Sal do Samba anos 2000 ou Século XXXI, a redescoberta da Pedra do Sal

 

Por Mauro Viana*

O projeto Sal do Samba, Anos 2000 ou Século XXI, A Redescoberta da Pedra do Sal completa 20 anos, no Dia Nacional do Samba, dia 2 de dezembro de 2020. Por motivo óbvio e, claro, se a conjuntura de guerra permitir, o primeiro dia da festa de aniversário está marcado para 20 de novembro de 2021, Dia Nacional da Consciência Negra. O segundo encontro será no Dia Nacional do Samba, 2 de dezembro de 2021. Na primeira parte, a programação terá um seminário e lançamento de livro. Na sequência, Roda de Samba com os artistas que saíram do projeto Sal do Samba.

Segundo os organizadores, “a festa de 20 anos do projeto Sal do Samba foi a forma que a comissão da Associação República do Samba encontrou para deflagrar campanha em favor da “revisão político-racial da história recente da Pedra do Sal” e, por extensão, da Região Portuária do Rio de Janeiro. Afinal, não se encontram – afirmam – registros sobre a mobilização dos moradores da Região Portuária contra a instalação do Museu Guggenheim (Ex-Prefeito César Maia), em 1998. E o que dizer sobre o apagamento da resistência dos moradores, a partir de 2008, ao Consórcio Porto Maravilha? É importante registrar – concluem – que a posição dos moradores, na verdade, sempre foi contra a gentrificação.

A insatisfação da versão século-21 do “bota-abaixo” (1903) de Pereira Passos, no entanto, ficou restrita às pautas de grupos organizados da Região Portuária. Economicamente, o foco da mídia se agregou a milionária reforma da Região Portuária cujo consórcio de empresas privadas o batizou de Porto-Maravilha. Sucesso de público e de crítica, o chamado Porto Maravilha compra toda a imprensa corporativa, e por isso, protagoniza um festival de manchetes, nas mais diversas plataformas midiáticas.

Na outra ponta da trama, estão os doutores-pesquisadores de várias áreas do conhecimento (História, Economia, Direito, Comunicação, Sociologia, Antropologia). Na esteira do ”sucesso” do empreendimento público-privado, a comunidade acadêmica “descobre” a Pedra do Sal, em 2012 e por extensão a Pequena África. Acredite-se ou não, os bancos de teses de várias universidades, muito bem conceituadas, estão repletos de pesquisas comprovadamente científicas sobre o “renascimento” da Pedra do Sal, a partir de 2011. O marco inicial é unânime: Porto Maravilha. Em quase sua totalidade, as monografias, dissertações e teses (2010 a 2015) não apresentam o capítulo Sal do Samba, Anos 2000 ou Século XXI, A Redescoberta da Pedra do Sal. Como a história se repete, muitas vezes, o tempo todo; o consórcio acadêmico-midiático-governamental construiu uma historiografia da Zona Portuária carioca (a partir da primeira década do anos 2000) conforme a própria conveniência.

Felizmente, o mesmo grupo político, que se reuniu para barrar o Guggenheim, no final do século passado; que denunciou a gentrificação do tal Porto Maravilha, é o mesmo grupo que decidiu revisar a história da Pedra do Sal e da Região Portuária, na própria Pedra do Sal, nos dias 20 de novembro de 2021 e, no dia 2 de dezembro de 2021.

