Mastro ereto e um olhar de fome: retratos quase pornográficos de Paulo Jorge Gonçalves

20.09.2020 - Rio de Janeiro, Brasil - Carlos Contente

Mastro ereto e um olhar de fome: retratos quase pornográficos de Paulo Jorge Gonçalves
Paulo Jorge Gonçalvez em entrevista ao youtuber Rodrigo Retka no Salão vermelho de artes degeneradas (Crédito da Imagem: Rodrigo Rekta)
ARTES VISUAIS

 

 

Paulo Jorge Gonçalves é artista plástico e vive no coração da zona norte carioca. Seu trabalho aborda a temática gay e as vezes chega à beira da pornografia – tensionando os limites da arte- e vem carregado de uma contundente crítica social.

Conheci o trabalho de Paulo Jorge no dia dos trabalhadores, o primeiro de maio de 2019, no Salão Vermelho de Artes Degeneradas, um evento de artes visuais muito bem humorado que teve este nome em um grande deboche ao desgoverno recém eleito, que persegue artistas e destrói a cultura (o nome do salão foi uma paródia do salão de artes degeneradas,no qual os nazistas expuseram obras de arte moderna roubadas, comparando a distorção formal da imagem expressionista, cubista e do que havia de mais de vanguarda na época, com as suas próprias teorias eugenistas de “degeneração da raça”). Em uma entrevista que fiz com o Thiago Fernandes, um dos curadores da mostra, ele fala mais a respeito: introduziu a palavra Vermelho para ironizar a demente perseguição anticomunista instaurada pela nova direita, no Brasil. Enfim, abro a porta do Atelier Sanitário ( dos artistas Leandro Barbosa e Daniel Murgel) e foi aquele impacto, como um vento quente na cara: as paredes estavam repletas de arte e o salão lotado de visitantes; Eu esperava obras deliberadamente panfletárias, talvez até um carro de som de sindicato com alguém em cima gritando em voz gutural– mas não! A surpresa foram corpos, muitas imagens de corpos, genitálias, umas imagens sensuais, outras engraçadas gays, trans, travestis, lésbicas. Havia uma verdade escrita na camiseta de uma visitante: “meu corpo é político”. No alto da parede direita, dominava a cena o trabalho de Paulo. A série Meninos me fez pensar o dia todo, durante a festa, porque era ao mesmo tempo forte, quase pornográfica, entretanto tinha algo de triste como a fome.

A série Meninos me fez pensar em tudo aquilo que a gente evita ver. O trabalho, devido ao impacto e a repulsa que senti no começo me revelou algo importantíssimo para a vida: fez encontrar, escondido no armário, o meu bolsominion interior. E para localizar o GPS deste fascista interno e poder trucidá-lo, o trabalho de Paulo é bem eficaz. Meninos é uma série potente que ao longo desta conversa com o artista só se confirmará como tal.

– Como a pintura pintou na sua vida? Quem foram suas referências iniciais e quando começou?

– Como disse já tendo esse apoio eu desde muito novo pude “brincar” de pintar. Me foi permitido. Era uma criança lúdica e criativa. Estava sempre inventado. Criança de periferia com vasto quintal para aprontar.

Já sabendo que aquele brincar com tintas era especial e tinha um nome, se chamava arte, isso me despertou e fez uma diferença.  No entanto, nunca me considerei uma pessoa com dom, ou extremamente talentosa, eu me considerei mais como um apaixonado. Foi essa paixão, por sinal que desde muito cedo foi que me fez correr atrás e superar a falta de talento para poder fazer o que eu mais amava.

Eu corria atrás de informações como falei, as tais coleções de recortes. também colecionava aquelas revistas semanais de vidas de artistas das bancas de jornal. Isso me ajudou a explorar este mundo. Pude ver mesmo que apenas por imagem, uma gama enorme de estilos, artistas, nas mais variadas épocas. Alguns claro me chamava atenção. Paixão absoluta foram de imediato Caravaggio, Michelangelo, Lautrec e Modigliani…, mas os nomes sempre variavam também conforme o interesse. E um em especial era paixão mais que absoluta. Paul Klee. Teve épocas que eu sabia a vida de artistas de cor. Eu era um jovem bem estranho.

Cedo também comprei minha primeira câmera fotográfica (analógica) eu registrava tudo. Paralelo a pintura, a fotografia sempre esteve presente. Também desenvolvendo de forma amadora e informal.

Essa aprendizagem toda foi muito quebrada, eu não entrei em cursos. Poderia ter quebrado etapas, principalmente técnicas, mas morando em bairro bem periférico era muito difícil um local onde alguém jovem poderia desenvolver esse potencial. Só anos mais tarde quando podia ir e vir que isso foi superado. E mesmo assim, atravessar todo o caminho da zona norte a zona sul é uma dificuldade que muita gente enfrenta e entendo quando desistem.

– Quais artistas, quadrinistas, sons, filmes, filósofos, vizinhos e figuras populares que te inspiram?

– Muita coisa me inspira, sou ladrão. Eu roubo muita coisa e vou armazenando. Aquela mania de juntar matérias de jornais e revistas da infância/adolescência se propagou em mim. Então estou sempre fuçando. é difícil falar que uma coisa é minha influencia absoluta porque eu vou tateando informações e aglutinando ao meu trabalho imagens, fontes, pensamentos, questões que me interessam.

Fui muito influenciado por rock, tive banda, toquei baixo, cantava, estudei música, principalmente a estética punk que pude vivenciar na década de 80. Mas minha fome me fez conhecer todos os estilos, músicas experimentais, vanguardas e Músicas brasileiras.

Quadrinho foi uma baita influencia, sou fissurado, tanto que minhas monografias foram todas em cima do estudo do HQ e a aprendizagem da arte. O cinema me interessa bastante no campo da imagem, da fotografia. Luz

Essa procura de conhecimento não se sustentaria se eu não tivesse uma consciência do meu entorno, entender o social, político e econômico (não como um fetiche como alguns, mais como alguém realmente pertencente) do subúrbio e da periferia. Uma cultura do suor como chamo. Isso trago forte para o trabalho. Tem um q do sal da pele que só se encontra em algumas partes do mundo, geralmente não as assépticas.

