Só o que for possível. Cap. VIII

04.10.2020 - Rio de Janeiro, Brasil - Guido Mendes

Só o que for possível. Cap. VIII
(Crédito da Imagem: Fernanda Nóbrega)
LIVRO

 

 

Um mundo sem fim

Começo mais um dia. Escutei no rádio esta manha que as autoridades brasileiras começaram a afrouxar as políticas de distanciamento social. Cada estado da federação está criando um plano de flexibilização da quarentena, mesmo com o crescimento dos números de contaminados pela Covid-19 e de mortes. Segundo a reportagem, a cada um minuto, uma pessoa morre no país contaminada com o vírus.

O sistema de saúde esta em colapso em todas as regiões e não há profissionais de saúde e respiradores para todos. E para agravar a situação, o país fechou mais de 5 milhões de postos de trabalho em apenas três meses.

A União não está conseguindo levar o auxilio emergencial a milhões de brasileiros e há fraudes na compra de equipamentos, na montagem dos hospitais de campanha e na aquisição de medicamentos. O cenário é de caos, perfeito para que o também vírus da corrupção e da ganancia continuem ceifando vidas.

A chuva e frio castigam a cidade. Ventos fortes e trovões anunciam a chegada de uma frente fria. Estou sem luz elétrica. Toda a região está às escuras devido a um acidente na rede de transmissão.

No meu quarto, sozinho, vejo apenas as sombras da pena a deslizar sobre o papel, refletidas na parede. Tenho apenas uma vela como companheira.

Lembro dos meus…o que fazem? Estarão sós, sentindo o mesmo frio?

Fazem três dias que não não falo com ninguém da família e sinto, pela primeira vez, o sabor amargo da solidão.

Passei a noite lendo um romance e sinto a vista cansada devido ao esforço pela luz fraca.

O vento continua a soprar insistentemente, promovendo um estranho balé de sombras a minha frente. Meus olhos faíscam de sono, mas minha alma ainda está mergulhada nas informações e na solidão. Volto à leitura do romance, como forma de me refugiar da realidade sombria desse dia de inverno.

Passei grande parte da noite lendo o romance, uma espécie de manuscrito antigo, de autoria desconhecida, que comprei num sebo, na Praça Tiradentes, no Centro do Rio, quando ainda frequentava a faculdade de jornalismo. Naquela época tinha esse hábito de caminhar com minha máquina fotográfica pelo Centro antigo da cidade, fotografando telhados e frequentando sebos.

Mas, voltando ao livro, a narrativa discorria sobre personagens distintos que se interagiam através do tempo, onde vida e morte habitavam conscientemente uma mesma dimensão. As personagens trafegavam por um mundo sem fim, mas suas ações, obrigatoriamente tinham uma finalidade, como num espécie de carmas individuais que se relacionavam para elevar o nível de consciência de todos – vivos e mortos.

Trata-se de uma história muito simples, que leva o leitor a refletir sobre o seu caminhar no planeta terra. Quantos de nós, recebemos uma segunda chance? Já se imaginou dentro de um carro que se choca de frente em alta velocidade, ou num avião que cai, numa guerra, ou se curando de uma doença grave? Tudo pode parecer pequeno, enquanto não experimentamos, mas se torna gigante quando o sopro da vida ameaça nos abandonar.

E diante disso, já se perguntou o porquê de, mesmo tendo consciência da perenidade da vida, nos mantemos apegados e repetindo padrões que não nos trazem a felicidade? Seguimos construindo teias para nos proteger e acabamos nos perdendo no fetiche das tolas ilusões como o dinheiro, o estrelato, a luxuria e tantos outros pecadinhos que nos alimentam, mas não nos satisfazem.

Estamos em 2020, dois milênios se passaram e a humanidade ainda não conseguiu romper a barreira da matéria e redescobrir sua essência espiritual, o seu eu superior. E não adianta pensar que isso é religioso, pois as religiões se encarregaram de conduzir a si mesma para o mesmo caos, onde se encontra o mais vil dos pecadores.