PROGRAMAÇÃO 2021:

Sal Do Samba, Anos 2000 ou
A Redescoberta Da Pedra Do Sal

20 de novembro 2021
9hs – credenciamento / boas vindas
10hs – Seminário Sal do Samba: Ação Cultural Libertadora da Comunidade Negra da Região Portuária contra um conjunto “políticas públicas” eugenistas da branquidade patriarcal hétero-normativa
12h – almoço
14h – Seminário Sal do Samba, Anos 2000 ou Século XXI, A Redescoberta da Pedra do Sal
16h – Lançamento do Livro Sal do Samba, Anos 2000 ou Século XXI, A Redescoberta da Pedra do Sal (Comissão Organizadora)
19 – Roda de Samba – Grupos Sal do Samba e República Digital do Samba

Sal Do Samba, Anos 2000 ou
Século XXI, A Redescoberta Da Pedra Do Sal

02 de dezembro de 2021
9hs – credenciamento / boas vindas
10hs – Seminário Sal do Samba: Ação Cultural Libertadora da Comunidade Negra da Região Portuária contra um conjunto “políticas públicas” eugenistas da branquidade patriarcal hétero-normativa – PARTE 2
14h – Seminário Sal do Samba, Anos 2000 ou Século XXI, A Redescoberta da Pedra do Sal
16h – Lançamento do Livro Sal do Samba, Anos 2000 ou Século XXI, A Redescoberta da Pedra do Sal (Comissão Organizadora)
19 – Roda de Samba – Grupos Sal do Samba e República Digital do Samba

Comunidade Negra da Saúde recupera prestígio da Pedra Sal, nos anos 2000

Depois de mais de duas décadas de ostracismo, a Pedra do Sal (Patrimônio Cultural, 36 anos de tombamento) volta, no ano 2000, ao roteiro turístico do país, através de aguerridos agentes culturais da Comunidade Negra da Região Portuária da cidade do Rio de Janeiro.

Coincidentemente ou não, os agentes culturais responsáveis pela retomada da Pedra do Sal, no finalzinho do século XX, são descendentes do povo Gêge-Nagô, como seus ancestrais: Pixinguinha, Donga, João Baiana, Sinhô. Mestres da ancestralidade, eram assíduos frequentadores da Pedra do Sal, nas décadas de 1920 e 1930 do século passado. Referências e protagonistas do projeto Sal do Samba, Pixinguinha, Donga, João da Baiana e Sinhô tiveram suas obras pesquisadas, estudadas e divulgadas, no projeto comunitário Sal do Samba, na Pedra do Sal entre os anos 2000 e 2008.

Além de apresentações de obras musicais de Pixinguinha Sinhô, Donga e João da Baiana para as novas gerações, Sal do Samba recuperou outra tradição carioca: a dobradinha Feijoada & Samba. Inexplicavelmente, fazia décadas que a tradicional invenção carioca caíra, em desuso, até mesmo no seu nascedouro: as quadras das principais Escolas de Samba do Rio de Janeiro.

Por esta razão, o projeto comunitário da Associação dos Moradores da Saúde, Sal do Samba, ocupa na recente história da cultura popular do Rio de Janeiro, o lugar de plataforma de difusão da produção musical dos gêneros lundu, maxixe e samba das décadas de 1920,1930 e 1940.

Para além de preservar a cultura musical de artífices da cultura musical carioca, o Sal do Samba teve o mérito de lançar novos talentos como Márcia Moura, Grassa Rangel, Adriana Passos, Julieta Brandão e Grupo Panela Di Barro, entre vários outros.

Frequentado por intelectuais, pesquisadores e turistas estrangeiros, o projeto Sal do Samba promovia uma Roda de Samba de mestres e discípulos. Na galeria dos mestres figuravam: os saudosos Cláudio Camunguelo. Flautista, compositor e estivador, Camunguelo teve como parceiros musicais Nei Lopes e Zeca Pagodinho.

O Sal do Samba se converteu, ainda, em palco-cativo para o cronista do samba, nascido no Morro da Providência, Djalminha da Providência. Histórico intérprete da Escola de Samba União da Ilha do Governador, Haroldo Melodia, em vida, recebeu todas homenagens do Sal do Samba. Inédito, este capítulo da recente histórica da Pedra do Sal, cuja comunidade negra da Saúde viveu e ajudou a construir, está nas páginas de Sal do Samba, anos 2000 ou Século XXI, A Redescoberta da Pedra do Sal.