– Que exposições mais lhe marcaram? Que exposições suas ou trabalhos seus, você considera mais importantes?

– Era uma criança e minha irmã me levava para ver exposições, as gravuras de Picasso no passo, foram um encanto e eu nem compreendia o que era uma gravura de tão jovem.

Uma exposição que me marcou muito foi a do diretor de cinema Peter Greenaway que também produz com desenhos, colagens, pinturas, talvez por não ser um artista visual, mostravam trabalhos sem ranço. Aquilo me marcou muito. Influencia e grande estímulo foi ver as fotos de Mark Morrisroe,

Confesso que ando exausto de exposições e não vejo novidades. Me dão muito tédio na maioria das vezes. Repetição de fórmulas de apresentação, truques da contemporaneidade. Maneirismos.

Pratiquei pintura por anos e com a maioria delas fiz uma grande fogueira. Nada que fosse relevante. Farto dos velhos, novos truques da arte. meus últimos anos esteve marcado na produção de gravuras. Uma mesma matriz originando diversas cópias e estas, montadas, ocupando o espaço. Uma forma de trabalhar a gravura com um pensamento no corpo, vivendo a imagem. Claro que o povo da gravura, técnica cheia de tradições, me execrou e nunca levou a sério.

Partindo disso fui criar mantos, mesmos padrões que se intercalavam, mais em materiais diferentes e por fim cobriam e ocupavam superfícies. Também vestiam pessoas. O corpo entra. Se representa no trabalho. Começo a desenvolver o hábito de registar tudo em fotografia. A fotografia passa a ser peça importante do meu pensar.

Series soltas de fotografias se acumulavam e todas tendendo a um homo erotismo. Séries com mototaxistas, banhistas, camelos, skatistas, surfistas… objetos de sedução e fetiches do universo erótico. Aos poucos um passo maior, gays na pegação, festas, paradas gays, travestis.

Até que surge o trabalho com nus e o tema dos garotos de programa em 2015. A série dos nus intitulada Meninos que falarei mais adiante.

– Quando e como você decide aproximar sua arte “o mais próximo possível da pornografia gay”? E por que esta proposta tão radical?

– A pornografia não era algo que eu negava ou nego. É algo que me encanta. Sou fã de filmes pornô, das diversas estéticas (das mais leves, “baunilha” às mais pesadas) gosto dos filmes heteros e dos filmes gays. Gosto da estética dos amadores e o novo material que surge no onlyfans com exibicionistas que se declaram no twitter para vender sua pornografia nessa plataforma, principalmente os nacionais. Conheço o nome dos diretores, as companhias e os atores do mundo pornô. Quero fazer series de pinturas usando atores pornô como temas. Temos excelentes atores pornô brasileiros. Mas também sei de toda a polémica que esta indústria está envolvida, a exploração do corpo, envolvimento com drogas, uma certa máfia por traz. Nunca nada são só flores.

Outra questão e o universo underground que sempre foi a menina dos olhos. Cultura punk, zines, bdsm, contra cultura, filmes alternativos, performances, pós pornô, aquela estética de registar de forma analógica as performances nos anos 60 e 70, teatro experimental, filmes experimentais …. esse embate é o que eu percebo de mais caro na arte. A zona de conforto nunca me atraiu.

Sei que com isso afasto muitos do meu trabalho. Eu poderia ter optado por um trabalho homoerótico mais higienizado e padrão (tipo de beleza de catálogo) seria mais fácil talvez. Mas gosto do erro e da sujeira, pelo meu próprio histórico e de onde venho e onde moro. Também poderia ter feito um trabalho apenas simbólico, muitos estão fazendo isso. Atualmente estamos vendo uma abertura para representantes de negros e LGBTS que trabalham com a visibilidade de sua minoria. Mas é importante salientar que ter mais não significa qualidade. Todas as temáticas estão sendo abordadas? Todos os assuntos estão sendo ditos? E quando ditas, estão sendo ditas com qualidade?

A parte mais pesada desta equação continua não sendo aceita. E não adianta passar verniz porque o dark side do mundo gay realmente existe. Vários rapazes heteros e gays estão se prostituindo para completar a renda familiar, assim como travestis acabam tendo na prostituição seu único ganha pão porque não conseguem emprego dados pela sociedade e a sua média de vida é de 35 anos. Ainda quero fazer muito mais coisa. Atualmente estou em processo com uma espécie de revista erótica (certamente de um único número) relembrando as antigas pornografias que se compravam nas bancas e a internet pois fim. Quero fazer novas séries com outros temas, se a pandemia permitir, e por incrível que pareça fazer um filme pornô gay/arte. Algo bem nonsense, se bem que 99% dos filmes pornô já são assim.

– Certa vez entrei em um evento de arte em Santa Tereza e dei de cara com aquela sua releitura da releitura que a Varejão fez da Tarsila do Amaral. Me mijei de rir. Deboche, fina ironia ou um grande f***-se à hierarquia invisível no circuito de arte contemporânea?

– Simmm!!!! Foi feito por pura troça.

Deboche, zoeira. Acho a arte contemporânea brasileira e o povo envolvido nela um saco de bosta. Gente chata e irritante. Principalmente os “xovens”. Acompanho muito mais a cena internacional. Talvez por ver de longe, me iluda que sejam diferentes. Bendita internet. Mais troco conversas e me aparentam ser pessoas menos soberbas e mais antenadas tentando captar muito mais coisa do que só o farfalhar do seu próprio ego.

Eu percebo que aqui todos querem ser eleitos e chancelados. Passando em um mísero edital, pronto: a pessoa trocou de fase ou evoluiu tipo um pokémon, não interessa mais olhar tudo e a todos e sim apenas os próximos a ela ou os megasuperiores. Isso bloqueia diálogos. O que vale na real todos os editais que passamos? Representam vendas reais? Preço de mercado? Valor em nossa arte? Isto é permanente? Conheço artistas que expuseram na bienal de São Paulo e hoje galerias não os representam. Complicado.