Às vezes me pergunto se serão necessários castigos divinos para que o homem volte a se encontrar com Deus, ou Ele não se faz mais necessário para guiar nossos passos em meio às turbulências e ao caos dessa Babel pós moderna. Pergunta que deve continuar sem resposta até o descerrar das cortinas e, é nesse embalo que o sono me vence e eu adormeço.

Sonho… Estou numa grande fazenda cuidando de uma plantação de morangos, um lindo campo próximo à colheita e me encho de felicidade. Mas, do nada começam a crescer ervas daninhas que consomem todos os frutos. A erva é tão poderosa e avança sobre toda a plantação, destruindo-a em poucos minutos. Tento em vão combater a praga e quanto mais eu me esforço, mas ela se alastra, e toma conta de toda a fazenda.

Me refugio em uma grande pedra no meio do terreno, tomado pela praga e choro. Me sinto uma criança perdida a olhar sua própria ruína e sem vislumbrar uma saída para aquela perda. Tento várias saídas, mas todas, tolas e reticentes, pois não há tempo para salvar os morangos e nem para curar aquela terra que se deixou cultivar pelo mal.

Acordei num sobressalto e passei a analisar aquele pesadelo que me roubou o sono. Me coloco no lugar da terra, que se deixou contaminar e percebo que os meus morangos, na verdade, eram apenas as minhas ilusões e, quanto mais eu as alimentava, mas o meu eu, o meu terreno fértil, era contaminado pelos sentimentos e pensamentos egoístas que eu cultivava sem perceber.

Minhas máscaras foram caindo uma a uma, à medida que as ervas daninhas destruíam minhas ilusões e um sorriso de compaixão tomou meus lábios.

Viro-me de lado e vejo o velho manuscrito. Ele está aberto no ponto onde eu dormi e no fim do capítulo li:

Eu sou um pensamento,
uma hipótese
Busco o sentido dessa existência em cada pulsar de vida
que se adianta de mim rumo ao desconhecido
Sou o que tive coragem de ser e, aquilo que não fui
sou uma abstração de Deus…
Um caco de vidro, que se soltou da rachadura da taça,
a ponte que não foi construída sobre o rio que não nasceu,
sou a montanha que não sentiu os pés dos peregrinos
Não sou e sou…
a torre da igreja vencida pelo tempo,
a foto amarela presa na gaveta,
o corpo seco afagado pelos braços asfixiantes da terra
Sou apenas, uma vontade alheia do vento que carrega a folha seca
na direção de um destino que ainda se fará…

Depois de ler o texto, me senti ainda mais perdido, como a criança do sonho que se encantou com as ilusões, mas não conseguiu se encontrar diante de tantos caminhos reticentes para a cura de seus males.

O barulho das bombas de gás e fogos me despertam de vez para a realidade. A juventude está nas ruas lutando para tirar as ervas daninhas do poder…e é para lá que eu. Visto-me, municio uma pequena mochila de álcool em gel, máscaras e vou para as ruas, lembrar de como, num passado, não muito distante, conseguimos vencer o mal que nos sufocava. Talvez ainda possa contribuir nessa batalha. A febre da juventude tomou o meu corpo e o vento, o cheiro de gás me fizeram vivo outra vez.

Vagarei pelas ruas contando os paralelos
em cada passo, um astro, um rastro…um caminho de luz
semeadura em terra crua
colheitas distribuídas a todos
sem domínios ou limites,
sem promessas…
amor e renuncias a serviço da liberdade
até que o não sei desapareça e da dúvida,
brote a esperança
à luz da revolta!!!


*  A história, dividida em capítulos, não segue uma linearidade de tempo que se constrói seguindo a lógica de um relógio, mas se insere acerca de um período imensurável de uma quarentena, durante uma pandemia mundial. As crônicas são narradas na primeira pessoa, mas usam personagens e lembranças do narrador para criar um ambiente de comunicação entre vários mundos em diversos tempos.
Só o que for possível conta com as ilustrações da artista plástica, Fernanda Nóbrega, numa técnica mista de carvão e nanquim.
O conjunto de 12 capítulos será disponibilizado aos leitores de Pressenza ao longo de alguns meses. A cada 15 dias será publicado um capítulo com uma ilustração. Acesse nesse link os capítulos já publicados.
Categorias: Ámérica do Sul, Cultura e Mídia
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