivadores, hoje Rua Antônio Lage, 42. Faço parte do Setemrj desde 1977,  quando ingressei como Estivador, na mão de obra supletiva.Depois vêm o Sindicato dos Arrumadores (Resistência) e o Sindicato do Café. Esses eu sei que fizeram, contribuíram e continuam contribuindo na orla da Região Portuária e na Cultura. Ainda hoje muitos exercem não só cargos, mas são fundadores de escolas de samba e, mesmo com todas as mudanças que o progresso trouxe, continua sendo um marco na cultura. A cultura do samba, portanto, nos ensina que, nada tem a nos acrescentar,  a não ser ao nos mostrar a cada dia o quanto estavam fugindo do  real significado de ser um “sambista”.
Categorias: Africa, Assuntos indígenas, Ecologia e Meio Ambiente, Entrevista
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