Estamos vivendo também um novo academicismo, estamos urgentemente necessitando de novas vanguardas para romper com os atuais conservadores. Se você pegar um catálogo da bienal parece que todos estão pedindo emprego com seus currículos, Doutor em…Mestre em… PHD em…. depois, bem depois você olha o trabalho que o indivíduo faz. Não foi contra isso que impressionistas e modernistas lutaram? Uma arte acadêmica. Virou uma nova academia. Existe um novo padrão clássico de arte contemporânea, quem estiver fora desta curva está fora.

Existe formas de se fazer arte, tem que ter certos ingredientes, tem fórmulas de pinturas, até o gotejar das tintas já virou escola, o grafite já é um estilo acadêmico, tem toda uma tradição da contemporaneidade e por aí vai. Então quando voltei a pintar esqueci dos maneirismos modernos e fui olhar para o Barroco, um claro escuro, uma anatomia ou coisas como Frans Hals, longe de querer e pretender me igualar a genialidade deste tipo, mas se era para pertencer a uma tradição vamos a uma com alicerce.

Sem falar que ser um escolhido em arte hoje em dia se refere muito mais aos lugares onde você anda, com quem você convive e conhece e qual a tese que defende nas altas rodas, do que o trabalho que você realiza. O trabalho pode nem existir, isso é só um detalhe.

Só que certamente ou estamos ou estaremos brevemente vivendo em um tempo de virada. A coisa toda não está se sustentando, a fórmula funcionou, mas está mostrando fissuras, o povo nunca foi convidado para esta festa da arte, recebia no máximo uma nota no jornal e a mídia começa a duvidar. Os intelectuais vão ter que coçar a cabeça e pensar novas teorias. Por fim o mercado, sempre ele, vai dar um jeito de lucrar com o que vai surgir.

Série Meninos, Registro em fotografia 2017. Paulo Jorge Gonçalves.

– No contexto atual brasileiro (que momento…) a questão gay é um tema extremante complicado para ser abordado no universo da arte pois falsos moralistas de plantão vêm logo debitando em cima dos homossexuais a conta da sua perversão. Houve alguma época um pouco mais segura para se mostrar ou falar destes assuntos?

– Em todos os períodos tivemos artistas gays, em todas as épocas tivermos arte gay. Claro, todos enfrentando os limites ou liberdades que lhes eram oferecidos. Donatello foi extremamente gay e seu Davi é um exemplo clássico disso, produziu peças homoeróticas consumidas por uma renascença que compreendia e possibilitava esta produção. Já Michelangelo por viver muitas décadas pode vivenciar também esta possibilidade no início da carreira e fica claro em peças de escultura e no teto da capela sistina e no final de sua carreira ver como as coisas mudaram com a contra reforma, traduzido na censura do seu juízo final.

O moralismo sempre está à espreita tentando consumir o pensamento progressista. No Brasil Victor Arruda dá um show a muito tempo, com uma arte vanguardista, bombástica, podre e violenta, Leonilson foi forte nos anos 80 deixando uma arte depoimento em forma de poema visual, na fotografia temos o já citado Alair Gomes, mesmo que sua obra só tenha vindo a publico depois de sua morte.

Tudo aparentemente parecia “normal” até que todos são pegos com a nota violenta que no dia 15 de julho, o performer Maikon K foi preso durante a execução de sua performance e a Polícia Militar do Distrito Federal informou que o motivo da prisão foi “atentado ao pudor”. Isso porque Maikon K se apresenta nu. Como assim?

Isso ocorreu duas semanas depois de o banco Santander determinar o fechamento da exposição Queermuseum, em Porto Alegre, em meio a uma onda de críticas conservadoras, de um bando de aproveitadores surfando na onda para conseguir votos para as próximas eleições. É a performance La Bête, apresentada pelo Museu de Arte Moderna de São Paulo, realizada pelo coreógrafo carioca Wagner Schwartz, fazia uma releitura da obra Bicho, de Lygia Clark, artista historicamente reconhecida. Um vídeo divulgado nas redes sociais que viralizou, mostrava um trecho da performance, na qual uma mulher e uma criança interagem com Schwartz, que se encontra deitado e nu. A garota toca os pés e a canela do coreógrafo. Foi o bastante para a arte ser bombardeada como produtora de pedofilia, imoralidade, degeneração. A mãe teve que prestar depoimento, o artista sofreu ameaças, depoimentos constrangedores.

Resumindo a ópera tosca, estamos vivendo um tempo cafona, com uma estética própria perigosa, mais que não podemos fechar os olhos. O grande problema talvez tenha sido esse, nós não os levamos a sério. Os acadêmicos não os levaram a sério pois suas teses loucas não tinham fundamento, nós artistas não os levamos a sério porque eram bregas demais e por aí vai. Eis que o mostro vingativo surgiu com ódio a todo pensamento progressista, aos valores civilizatórios, educativos, científicos, sociais, evolutivos e cultuando a barbárie. E nesse furacão a homossexualidade é um dos temas que eles amam perseguir e não vão abrir mão de odiar.

Porque não abrem mão de sua homofobia? Mesmo sabendo que para o comércio e o turismo o dinheiro rosa é extremamente positivo. Não abrem mão, porque tanto a questão do feminismo, o racismo quando da homossexualidade tem a ver com a liberdade do corpo do outro. O controle. Exercer este domínio escravocrata, machista, opressor e castrador para dominar a alma e assim subjugar.

Nem na época da ditadura com os cães selvagens militares babando e rosnando tivemos um período tão ruim, pois não tinha uma pressão moral religiosa por traz. Tivemos o desbunde, tivemos produções teatrais audazes como O Balcão e Cemitério de automóveis, tivemos os Dzi Croquettes. O que temos hoje?

– A mesma sociedade que mais mata transexuais e travestis e a que mais consome prostituição de travestis e consome videos gays na internet. Como isso se explica, no seu ponto de vista?

