Como a crise do coronavírus agravou a já difícil situação dos palestinos? Para saber mais, a diretora-geral da PAX, Ana Timmerman, conversou com Lucy Nusseibeh, fundadora e presidente da Middle East Nonviolence and Democracy (MEND, Movimento de Luta pela Democracia e Não Violência no Oriente Médio), uma das organizações parceiras da PAX na Palestina. Elas conversaram sobre a intensificação da voz das mulheres e a resistência não violenta, e também sobre a esperança em épocas de desespero. Nusseibeh: “Toda demonstração de confiança e de apoio ajuda as garotas a tirar o melhor delas mesmas”.

Estava ansiosa para fazer uma viagem a Israel e a Palestina, mas então apareceu a COVID-19.

Lucy Nusseibeh: “Há uma grande taxa de infecções nos Territórios Palestinos e em Jerusalém, onde moro. Agora mesmo, estamos vivendo um confinamento bem restrito aqui. Ainda assim, parece que as pessoas não estão levando isso realmente a sério – não vemos muita gente usando a máscara facial. Muitas pessoas acham que isso é uma conspiração, uma mentira, que não é para valer. Em parte, é uma negação e, em parte, uma crença esperançosa a respeito da própria imunidade. No começo, houve muita demonstração de solidariedade e a coesão social aumentou. Até mesmo a valorização atribuída ao governo da Palestina melhorou. As pessoas estavam felizes pela maneira como a situação vinha sendo administrada. Mas, agora, a situação piorou”.

Não vou a Israel nem à Palestina desde 1997, desde os meus tempos de estudante de História na Universidade Bir Zeit, na Cisjordânia. O período que passei lá me motivou a tornar-me feminista e a trabalhar em defesa dos direitos humanos. Tanto a Palestina como Israel têm um lugar especial no meu coração. E como é que está a situação por lá, agora?

“Em 1997, era muito diferente. Havia um verdadeiro processo de paz. Isso já não é mais o caso. Obviamente, havia alguns obstáculos naquele momento, mas eles podiam ser superados. Entretanto, a situação atual é alarmante. Em geral, pensava que a situação não podia piorar, mas sim, ela pode. Quando os Acordos de Oslo foram assinados, havia esperança mas, no final das contas, tudo foi militarizado. Em 1997, havia muito menos armas. Agora, as armas estão por toda parte e as pessoas não são muito sensatas ao usá-las, porque atiram para o ar, atiram também em celebrações de casamentos às vezes, os tiros ferem pessoas por acidente. E as pessoas também usam armas em disputas familiares. As armas estão disponíveis demais e são usadas com muita facilidade”.

Que mudanças você tem observado nos jovens, especialmente quanto à conscientização política?

“Antigamente, era comum as pessoas se envolverem com política. A população era menor, todos se conheciam muito mais. Era impossível morar aqui e não estar envolvido com esse tema. Mas agora… as pessoas estão muito menos comprometidas. Elas se sentem desmotivadas pelo que veem acontecer ao seu redor. Há muito menos expectativas. Não vejo esperança na criação de um Estado palestino nem para se alcançar a paz. No passado, todos queriam que a Palestina se transformasse em um símbolo, mas ninguém acredita mais nisso hoje. As pessoas também já não têm tanto conhecimento como antes, elas têm um pensamento muito menos sofisticado. Inclusive, muitas nem sequer sabem o que ocorreu durante as guerras de 1948 ou 1967. Isso era considerado como um conhecimento fundamental, mas hoje em dia não é bem assim. Hoje o individualismo impera, a sociedade está mais fragmentada. Isso ocorreu depois dos Acordos de paz de Oslo. As pessoas estão endividadas, atoladas até o pescoço em esquemas de dívidas dos quais não conseguem escapar. As condições de vida também têm se deteriorado. Antigamente, as pessoas moravam em casas com jardins, enquanto que agora moram em prédios altos, empilhadas em vários andares e com quase nenhum espaço entre os edifícios”.

Como você conserva a esperança?

“Não é algo que funcione sempre. Mas, felizmente, está o meu trabalho, um trabalho que faço junto com outras pessoas e com a PAX. Esse trabalho tem produzido resultados e impactos. Não temos grandes ambições; não há lugar para isso aqui. Mas podemos visualizar um crescimento. Isso não muda a situação de maneira repentina, mas nós estamos construindo algo. O que já não existe mais é esperança para alcançar uma paz nacional. Nós trabalhamos em menor escala e ajudamos onde é possível”.

Você pode explicar como, apesar de tudo, você trabalha pela paz?

