ARTES VISUAIS

 

 

Paulo Jorge Gonçalves é artista plástico e vive no coração da zona norte carioca. Seu trabalho aborda a temática gay e as vezes chega à beira da pornografia – tensionando os limites da arte- e vem carregado de uma contundente crítica social.

Conheci o trabalho de Paulo Jorge no dia dos trabalhadores, o primeiro de maio de 2019, no Salão Vermelho de Artes Degeneradas, um evento de artes visuais muito bem humorado que teve este nome em um grande deboche ao desgoverno recém eleito, que persegue artistas e destrói a cultura (o nome do salão foi uma paródia do salão de artes degeneradas,no qual os nazistas expuseram obras de arte moderna roubadas, comparando a distorção formal da imagem expressionista, cubista e do que havia de mais de vanguarda na época, com as suas próprias teorias eugenistas de “degeneração da raça”). Em uma entrevista que fiz com o Thiago Fernandes, um dos curadores da mostra, ele fala mais a respeito: introduziu a palavra Vermelho para ironizar a demente perseguição anticomunista instaurada pela nova direita, no Brasil. Enfim, abro a porta do Atelier Sanitário ( dos artistas Leandro Barbosa e Daniel Murgel) e foi aquele impacto, como um vento quente na cara: as paredes estavam repletas de arte e o salão lotado de visitantes; Eu esperava obras deliberadamente panfletárias, talvez até um carro de som de sindicato com alguém em cima gritando em voz gutural– mas não! A surpresa foram corpos, muitas imagens de corpos, genitálias, umas imagens sensuais, outras engraçadas gays, trans, travestis, lésbicas. Havia uma verdade escrita na camiseta de uma visitante: “meu corpo é político”. No alto da parede direita, dominava a cena o trabalho de Paulo. A série Meninos me fez pensar o dia todo, durante a festa, porque era ao mesmo tempo forte, quase pornográfica, entretanto tinha algo de triste como a fome.

A série Meninos me fez pensar em tudo aquilo que a gente evita ver. O trabalho, devido ao impacto e a repulsa que senti no começo me revelou algo importantíssimo para a vida: fez encontrar, escondido no armário, o meu bolsominion interior. E para localizar o GPS deste fascista interno e poder trucidá-lo, o trabalho de Paulo é bem eficaz. Meninos é uma série potente que ao longo desta conversa com o artista só se confirmará como tal.

– Como a pintura pintou na sua vida? Quem foram suas referências iniciais e quando começou?

– Como disse já tendo esse apoio eu desde muito novo pude “brincar” de pintar. Me foi permitido. Era uma criança lúdica e criativa. Estava sempre inventado. Criança de periferia com vasto quintal para aprontar.

Já sabendo que aquele brincar com tintas era especial e tinha um nome, se chamava arte, isso me despertou e fez uma diferença.  No entanto, nunca me considerei uma pessoa com dom, ou extremamente talentosa, eu me considerei mais como um apaixonado. Foi essa paixão, por sinal que desde muito cedo foi que me fez correr atrás e superar a falta de talento para poder fazer o que eu mais amava.

Eu corria atrás de informações como falei, as tais coleções de recortes. também colecionava aquelas revistas semanais de vidas de artistas das bancas de jornal. Isso me ajudou a explorar este mundo. Pude ver mesmo que apenas por imagem, uma gama enorme de estilos, artistas, nas mais variadas épocas. Alguns claro me chamava atenção. Paixão absoluta foram de imediato Caravaggio, Michelangelo, Lautrec e Modigliani…, mas os nomes sempre variavam também conforme o interesse. E um em especial era paixão mais que absoluta. Paul Klee. Teve épocas que eu sabia a vida de artistas de cor. Eu era um jovem bem estranho.

Cedo também comprei minha primeira câmera fotográfica (analógica) eu registrava tudo. Paralelo a pintura, a fotografia sempre esteve presente. Também desenvolvendo de forma amadora e informal.

Essa aprendizagem toda foi muito quebrada, eu não entrei em cursos. Poderia ter quebrado etapas, principalmente técnicas, mas morando em bairro bem periférico era muito difícil um local onde alguém jovem poderia desenvolver esse potencial. Só anos mais tarde quando podia ir e vir que isso foi superado. E mesmo assim, atravessar todo o caminho da zona norte a zona sul é uma dificuldade que muita gente enfrenta e entendo quando desistem.

– Quais artistas, quadrinistas, sons, filmes, filósofos, vizinhos e figuras populares que te inspiram?

– Muita coisa me inspira, sou ladrão. Eu roubo muita coisa e vou armazenando. Aquela mania de juntar matérias de jornais e revistas da infância/adolescência se propagou em mim. Então estou sempre fuçando. é difícil falar que uma coisa é minha influencia absoluta porque eu vou tateando informações e aglutinando ao meu trabalho imagens, fontes, pensamentos, questões que me interessam.

Fui muito influenciado por rock, tive banda, toquei baixo, cantava, estudei música, principalmente a estética punk que pude vivenciar na década de 80. Mas minha fome me fez conhecer todos os estilos, músicas experimentais, vanguardas e Músicas brasileiras.