– Hipocrisia – a triste realidade nacional. Por um lado, somos uma sociedade extremamente “brejeira” com excesso de volúpia. Filhos de degredados Europeus da pior espécie estuprando índias e negras, de donos da casa grande sodomizando seus escravos por prazer e um povo que rapidamente compreendeu que a forma mais rápida de ascensão social é o sexo.

Por outro lado, temos um peso de uma cultura judaico cristã cheia de moralismos, falsas promessas, culpas, intrigas, segredos, fofocas e o hábito de tomar conta da vida alheia. Onde estado e religião se misturam.

A homossexualidade já foi estudada e esmiuçada pela ciência, não é uma doença e sim algo bem natural na natureza, chegaria a ser cansativo ficar ainda debatendo este tema se não fosse que o homem, único animal entre todos os que praticam seja o único que apresenta a homofobia. Em algum ponto da sua vida o ser (bicho) humano, pode inverter os papeis e experimentar. Não indica que toda sua vida será pautada pela aquela ação. Assim como ninguém se transforma em homossexual, é algo que é inativo da pessoa. Transformar isso tudo em uma bigorna nas cabeças dos seres humanos é que reside o problema.

Uma sociedade adoentada pelo machismo sim é uma das principais doenças. Crianças são mentalmente atormentadas com padrões patriarcais e violentos. Meninas já crescem na esfera do medo e da vítima, meninos são moldados para ser um canalha e os que não se encaixam logo são rotulados e destruídos mentalmente. A quantidade de doença que este machismo toxico causa é imensa. Contra isso se é falado, explicado, mais é uma sociedade que teima em manter paradigmas baseados na religião e no estado patriarcal.

Crescemos vítimas desta loucura, camuflando desejos, condenando semelhantes, punindo o próximo, torturando física e mentalmente outros seres humanos. Travestis são condenados naturalmente a uma vida de prostituição para sobreviver e estão expostos a uma violência cruel. Mas ninguém pergunta quem são seus clientes. Assim como ninguém pergunta quem são os clientes das prostitutas e dos prostitutos. Sim, o reino mágico da hipocrisia. Um país que tem salas de bate papo onde pode se encontrar EVANGELICOS procuram EVANGELICOS, tudo na encolha, tudo escondido. Pau, porrada e morte para quem dá sua cara a tapa. Longa vida a hipocrisia.

– A sua série de fotografias realizadas com garotos de programa é contundente. São imagens sensuais, nus, músculos, sensualidade, pele…, entretanto há um limite muito tênue que as diferenciam da simples pornografia. Algo que está no olhar do fotógrafo. Como é construída a relação de confiança com estes rapazes para que eles se deixem fotografar?

– Como falei a estética dos filmes pornô me atrai, assim como as fotos eróticas, das antigas até as das décadas de 70/80. Para compor a série meninos eu não parti do nada, eu já tinha em mente que eu queria fazer algo na esfera do erótico, do pornográfico, da sensualidade. A questão era achar a temática e o processo e com quem iria trabalhar. Eu como falei fiz muitas séries que já tinha um caráter extremamente sensual e homoerótico, como passar dias em pistas de skate fotografando os jovens suando em suas acrobacias, ou na praia saindo e entrando no mar e tostando na areia. Mas eu queria mais.

Fiz uns trabalhos embrionários que juntavam as antigas formulas das ocupações e mantos com pessoas e justamente uma dessas pessoas que ao ser fotografada não teve receio em fazer nu, que me falou que era garoto de programa. Achei assim a peça que faltava. O tema. Os prostitutos seriam meu assunto.

A série meninos consiste em entrar no mundo do garoto de programa, e fazer um acordo com ele, o valor do programa, a quantia em dinheiro da minha parte e ele por sua vez ao invés do sexo, posa para mim. Acordamos também o que ele pode ofertar em termos de fotografia, muitos não podem revelar o rosto, ou não querem mostrar partes intimas ou uma certa tatuagem. Outros de forma bem narcisa ao ver a câmera se oferecem soltos. Fotografo geralmente nas cabines dos próprios clubes ou quando, marcado em motéis. O que dá as fotos algumas características. Não tenho luz própria para foto, pouco espaço, ambiente nada preparado. Mas é isso que se trata todo o universo.

Aos poucos muitos “civis” pessoas que não são os boys, os garotos de programas, ao ver o desenrolar da série se ofereceram para posar e se colocarem no lugar dos meninos, fotografei engenheiro, bailarino, atores, artistas plástico , pessoas querendo aquela experiencia de se sentir fotografado como um boy na série.

A confiança é a peça fundamental nessa equação. De inicio eu errei muito, primeiro por estar tateando algo que não conhecia, estar nervoso, perdi dinheiro e material. Depois o conceito do trabalho foi ficando forte e com mais certeza e convicção eu consegui convencer a eles a participar. Mas é algo complicado. Imagine convencer uma pessoa que não tem envolvimento com o mundo da arte a posar nu para algo que o outro está dizendo que vai para a parede ser exposta? Era abstrato. Alguns certamente entraram nessa pensando, vou me aproveitar dele,” vou lá tirar fotos e nem trepar e me cansar será necessário.”

Com um certo tempo e frequência e já munido de uma quantidade de fotos no meu celular para mostrar, e também resultados das exposições, a finalidade final daquele material, a coisa acontecia com mais facilidade e eles perceberam que não era uma loucura fetichista. Outro fator importante foi quando muitos começaram a cobiçar as fotos. Para quem trabalha com o corpo esse material é de grande importância para mandar para clientes, eles próprios começaram a se oferecer ou apresentar amigos para os ensaios, e estes, passaram a funcionar como moeda de troca. Então eu fazia uma foto mais padrão que mandaria para eles e ao mesmo tempo produzia o meu material.

Todos assinam um termo de cessão de imagem onde concordam que terão suas imagens usadas para fins artísticos. Certamente alguns compreendem o nível do uso das fotos e muitos até se tornaram amigos de rede social, outros acredito que a muito, já até esqueceram que participaram disso.

