Mulheres e mudanças: a que ponto estamos?

16.10.2020 - Dakar, Senegal - N'diaga Diallo

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Mulheres e mudanças: a que ponto estamos?
(Crédito da Imagem: Thierno Ngom)

Nós viemos de algumas localidades do departamento de M’bour, na região de Dakar, Senegal, como parte da campanha “Stopaludisme [pare a malária], que a ONG Énergie pour les droits humains [Energia pelos direitos humanos], desenvolve há mais de uma década para contribuir para a erradicação da malária.

Regularmente pelo caminho, imagens de procissões de mulheres jovens e idosas desfilam pelas estradas, oferecendo aos viajantes diversas frutas ou outros produtos… em uma atmosfera ao mesmo tempo trágica e despreocupada, às vezes usando máscaras de maneira inadequada sobre o rosto, como se já tivessem passado por coisas piores… a Covid-19 sendo uma calamidade a mais….

Difícil não se emocionar diante destes rostos cheios de orgulho marcados pelo esforço de dar um jeito na situação “fazendo alguma coisa”. Igualmente difícil se habituar a essas diferentes estratégias de sobrevivência. E não de vida!!! …. Usamos como justificativa o que sentimos ao ver todas essas mulheres, considerando que o lugar das mais jovens com certeza não é na beira das calçadas, presas fáceis e inocentes frequentemente entregues a todas as tentações, mas, sim, em uma sala de aula como nossas crianças, sobrinhos ou irmãozinhos… A seção “cotidiano” de muitos jornais relata diariamente coisas horríveis a esse respeito.

A vida das mulheres no Senegal precisa mudar! A princípio, todos estariam de acordo.

Neste contexto, a Énergie Pour les Droits Humains (organização composta de humanistas e voluntários vindos de diferentes localidades que compartilham da mesma aspiração: reduzir a dor e o sofrimento através de diversos projetos sociais) principiou experiências originais através do “Apoio a uma criança e sua aldeia”, iniciado em 2003, no Senegal. A organização proporcionou o estudo de aproximadamente 400 meninos e 280 meninas, construiu sete escolas maternais, organizou nas aldeias e localidades visitas médicas a cada seis meses para prevenção contra doenças, criou cantinas escolares…. As últimas estatísticas disponíveis indicam que 40% das meninas e 60% dos meninos frequentam as escolas de Ndiadiane, Sossope, Tataguine, Pikine, Bandoulou, aldeias onde as atividades têm continuidade.

Há ainda a criação de galinhas, o processamento de cereais, o microcrédito; todas essas coisas demonstram que a Énergie Pour les Droits Humains contribui para a promoção e autonomia econômica e social das mulheres.

Entretanto, aqui na Énergie Pour les Droits Humains cremos fundamentalmente que a mudança da situação social, incluindo a situação das mulheres, que é amparada pela organização, demanda uma mudança no sistema. O sistema atual só gera miséria e desolação; a Énergie Pour les Droits Humains resulta desta constatação.

Humanizar a sociedade contribuindo para o nascimento de novos paradigmas mais compatíveis com a grandeza, com a dignidade do Ser Humano, colocando-o no centro de toda preocupação; dando as costas aos paradigmas atuais do sistema: o Poder e o Deus dinheiro.

De que forma podemos convencer alguém a acreditar seriamente que as aspirações das mulheres, bem como de todos os seguimentos da sociedade, podem ser superadas, resolvidas no âmbito do sistema atual?

Como bem sabemos, o sistema atual degrada a vida de todos, homens e mulheres.

Estamos todos no mesmo barco, mas em compartimentos diferentes!!!

Os homens em cima, as mulheres em baixo!

A solidariedade de todos é uma chave para a “saída da crise” em direção a uma sociedade realmente humana…

Formular respostas de “saída da crise” exige diagnosticar, realizar uma autópsia do segmento mais explorado, mais fragilizado, e que, contudo, constitui uma maioria entre nós: as mulheres.

Trata-se de uma questão política maior! Mas que, infelizmente, é reduzida à categoria de politicagem e folclore pelos partidários do sistema (ver o teor da maior parte das manifestações de 8 de março, Dia Internacional da Mulher). Apesar disso, esse dia poderia ajudar a levantar o assunto de forma franca, audível e radical.