“O treinamento voltado para a resistência não violenta e para empoderar as mulheres representa a principal parte do meu trabalho. Desenvolvemos projetos na área de Educação, incluindo um que tem como objetivo específico meninas em idade escolar, para que, quando elas cresçam, tornem-se mulheres mais confiantes. Um dos projetos que recebe apoio da PAX é o que ensina as meninas e mulheres a produzirem vídeos nos quais podem contar a própria história. É raro que elas arrisquem subir o tom de suas vozes, isso porque vivemos em uma sociedade patriarcal. Mas, através dos vídeos que produzem, elas conseguem ser ouvidas. Isso as ajuda a criar confiança e demonstra a outras mulheres que elas têm permissão para existir e também o direito à livre manifestação”.

Esses vídeos também têm um efeito mais amplo?

“Tudo começa como um trabalho pequeno, em grupos de oito mulheres. Elas filmam e são filmadas. Elas têm que se acostumar com o próprio som que emitem, com a sua própria voz. É algo muito poderoso o que ocorre, embora os filmes não sejam, tecnicamente, de alta qualidade – não esperem nenhum Oscar. Mas, as pessoas sentem que os filmes mostram o que é real. Os filmes são exibidos para uma audiência mais ampla, para políticos, o que resulta em boas discussões e em maior conscientização. Também fizemos esse trabalho em um campo de refugiados. Um dos vídeos era sobre uma mulher divorciada, com cinco filhos. Na nossa sociedade, o divórcio é algo que se despreza profundamente; por isso, o vídeo foi gravado de uma maneira a não permitir identificá-la nas imagens. Porém, ela estava tão orgulhosa durante a exibição, que se levantou e gritou: “Essa aí sou eu! Por favor, não repitam os mesmos erros que cometi”. Meninas de 16 e 17 anos são obrigadas a se casar, mas existem muitos riscos nesses casamentos tão precoces e, nos vídeos, as mulheres advertem contra eles. Depois de assistir aos vídeos, os políticos passam a levar os problemas que existem nos campos de refugiados muito mais a sério”.

E é claro que os problemas são enormes…

“Sim, há muita raiva e frustração. Nós treinamos as mulheres para que lidem com isso, para que transformem essa raiva em resistência, sem se utilizar de violência. As mulheres que participaram dos nossos projetos hoje fazem um trabalho importante. Elas abordam questões como a ideologia de gênero, os meios de comunicação e a segurança humana nas escolas. Trabalham como ativistas e querem participar dos conselhos locais. São apaixonadas pelos direitos das mulheres, o que é algo muito bonito de se ver e gera um enorme impacto. Também trabalhamos com meninos e meninas. Trabalhamos em conjunto com o Ministério da Educação. Versões curtas dos vídeos estão disponíveis para telefones celulares. Nós lhes ensinamos como devem entender e criticar os artigos divulgados pelos meios de comunicação e também a contar histórias. Preparamos as professoras para que se tornem facilitadoras. É uma questão que tem a ver com o desenvolvimento da comunidade e com a coesão social, não com o ato de protestar. Essa é a base da não violência. Quando você se retrata e deixa aflorar a sua própria humanidade, então você tem poder. As pessoas se deixam convencer de que estão erradas e se deixam dissuadir. Nós tratamos de contrabalançar essa atitude”.

As ocupações, o quanto elas influenciam nesses sentimentos?

“Os anos de opressão têm sido extremamente prejudiciais e alimentam o sentimento de vitimização. Mas as pessoas têm que fugir disso, têm que entender a complexidade dessas ocupações. Para as mulheres, ocorre uma espécie de dupla ocupação. Existe bastante pressão e o coronavírus tem piorado o problema. Nos campos de refugiados da Cisjordânia, todos são observados e abordados. É difícil se sentir livre. Qualquer tipo de responsabilidade e apoio ajuda as meninas a obter o melhor delas mesmas e a estar menos preocupadas a respeito do que as tradições e a sociedade esperam delas”.

Eu sou relativamente nova na PAX. Você daria algum conselho para a nossa organização?

“O trabalho com a PAX funciona como uma parceria. Existe transparência e confiança, além disso, a PAX é uma organização que se mantém sempre positiva. Só isso já é uma grande conquista, porque você pode se concentrar nas coisas certas. Foi difícil colocar em ação o projeto do vídeo sobre a questão de gênero, mas, agora, graças à ajuda da PAX, ele entrou nos eixos. Na verdade, organismos como a União Europeia e as Nações Unidas também nos ajudam com esse tipo de trabalho. Sou muito grata pelo apoio que vocês nos concedem e pela maneira como o oferecem. Mantenham-se abertos para ouvir o que outros dizem e sempre assumam riscos, exatamente como estão fazendo agora”.

Obrigada. É muito bom ouvir isso. Mantenha-nos informados sobre como podemos melhorar. Espero te encontrar pessoalmente.

“Muito obrigada, eu também quero agradecer pela ajuda de vocês e espero que você fique bem durante essa pandemia”.


Traduzido do inglês por Graça Pinheiro / Revisado por José Luiz Corrêa.

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