– Como foi sua adolescência, a sua descoberta como gay, rebelde, punk, enfrentando um mundo hostil a teu desejo?

– Essa pergunta é ótima. Explica muita coisa.

Imagine o que era você se descobrir gay no subúrbio na década de 80? Era a condenação como ser humano. Era algo impensável. Não se falava disso, ou no máximo, tipo, surgia que fulano de tal, filho de alguém estava fazendo coisas erradas. E essa pessoa era vista como uma aberração. Um depravado perigoso. Sem falar que nos anos 80 estávamos vivendo a pandemia da AIDS, então ser gay era sinônimo de morte e de que você era sujo e passava doença aos outros.

Eu fui uma criança protegida e ao mesmo tempo criado sem malícia. Eu claro, além da forma delicada, tinha mais atração pela beleza masculina que pela feminina. Mas não era do tipo que queria fazer as coisas de menina, minhas vontades eram outras como a arte. só não pensei que seria exposto a isso de uma forma tão ruim. Só me choquei com a realidade, quando ao passar para o fundamental dois, a antiga quinta série, mudando de escola, percebi que muitos dos garotos implicavam comigo e queriam me agredir. Eu era andrógino demais, me confundiam com menina e isso provocava muita raiva neles. Era como se simplesmente eu não pudesse estar ali com eles.

A minha cabeça pirou, claro que eu repeti de ano, era um inferno ir à escola. Foi quando eu descobri o que era ser odiado. O pior que eu descobri o que era o preconceito antes mesmo de descobrir minha homossexualidade. Tive crises, desmaios, convulsões. Como a homofobia faz mal a mente das pessoas. De um momento você era só uma criança bem lúdica e de outro estava no inferno da não aceitação e sem entender porque isso estava acontecendo. Nenhuma ajuda me foi dada na escola, não se pensava em algo para combater esse preconceito. Os educadores naquela época não imaginavam que isso podia acontecer, ou simplesmente não se davam conta e certamente achavam normal que os desajustados sofressem esse tipo de preconceito. E toda pessoa que sofre bullying tenta camuflar para não ficar remoendo a dor, escondi as agressões da minha família. O que eu falaria para eles? –“Olha, eles me chamam de veado e mulherzinha, você tem que fazer alguma coisa!” Era vergonhoso expor isso. E estamos falando de uma escola católica para filhos da classe média.

Eu sou um caso, apenas um. Mas TODOS os homossexuais em algum momento sofrem preconceito e homofobia em sua vida de alguma forma. E imaginem a quantidade de sofrimento que este machismo tóxico e o não combate a homofobia e consequentemente uma sociedade mais justa, não causa.

No final, restou que eu já nasci com um gênio forte e bem rápido cheguei à conclusão que eu tinha duas opções: Fenecer com aquilo tudo ou lutar. Até suicídio tinha passado na minha cabeça, mas eu decidi não morrer, não queria isso para mim, e a melhor coisa que me aconteceu foi a revolta. Cortei o cabelo de inspiração hippie que minha irmã amava e me tornei pior que os garotos que me agrediam. Eu me tornei com todo orgulho o insuportável. Eu virei a pior versão de mim mesmo, agressivo, bruto, gritão, brigão. Era assustar antes que alguém tentasse algo. Então acabou que ninguém queria mais implicar comigo, não valia a pena, eu era quase um louco. As meninas tinham medo de mim e os garotos não queriam amizade. O cara era o estranho da escola. E Não são os opostos que se atraem, mais paralelos que se encontram e eu passei a atrair algumas pessoas também “do mal” como eu. E descobrimos o punk rock. Então eram todos maltrapilhos, descabelados e agressivos que gritavam musicas punk em uma escola cristã. Claro que minha educação foi complicada, repeti diversos anos, os professores não entendiam como alguém que desenhava bem na sala de arte, fazia ótimas redações, ganhava o prêmio de poesia da escola era alguém tão desajustado. Eu sempre fui um enigma para os professores.

Ao mesmo tempo em meio a revolta eu tinha a arte, esta não parou, aulas de violão, baixo, bandas de rock, shows, discos, zines, escrever matérias, histórias em quadrinhos, brigas por bandas, pinturas, desenhos, fotografias… a arte se mantinha presente e eu ia moldando o meu mundo.

Levei anos para suavizar minha forma de ser, até o meu jeito de falar, que parece sempre nervosa é herdeira desse período. Porque ser um monstro o tempo todo cansa. Eu adoraria ter descoberto minha parte gay de uma forma mais encantadora, mais não foi assim, como aposto que não foi com muita gente. Eu relutei e briguei contra minha atração sexual por muito tempo, sai com muitas meninas, eu mesmo tinha confusão na cabeça quanto a isso, pois gostava de estar com elas, passou a ser bom ser uma espécie de bad boy , acabava que atraia, mas no fim, eu resolvi , pôr em prática aquele desejo. E gostei.

Nada se resolveu porque passei a viver outro dilema e foi assim por muitos anos. Não era mais uma questão de sair com meninas para esconder o que eu era e sim eu não sabia o que era.

Muito tempo depois, quando finalmente eu me compreendi como gay, tudo melhorou. Eu parei de carregar o mundo nas costas, e foi uma revelação. Eu não sentia mais ódio de mim e percebi que o mundo não me odiava também. Uma boa orientação poderia ter me feito chegar a essa conclusão de forma bem mais fácil… mais foi o meu caminho.

– “Sem tesão, não há solução” – disse o anarquista Roberto Freire, criador da “somaterapia”. Isso aí é algo que não falta no teu trabalho. Tú acha que tá faltando tesão na arte contemporânea?

– Acho que está faltando tesão no mundo. E em muitos casos faltando arte na arte.

Em se tratando de arte nacional como diz Rita Lee “Sucesso no estrangeiro ainda é Carmem Miranda”, ou será Lygia e Hélio? Mas devemos levar em conta que tesão também é subjetivo, eu posso estar achando que a arte esta sem tesão enquanto muita gente por aí está tendo orgasmos múltiplos.

