Fetiche

04.10.2020 - Rio de Janeiro, Brasil - Clementino Junior

Fetiche
Cruzes. Rabiscos, 16 de julho de 2020, esferográfica sobre papel e “app riscado” (Crédito da Imagem: Clementino Junior)
OLHARES

 

 

“Estátuas e cofres
E paredes pintadas
Ninguém sabe o que aconteceu
Ela se jogou da janela do quinto andar
Nada é fácil de entender”

(Pais e Filhos — Renato Russo — Legião Urbana — 1986)

 

Em um papo virtual do grupo de pesquisa GEASur, do qual faço parte, o intelectual Antônio Bispo dos Santos fez uma fala precisa sobre algo que observo e concordo, pensando no sentido da família e do respeito aos mais velhos. Descrevo aqui, sabendo que as palavras talvez não sejam exatas: “Na colonização dos cristãos não tem avô. Jesus é filho, mas não tem filhos. E não tem avô. É só o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Por isso os brancos não ouvem os avós e nem olham as crianças”.

Além de pensar nessa perda de vínculo com a importância ancestral na nossa matriz cristã, me vem à mente uma pesquisa para um trabalho de grupo enquanto cursava Desenho Industrial. Uma constatação que me fez pensar sobre a banalização da morte do outro. A cruz, que, até hoje, em muitas linhas cristãs, é o símbolo deste filho sem avô, simboliza o seu martírio, a sua tortura até a morte. Mesmo diante do milagre, a cruz não simboliza a ressurreição posterior. Ela imortaliza o momento em que se tortura um homem até a morte, esticando seu corpo pregado e pendurando-o para que o próprio peso lhe provoque dor. E nem por isso a cruz deixou de adquirir o poder que adquiriu enquanto símbolo de inúmeras nações. O que me faz pensar sobre uma sociedade que, para além de não priorizar os sábios e as crianças das comunidades, cultua, por dois milênios, a imagem da tortura de um de seus principais ícones. Fácil entender como se distorcem as palavras de amor que este homem tanto pregou, mas que não são lidas por uma imensidão de analfabetos dentre povos, que tem outras linguagens de memórias e saberes para além dos alfabetos impostos. E, também, como sua imagem, através de alguns sacerdotes tradutores, transformaram o amor em ódio, matando e explorando quem não soubesse ler estas letras.

A palavra “fetiche”, vem do francês fétiche, um objeto ao qual se atribui algum poder, principalmente místico, e que, com o tempo, foi ressignificado para algo sexual. Uma atribuição curiosa, visto que aquilo que vem sendo classificado como “feitiço” é toda imagem que vem desse povo que não lê o alfabeto dos livros cheios de palavras. Seria, então, a cruz “sagrada” um fetiche? Ou a encruzilhada, que se assemelha em geometria a esta cruz e que é livre de torturas e ampla em direções e possibilidades de caminhos e curvas, cumpre melhor essa função de poder místico?

A liberdade dos múltiplos caminhos não cabe em países que foram colonizados, no entanto. O caminho tem que ser reto, os desejos direcionados para os céus e o indesejável direcionado para baixo. O que a cruz separa, os extremos dos corpos, as encruzilhadas libertam. E quando não há caminho ou retas, a trilha pode ser aberta por quem se encontra em trânsito ou fuga. A natureza cuida de ocultar ou não a picada na mata ou a ferida aberta. Liberdade para quem vai e possibilidade para o caminho que fica. Cicatrizes que saram ou não. Tudo pode no que te fortalece.

Mas estamos falando de quem olha para cruz e banaliza a morte e dor da referência humana mais importante de uma era. Banaliza também a imagem na TV de pessoas sendo sufocadas por forças policiais, sendo, por vezes, levadas à morte. Ou que tem um fetiche por essa mesma cruz que transforma um homem — retratado aos não letrados como embranquecido, magro, porém forte — em cadáver e, assim, sublimando a morte como o ideal de humanidade. O homem com uma bondade que todos admiram e se espelham, pois o espelho inverte o que se vê e inverte a imitação. No espelho o que é esquerda, é direita e vice-versa.

Um branco velho, alemão, disse uma vez, através de letras, que uma mercadoria, quando alvo de fetiche, adquire um poder tal que este se comporta como uma pessoa e a pessoa vira o objeto, ou seja, a mercadoria da mercadoria. O teclado do celular e o browser já antecipam o que ainda nem pensei em escrever, tão veloz como o estado prevê o risco conveniente de morte daqueles que cultuam o torturado na cruz, acreditam no torturador que está no comando e banalizam a dor e a morte dos que não se assemelham ao crucificado. Para estes, a máscara feita para a segurança é vista como se fosse para a tortura. E, assim, se sentem livres para enfrentar o perigo. Para estes escolhidos, o vírus só mata as outras pessoas, que não tem a liberdade de respirar o mesmo ar.

Uma única imagem traz a dimensão da dor da morte e da superação da vida. Só depende de quem a observa e de que poder seus pais deram a essa imagem. Seus avós talvez digam: “seus pais não entendem nada, vem cá que eu te explico isso!”. Mas, quando o fetiche se torna o educador, não há chance para netos e netas se tornarem avós ou terem voz para perguntar, serem curiosos e lerem o mundo.

O homem torturado na cruz e o homem livre na encruzilhada não quiseram que as coisas estivessem como estão. São dois fetiches, onde cada pessoa os empodera e denomina como entende, mas onde algo também já está pré-determinado, algo que torna um oposto do outro. É o medo da liberdade dos caminhos, da liberdade da natureza e da vida.

E onde se teme uma vida livre, a morte aceita o convite.


Texto com fundamental revisão crítica de minha sobrinha Tayna Arruda.

Categorias: Ámérica do Sul, Cultura e Mídia
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