Geralmente, muitos analistas ou “experts” autoproclamados só fazem retomar clichês banais transmitidos por estruturas ligadas ao Estado, ou levantam falsas alternativas influenciadas pelas teses reformistas/liberais em curso, inspiradas nas recomendações do Banco Mundial.

As mulheres devem estar em primeiro plano para conquistar seus direitos … Reconhecer isso já é benéfico para elas dentro de um dispositivo estratégico, em relação às suas aspirações de libertação.

Até o momento, é em espaços relativamente reduzidos que as mulheres confessam o seu “basta”. Jornais, redes sociais, associações etc… Há algum tempo, jovens mulheres engajam discursos “fortes” contra o patriarcado. É também nas redes sociais que o coletivo “Doyna!” [1], contra as violências feitas às mulheres, se faz escutar. Seria o prelúdio de um engajamento ligado ao ativismo social e político? Todavia, o discurso de emancipação que elas carregam é necessário. Ele permite ideologizar, conflitar relações de gênero e torná-las visíveis e políticas.

Os diversos meios de comunicação também são um receptáculo importante para a sociedade, seus valores, suas crenças e seus tormentos. Não recebemos diariamente relatos, testemunhos de mulheres denunciando assédios permanentes ou abusos sexuais durante sua infância? Na verdade, cada um de nós conhece histórias reais de estupros. Também sabemos que a objetificação da mulher, em nosso país, é uma realidade. Objetos de desejo, objetos sexuais ou simples objetos de procriação. O olhar do homem senegalês sobre a mulher é quase sempre o de um predador ou opressor. É preciso escutar os propósitos moralistas sobre os deveres das mulheres com relação a sua família, seu marido e seus filhos. Elas são infantilizadas o tempo todo. Há toda uma semântica alienatória. A mulher deve aceitar, suportar. Baixar o olhar e a guarda. A mulher é permanentemente rebaixada. As relações sociais entre homens e mulheres são de fato tendenciosas.

A inferioridade da mulher está fortemente enraizada no nosso sistema de valores. A produção social quer que a mulher permaneça escrava do homem. Cada um pode verificar esse fato de acordo com sua experiência pessoal. Os meninos e meninas não têm as mesmas armas, de início, para vencer na vida. As meninas têm mais obrigações e tarefas a realizar. Há uma exigência maior sobre elas. Elas devem se preparar para um universo social impiedoso. Os meninos sempre têm mais liberdade. Maior acesso a crescimento pessoal, menos deveres contratuais no que diz respeito à moralidade social. A sociedade senegalesa prepara homens para serem conquistadores e dominadores, contra as mulheres. No que diz respeito a estas últimas, sua utilidade social responde a duas injunções: satisfazer aos desejos dos homens e dar-lhes filhos. As mulheres senegalesas sofrem uma falta de consideração assustadora. Elas são precarizadas, assediadas sexual e psicologicamente, violentadas. E tudo isso é estrutural.

Foto Francesca Noemi Marconi/Unsplash

Um olhar atento evidenciará facilmente a relação entre a miséria endêmica nas sociedades africanas pós-coloniais e o lugar atribuído às mulheres. O status social das mulheres, bem como as representações feudais às quais elas estão submetidas, justificam, em grande parte, nossos problemas econômicos, políticos e mentais. Uma comunidade que impede a mobilidade social e a ascensão de todos os seus membros está fadada ao impasse e às diversas formas de violência. O comprometimento e o respeito à integridade das mulheres serão o passo decisivo para a salvação de todos os senegaleses. É a única maneira de levar em conta o interesse geral e de sair da nossa crise cultural definitivamente. Thomas Sankara, em seu discurso de orientação política em outubro de 1983 ressaltava que: “o peso das tradições seculares da nossa sociedade dedica à mulher a categoria de animal de carga. Todos os flagelos da sociedade… são suportados duplamente pelas mulheres: primeiramente, elas conhecem os mesmos sofrimentos que os homens; em segundo lugar, elas passam por outros sofrimentos nas mãos dos homens”.