Como já falei eu fico incomodado com as fórmulas, as bulas a serem seguidas. Até as formas de se apresentar os trabalhos nas exposições parecem padronizados. Muita pouca gente consegue fugir as regras. Eu consigo “ver” as caixinhas que moldam os “estilos” que os artistas atuais têm que seguir. Um exemplo são os desenhistas, muitos parecem sempre fazer da mesma forma a lá Leonilson com grandes espaços em branco e o motivo em um canto do papel. São maneirismos que se repetem e se repetem e se repetem. Confesso que a muito venho acompanhando estas questões e estou cansado e isso é muito corta tesão. E eu mesmo caio em muito dessas armadilhas, várias obras minhas destruo porque enxergo estes maneirismos da contemporaneidade. Não quero ser um velho de 70 anos produzindo algo com uma linguagem da MTV dos anos 90. Já deu.

Um país quente como o nosso, tropical e caótico, com um desnível econômico e social assustador, uma educação seletiva, um caos absurdo, deveria produzir muito mais artistas comprometidos com pés no chão e cara no sol. produzindo uma arte que se pareça com sua gente, com sua terra e suas dores. Mas o Brasil não olha pra si, tem esse problema. A fórmula é de fora. Então a conta não fecha. Falta tempero, falta suor e falta tesão. Claro que arte é um produto para elite feito atualmente mais por membros da elite, esse povo não sentiu na carne certas experiencias, está olhando em um microscópio o problema e fetichizando.

Vamos encontrar propostas mais verdadeiras nas curvas, nos artistas que não foram preparados para ser artistas ou não trilharam o padrão “normal” da carreira, não é de espantar que todos caíram de quatro por um Arthur Bispo do Rosário. Era sujo era podre, era insano e sem querer parecia muito mais arte contemporânea do que todos estavam tentando fazer.

Por que o funk carioca é fantástico? Por que o punk paulistano foi inexplicável? Porque o pixo em são Paulo merece teses e mais teses nas graduações? Quando o Brasil se dispuser a suar mais, teremos uma arte visual mais verdadeira.

Série Meninos, Registro em fotografia 2019 Paulo Jorge Gonçalves

– Como é a vida dos jovens que você fotografa?

– O personagem no armário da novela, casado e que esconde seus desejos vai a rua a procura de um garoto de programa para se satisfazer, assim narra a história da tevê do dotô Roberto… E nesse contato com o boy ele tem o carro roubado pelo prostituto que é violento. Isso passou em rede aberta para todo o Brasil não tem muito tempo em horário nobre. Resumindo, a prostituição masculina é implantada no coletivo brasileiro (e certamente de muitas partes do mundo) como um ato praticado por bandidos, bárbaros e perigosos.

Claro que a vida de quem faz ponto na rua não deve ser flores e sabemos os caminhos que levam a cometer um crime, mas não existe uma formula de boy, os garotos de programa, existe vidas e eu encontrei uma gama muito variada nesse tempo que me dispus a trabalhar com eles.

Temos que fazer um recorte, porque eu trabalhei com boys de clubes e saunas gay e alguns de internet, mas na maioria são rapazes de origem pobre ou classe média baixa, mas não de todo de uma vida em estado de miséria e marginalidade. O padrão nos clubes de beleza e uma certa postura geralmente é alto. Então vamos encontrar um jovem em sua maioria que tem uma residência, um jovem que malha para manter o corpo, se preocupa com a alimentação. Alguns clubes têm variações, alguns são mais elitistas com jovens padrão de academia, outros já mostram um ar mais de periferia. O tipo malandro que pode se apoderar de seu celular pode coabitar qualquer um destes espaços, mas nos dois tipos, se for pego pela gerência está condenado a nunca mais trabalhar naquele espaço. Se suja na casa. Não se prejudica a clientela nos espaços do clube, para não os perdê-los, não é atoa que muitos sentem que ali é o único lugar onde podem exercer sua homossexualidade com um pouco de segurança.

O grande tema que gira e leva os meninos a estarem lá é claro o dinheiro. Alguns completarem a renda, pois trabalham com outra coisa e para alguns, a prostituição é a própria renda. A prostituição como uma saída fácil de conseguir e levantar uma alta quantia de dinheiro que um emprego formal não daria. Alguns agem por pura necessidade e desemprego, e por absoluta falta de condições de conseguir nada além de um subemprego, e uma outra parcela caem na prostituição por narcisismo e um ego bastante inflamado. Por fim tem também os que me narraram que sempre foram putos e adoram o que fazem porque sentem prazer nisso. Claro que todos estes fatores se misturam e um boy pode ter entrado no programa por dois ou mais fatores listados.

Temos um número grande de cariocas, de diversas partes. Alguns moram juntos dividindo o mesmo apartamento na zona sul ou centro, outros moram em lugares mais afastados. Muitos são da zona oeste e norte. percorrem grandes distancias para chegar aos clubes como qualquer trabalhador. Uma boa parcela são de outros estados. Outra quantia fica pulando de estado em estado conforme os meses. Passando temporadas em busca de clientes, pois ser novo no clube atrai os clientes, e dá mais chance de fazer mais programa.

Alguns conseguem uma renda boa, compram carro, se mantem em uma vida relativamente equilibrada. Mas como eles falam,” todos tem o dia ruim”, o dia que não fazem nada. Não levam dinheiro para casa. Um assunto que não é muito comentado é futuro, existe quase um bloqueio quanto a isso, o tal dia de amanhã. Geralmente não me narraram nada sobre planos futuros.

Assim como ganham fácil, percebo que gastam fácil. Uma quantia boa de dinheiro se vai em roupas, produtos de musculação e academia, carro, noitada e viver intensamente. A droga esta presente em muitos casos.

Existe a parcela de boys gays assumidos e com consciência da sua homossexualidade e uma outra parcela que se consideram hetero, geralmente casados em uma vida de ocultamento. Estas esposas podem saber ou não a vida de prostituição do marido. Muitos dos boys também enveredam pelo filme pornô mais geralmente se arrependeram.