Sal do Samba: Fragmentos da História

O mítico ano 2000 ostenta um marco cultural na História da Região Portuária do Rio de Janeiro. Naquele ano nascia o projeto Sal do Samba. Iniciativa popular da Associação de Moradores da Saúde. De imediato, a equipe comunitária de o Sal do Samba estabeleceu como missão atrair o foco do Poder Público para a Pequena África, em geral e, em particular; para a Pedra do Sal. Motivo: Toda a Região Portuária estava em completo abandono. As três instâncias governamentais (Municipal, Estadual e Federal) “desanexaram” a Pequena África do roteiro de Políticas Públicas.

Se a missão era a recuperação histórica de um Patrimônio, a um só tempo, material e imaterial, a visão estava ligada ao sagrado que a Pedra do Sal representa, na Cosmovisão Africana. Por esta razão, fora constituída uma Comissão Cultural de Reinserção da Pedra do Sal, no roteiro turístico-cultural da cidade do Rio de Janeiro. Na comissão estavam: Mauro Viana (jornalista), o produtor cultural, Mauro Rasta Santos, Maria Lucia Luzia (Conselheira Tutelar), o fotógrafo, Maurício Hora e Damião Braga (à época Presidente da Associação de Moradores da Saúde).

As reuniões emergenciais da equipe com o jornalista, Mauro Viana, na Associação Brasileira de Imprensa – ABI – resultaram na aprovação de várias ações. A principal, no entanto, foi batizada como Sal do Samba cujo projeto leva a assinatura Mauro Viana, Maria Lucia Luzia e Mauro Rasta Santos.

Em belo domingo de sol do mês de maio, dezenas de Yalorixás, capoeiras, artistas, intelectuais e pesquisadores da cultura popular, viveram a estréia de o Sal do Samba com o Grupo Panela Di Barro. Periodicidade mensal, os encontros comunitários de o Sal do Samba reuniam um número cada vez maior de amigas e amigos. Talhado na cultura bantu, em pouco tempo, o Sal do Samba recuperou a psicoesfera sagrada da Pedra do Sal. O poder da Comunicação Popular converteu o Sal do Samba, na Pedra do Sal, em território de encontros de nações e culturas africanas.

Sob as bênçãos do matriarcado africano

Wilson Moreira, por exemplo, e esposa, Ângela Moreira se integraram à família Sal do Samba desde de sempre. Na verdade, o Sal do Samba tem Ângela Moreira como madrinha. Afinal, ela produziu vários encontros sambísticos, na Pedra do Sal, nos anos 1980. Além de do casal Moreira, o Sal do Samba recebia, todos os meses, as “bênçãos” de Tia Surica (A Portela nem sonhava em reeditar sua feijoada), Vó Maria (Nem pensava em gravar seu primeiro CD), Lígia Santos (filha de Donga), Ekéde Maria Moura ( Viúva de Paulo Moura), Délcio Teobaldo (Músico, Escritor e Cineasta), Mestre Arerê e seus Capoeiras, Geisa Kety (Filha de Zé Kety), Beth Carvalho.

Agregador, Sal do Samba estendeu seu prestígio para os Morros da Conceição, Morro da Pedra Lisa, Morro do Santo Cristo, Morro da Providência. O produtor cultural, Mauro Rasta promovia passeios guiados para estas localidades históricas.   Além da feijoada, da programação turística e de viver o samba dos anos 1920, 1930 e 1940, o público tinha direito às palestras de acadêmicos e pesquisadores. Quer nomes? Ei-los: Filóso Helena Theodoro, Professora Lígia Santos (filha de Donga), Pesquisador Haroldo Costa, entre vários outros nomes.


* Pesquisador, jornalista, escritor e produtor cultural. Diretor-presidente da Associação Cultural República do Samba – africanworldnews@gmail.com