Em nosso país, o Estado incentiva a participação política das mulheres (também graças às manifestações internas e ao contexto social) e tenta atribuir a elas um lugar no sistema educacional e acadêmico. Assim, em 2015, no Senegal, a taxa bruta de escolarização das meninas era de 63,3 %, contra 56,6 % em relação aos meninos. No plano institucional, a lei de paridade permitiu às mulheres ocuparem 70 assentos na Assembleia Nacional, ou seja, uma taxa de representação de 42%. Mas sua inclusão no sistema social é dificultada. Em 2014, o índice de desigualdade de gênero, que calcula a diferença entre os sexos em um país, colocou o Senegal na 125ª posição, entre 162 países. Ao mesmo tempo, o índice de desenvolvimento humano que mede o desenvolvimento humano de um país a partir do produto interno bruto, da expectativa de vida e do nível educacional dos habitantes de um país, fixou o Senegal na 166ª posição entre 189 países. O caso é o seguinte: somos pobres pois não respeitamos as mulheres. Não é preciso ter a consciência de um Buda para compreender isso!

Uma sociedade se humaniza quando é intransigente no que concerne à igualdade e ao respeito pela integridade humana. É preciso ser estúpido ou ter uma inclinação perversa ou sádica para não o notar. No Senegal, o sistema social e moral ainda é dominado pelos homens. Conservadores, falsos puritanos e insensíveis aos direitos das mulheres. É uma masculinidade nociva. Assim, todo processo de transformação econômica, política e social fica bloqueado, devido ao arcaísmo do sistema, imposto e perpetuado pelo elemento masculino. Cabe às mulheres organizarem sua revolução contra as mentalidades feudais. Elas devem recusar a atribuição à servidão. Nas famílias, nos lares, no espaço público e social. O desprezo pela mulher senegalesa não pode perdurar. Falando claramente: a falocracia deve ser abertamente questionada, pois é uma aberração. É uma das numerosas formas de decadência cultural.

A vanguarda que compõe o movimento feminista nascente ainda é elitista. Por quê? Porque a maioria das mulheres das periferias, dos bairros populares, do mundo rural, deve lutar pela existência, que já é difícil. Fizemos alusão a isso no início de nossa discussão. Mas, para que o feminismo ganhe espaço e se afirme de maneira duradoura no Senegal, todas as mulheres devem estar unidas. Em todas as camadas sociais. Esse combate é das mulheres, mas não somente delas. Elas devem contar com seus aliados do sexo masculino. Para os homens, trata-se de defender os direitos de suas mães, de suas irmãs e de suas companheiras. De renunciar a certos privilégios a nível individual. E mais, parte da nossa soberania, em absoluto, ao nível da comunidade nacional em sua diversidade. Não podemos inventar um convívio aberto, político, econômico e espiritual se as mulheres não estão emancipadas; ou sua plena participação no trabalho comunitário submetida ao veto masculino; ou, ainda, seu direito ao desenvolvimento pessoal. Não devemos nos iludir. Os homens respirarão com as mulheres ou sufocarão com suas posturas sexistas e estúpidas. A emancipação das mulheres será determinante para uma renovação espiritual, pessoal e social! Fundamentalmente, para nós, se trata de uma questão maior de saúde mental.

Neste período doloroso e trágico da história humana, em que a necessária coordenação da sua diversidade segue os contornos da construção da Nação Humana Universal, nos parece reconfortante meditar sobre esta Grande Promessa de Silo:

“Como deve se dar nosso acordo com as pessoas? Com o amor autêntico, mesmo na luta contra eles (esses que exercem a violência), pois a luta não é para fazê-los desaparecer, e sim para quebrar as barreiras. Não é a luta contra as pessoas, é a luta contra as crenças. Não é contra as pessoas. Não podemos naturalizar o inimigo como se ele não tivesse nenhuma chance de mudança…” Silo, 1997.


[1] “Doyna” em wolof significa “basta”

 

Traduzido do francês por Suélen Martins Meleu / Revisado por Gabriela Assis Santos

Categorias: Africa, Gênero e feminismos, Opinião
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