Série Meninos, Registro em fotografia 2016 – Paulo Jorge Gonçalves

– O tema da prostituição da mulher, nesta sociedade, vai pra baixo do tapete, porém é mais aceito do que a prostituição masculina – este assunto sofre um apagamento total na mídia, na cultura e na conversação corriqueira da sociedade – porém é um tema muito comum. Isso explica o número avassalador de crimes contra gays, este desejo de apagamento?

– Todos sabem que os homossexuais existem, só não querem que eles sejam vistos. Por isso está sociedade (principalmente esta sociedade neofascista que se forma) faz uma pressão para que o gay seja “padrão” e “de respeito”. O que isso quer dizer? Que ele se pareça ao máximo com um homem hetero cis gênero e que não levante bandeira ou exponha que tem vida ativa sexualmente.

O que sai desse padrão é odiado. A gay poc poc (a mais afeminada) é o ponto chave da raiva. Aquele gay ativista que fala que não tem vergonha de ser o que é, luta pela causa, o outro, tipo que também recebe uma boa parcela do ódio. Junto claro, das trans e travestis que pagam com a vida. Qualquer um que revele para a sociedade: Existimos.

Isso fica claro quando se fala do deputado Jean Wyllys que é desprestigiado em nome do passado Clodovil que também teve uma vida pública. Independente de pensamentos políticos a verdade que o ódio ao Jean é por ele verbalizar em pleno congresso e prometer lutar abertamente pela causa LGBTQIA+ e de não ter vergonha de ser o que é, enquanto Clodovil foi eleito por donas de casa que amavam seu programa de fofoca, e sua plataforma era lutar pela família. Rechaçou todos os ativistas gays que o procuraram enquanto esteve cumprindo mandato, além de odiar o fato de ser gay a ponto de em um programa dizer –“agradeçam a Deus pelo seu câncer pois isso tirou seu apetite sexual”. Héteros odeiam ouvir falar que homossexuais transam, mas desejam transar com homossexuais o tempo todo.

Com um novo clima reacionário no ar, onde as pessoas perderam o medo de mostrar seus lados sombrios, homofóbicos se sentiram embasados para efetuar agressões. não que os crimes contra a comunidade eram poucos, sempre se matou LGBT no Brasil, agora a diferença que temos apadrinhamento.

O Brasil tem uma sociedade que vende constantemente sua erotização, seja na mídia, nos programas culturais ou no dia a dia. Uma sociedade que sempre viveu de forma dúbia como uma carola da missa ao domingo e uma prostituta na calçada. Com o sexo masculino não é diferente, somos vendidos como garanhões que transam sem cessar.

Por fim temos o recorte dos “evangélicos”, os neopentecostais que tomam por base a bíblia e seus dogmas. Dogmas estes escritos na idade dos metais. Dogmas de um livro repleto de mentiras, comportamentos escravocratas, machistas, misóginos, beligerante, belicosos, e também homofônicos. Como me explicaram a bíblia para eles é vista como um todo e não importa se Jesus disse amai uns aos outros, eles não podem incluir homossexuais nessa parcela do todo, pois em outros livros, do antigo testamento e em Paulo eles são condenados. Claro que estas mesmas pessoas que seguem este dogma com tanto afinco passam por outros dogmas e fecham os olhos. Mais nessa seletividade aí conta o fator de uma tradição judaico cristã que a maioria não quer perder, a de controlar o corpo do outro.

Igualmente ao tema aborto, a persistência nesses dogmas é mais frutos de controle do próximo que propriamente um fundamente de céu/inferno. O corpo da mulher e do gay (minorias e isso inclui negros) deve ser tolhido e controlado.

Matar se tornou uma tradição no Brasil, a banalização do mal. E fica fácil porque a sensação de impunidade é grande. E a omissão também. Casos de travestis linchados em praça publica a luz do dia e aos olhos de todos, onde ninguém interfere, são comuns. Ninguém quer se meter em um assunto tão “complicado” o cidadão comum brasileiro quando não é o algoz é cumplice.

As estatísticas estão aí e mostram que ser homossexual no Brasil (assim como ser um jovem negro periférico e favelado) é viver com um alvo nas costas o tempo todo. A mídia não interessa expor essa catástrofe, ninguém quer tomar conhecimento. Somos uma sociedade extremamente machista e o pior: gostamos de ser machistas e não queremos mudar. Cavucar esse lamaçal vai revelar muita coisa do perfil do brasileiro, quem sabe do pai de família gente “de bem”, provedor da família, que consome travestis e boys nos intervalos de tempo. O Brasil quer realmente saber disso?

– Como você enxerga a percepção que as pessoas têm do teu trabalho no circuito de arte, é entendido como provocação? É visto com mais cautela e atenção? Ou sofre os mesmos tabus da ” tradicional família brasileira”?

– Complexo. Primeiro porque o circuito da chamada arte com “A” maiúsculo brasileiro não quis me ver. Nenhum edital que mandei os meninos eu entrei. Passarinhos já me narraram que eu fiquei no quase… Não sei qual a palavra usar aqui se é desconforto, incômodo, rejeição, provocação, preconceito. Atualmente dei um tempo de editais nacionais.

Ao mesmo tempo lá fora, fui bem recebido, estou em várias páginas de arte Queer, de projetos Queer. Europeus e americanos. No site do Balaclava tem um álbum todo com meus trabalhos.

Acho que aqui tem (ainda) um lugar sim para a arte queer. Para aparentar uma contemporaneidade cada galeria está com sua cota de artista negro e homossexual. Claro que todos estes, são absorvidos depois de passar pelo vetor nacional que são os editais. Mas percebo que os artistas queer que estão em atuação tem que mandar sua mensagem decodificada. Como falei: Você pode até ser, mas não esfregue tanto na nossa cara. Crie símbolos, metáforas, códigos, ilusões, poemas. Mas será que queremos ver uma rôla ereta e um olhar de fome? Já basta um Alair Gomes no Brasil, o que já é complicado.

Na “comunidade” de artistas que convivemos vejo distintas reações. Muitos, claro, não querem ver. Se viram a cara para prostitutos na Cinelândia, porque não virariam para essa criatura ofensiva na parede? Principalmente depois que descobrem a origem das fotos. Eu coloco na parede a foto de uma pessoa com olhar pedinte cheio de tesão, nu e suas parte íntimas orgulhosamente expostas. Tente compreender isso na cabeça do artista que carrega, apesar de todo seu pedestal de intelecto, também traz sua bagagem machista toxica. Isso claro vale para homens e mulheres. Não é fácil de digerir e então não é absorvido, escolhido ou chancelado.

Uma outra parcela entende a proposta como ato político e todo conceito embutido por traz e o peso de denúncia, uma parcela absorve pela estética e pelo tesão mesmo. O publico feminino é o que mais compra para minha surpresa.

Em termos de eu ser chamado por curadores minha expectativa é completamente nula, não acredito que muitos queiram comprar essa briga. Nem todos os espaços estarão disponíveis atualmente para expor esse tipo de material. Será que algum dia estiveram realmente?

– Como foi participar do Salão Vermelho de Artes Degeneradas, no 1 de maio de 2019?

– Vou confessar!!!! Eu detesto mandar qualquer proposta e responder editais, tomei ranço. primeiro porque nunca consigo me decidir pelo que mandar e segundo porque não acredito e terceiro cansei de ser gongado. Mas gostei do nome deste, da proposta, e era o momento. Tinha um fator irônico cativante. Acho que na verdade tudo foi uma grande pachorra que espero tenha sido bem registrado para no que no futuro possa ser avaliado e discutido.

O próprio nome degenerado falou direto com o que faço, para muitos a prostituição é a própria degeneração e degradação da vida humana. E eu conclui que certamente eu seria o único que mandaria peças tão radicais de nu masculino. O tema do nu seria um assunto importante a ser abordado nesta mostra. A perseguição a cultura, educação e a arte que estamos sofrendo em nosso país não é só no campo político ideológico, passa por um víeis moral hipócrita. Por sinal a pauta moral foi fundamental para eleger esta direita conservadora extremista. No país do carnaval, da “Baiana é que entra no samba de qualquer maneira, que mexe, remexe, dá nó nas cadeiras. Deixando a moçada com água na boca” como dizia Dorival Caymmi, pode se tornar o país que vai proibir toda e qualquer manifestação sensual do corpo. Corremos sérios perigos.

Infelizmente como foi um evento fora dos meios oficiais e dos eleitos, teve pouca mídia e repercussão. No Brasil tem uma cultura estranha de não se absorver as curvas. Isso deveria ter sido matéria de jornal e revista.

Um fruto me foi extremamente positivo, Thales Valoura estava trabalhando em uma monografia que falava justamente da representação da prostituição na arte contemporânea brasileira e encontrando poucos representantes, e se deparou com meu trabalho. Entrou em contato e depois de longas conversas, análises e trocas. Ele apresentou uma excelente conclusão na UFRJ onde esmiúça três artistas, e eu sou um deles.

– Que políticas públicas seriam desejáveis para uma vida digna dos gays, trans, lésbicas, (LGBTQ) queer em geral?

– Eu ainda acredito na educação como patamar na construção de uma sociedade civilizada. Desconstruir essa sociedade extremamente machista toxica que é a nossa, poderia sim ser atenuada com orientações providas na escola. Orientação educacional de qualidade evitaria muitos problemas como gravidez precoce e consequentemente evasão escolar, feminicídio, doenças sexualmente transmissíveis, violência contra a mulher e também respeito e igualdade com gêneros. Evitaria a grande discriminação que nossa sociedade tem para com a comunidade lgbtqia+ – não esquecer a educação contra o preconceito religioso – Infelizmente, esbarramos novamente no plano de governo de controle do corpo, principalmente da sociedade carente. Então toda a educação vai ganhando a cada dia um peso moralizante que jamais vai permitir este tipo de avanço. Algo que poderia evitar a barbárie de nossa sociedade.

Ser gay no Brasil é difícil, sim. Ser transsexual ainda mais. Mais infinitamente pior é ser gay, trans lésbica, não binário ou o que for sendo de uma classe pobre e morando em locais de vulnerabilidade. São as bichas pobres que estão morrendo na tal estatística, são as travestis que tem uma média de vida de apenas 35 anos. Sem leis urgentes e eficazes combatendo a homofobia e punindo com veemência quem as pratique essa população ainda continuará a morrer. Junto a estas leis temos que ter proteção do estado, nossa polícia é terrivelmente homofóbica , esta semana tivemos um caso de uma vizinha que agrediu um gay e quando este chamou a polícia, ele que foi algemado e prezo, conduzido em um camburão, enquanto a agressora seguia em seu próprio carro.   Está em vídeo no youtube. Mostra o ponto como o homossexual não tem amparo na justiça. E antes a classe média que se sentia um pouco segura, com esta onda conservadora, começa a perceber que é tão vulnerável quanto qualquer outro. No carnaval é grande o número de agressão em bloquinhos, agressões muitas praticadas pela própria polícia.

E claro, evitar urgentemente a união da religião com o estado. Os dogmas da religião cristã são homofóbicos, costumo dizer que um homossexual que carrega uma cruz no pescoço é o mesmo que um judeu usar uma suástica, enquanto persistir esta união vergonhosa qualquer membro da comunidade lgbtqia+ não terá nenhum direito garantido pelo estado.

– Que sonhos possíveis ou utopias você tem nesta virada da pandemia, rumo a um mundo que jamais será o mesmo?

– Depois da peste negra na idade média tivemos a Renascença. Não sou muito de utopia , e a história foi mostrando que os que conduziram o caminhar agiam por interesses próprios, mas se tivermos um novo movimento em prol da intelectualidade, ciência e educação e que combata essa onda de retrocesso e fascismo que os últimos anos têm demostrado, já estaremos no lucro.


Para conhecer mais do trabalho de Paulo Jorge Gonçalves acesse seu instagram

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