Quadrinho foi uma baita influencia, sou fissurado, tanto que minhas monografias foram todas em cima do estudo do HQ e a aprendizagem da arte. O cinema me interessa bastante no campo da imagem, da fotografia. Luz

Essa procura de conhecimento não se sustentaria se eu não tivesse uma consciência do meu entorno, entender o social, político e econômico (não como um fetiche como alguns, mais como alguém realmente pertencente) do subúrbio e da periferia. Uma cultura do suor como chamo. Isso trago forte para o trabalho. Tem um q do sal da pele que só se encontra em algumas partes do mundo, geralmente não as assépticas.

– Que exposições mais lhe marcaram? Que exposições suas ou trabalhos seus, você considera mais importantes?

– Era uma criança e minha irmã me levava para ver exposições, as gravuras de Picasso no passo, foram um encanto e eu nem compreendia o que era uma gravura de tão jovem.

Uma exposição que me marcou muito foi a do diretor de cinema Peter Greenaway que também produz com desenhos, colagens, pinturas, talvez por não ser um artista visual, mostravam trabalhos sem ranço. Aquilo me marcou muito. Influencia e grande estímulo foi ver as fotos de Mark Morrisroe,

Confesso que ando exausto de exposições e não vejo novidades. Me dão muito tédio na maioria das vezes. Repetição de fórmulas de apresentação, truques da contemporaneidade. Maneirismos.

Pratiquei pintura por anos e com a maioria delas fiz uma grande fogueira. Nada que fosse relevante. Farto dos velhos, novos truques da arte. meus últimos anos esteve marcado na produção de gravuras. Uma mesma matriz originando diversas cópias e estas, montadas, ocupando o espaço. Uma forma de trabalhar a gravura com um pensamento no corpo, vivendo a imagem. Claro que o povo da gravura, técnica cheia de tradições, me execrou e nunca levou a sério.

Partindo disso fui criar mantos, mesmos padrões que se intercalavam, mais em materiais diferentes e por fim cobriam e ocupavam superfícies. Também vestiam pessoas. O corpo entra. Se representa no trabalho. Começo a desenvolver o hábito de registar tudo em fotografia. A fotografia passa a ser peça importante do meu pensar.

Series soltas de fotografias se acumulavam e todas tendendo a um homo erotismo. Séries com mototaxistas, banhistas, camelos, skatistas, surfistas… objetos de sedução e fetiches do universo erótico. Aos poucos um passo maior, gays na pegação, festas, paradas gays, travestis.

Até que surge o trabalho com nus e o tema dos garotos de programa em 2015. A série dos nus intitulada Meninos que falarei mais adiante.

– Quando e como você decide aproximar sua arte “o mais próximo possível da pornografia gay”? E por que esta proposta tão radical?

– A pornografia não era algo que eu negava ou nego. É algo que me encanta. Sou fã de filmes pornô, das diversas estéticas (das mais leves, “baunilha” às mais pesadas) gosto dos filmes heteros e dos filmes gays. Gosto da estética dos amadores e o novo material que surge no onlyfans com exibicionistas que se declaram no twitter para vender sua pornografia nessa plataforma, principalmente os nacionais. Conheço o nome dos diretores, as companhias e os atores do mundo pornô. Quero fazer series de pinturas usando atores pornô como temas. Temos excelentes atores pornô brasileiros. Mas também sei de toda a polémica que esta indústria está envolvida, a exploração do corpo, envolvimento com drogas, uma certa máfia por traz. Nunca nada são só flores.

Outra questão e o universo underground que sempre foi a menina dos olhos. Cultura punk, zines, bdsm, contra cultura, filmes alternativos, performances, pós pornô, aquela estética de registar de forma analógica as performances nos anos 60 e 70, teatro experimental, filmes experimentais …. esse embate é o que eu percebo de mais caro na arte. A zona de conforto nunca me atraiu.

Sei que com isso afasto muitos do meu trabalho. Eu poderia ter optado por um trabalho homoerótico mais higienizado e padrão (tipo de beleza de catálogo) seria mais fácil talvez. Mas gosto do erro e da sujeira, pelo meu próprio histórico e de onde venho e onde moro. Também poderia ter feito um trabalho apenas simbólico, muitos estão fazendo isso. Atualmente estamos vendo uma abertura para representantes de negros e LGBTS que trabalham com a visibilidade de sua minoria. Mas é importante salientar que ter mais não significa qualidade. Todas as temáticas estão sendo abordadas? Todos os assuntos estão sendo ditos? E quando ditas, estão sendo ditas com qualidade?

A parte mais pesada desta equação continua não sendo aceita. E não adianta passar verniz porque o dark side do mundo gay realmente existe. Vários rapazes heteros e gays estão se prostituindo para completar a renda familiar, assim como travestis acabam tendo na prostituição seu único ganha pão porque não conseguem emprego dados pela sociedade e a sua média de vida é de 35 anos. Ainda quero fazer muito mais coisa. Atualmente estou em processo com uma espécie de revista erótica (certamente de um único número) relembrando as antigas pornografias que se compravam nas bancas e a internet pois fim. Quero fazer novas séries com outros temas, se a pandemia permitir, e por incrível que pareça fazer um filme pornô gay/arte. Algo bem nonsense, se bem que 99% dos filmes pornô já são assim.

– Certa vez entrei em um evento de arte em Santa Tereza e dei de cara com aquela sua releitura da releitura que a Varejão fez da Tarsila do Amaral. Me mijei de rir. Deboche, fina ironia ou um grande f***-se à hierarquia invisível no circuito de arte contemporânea?

– Simmm!!!! Foi feito por pura troça.

Deboche, zoeira. Acho a arte contemporânea brasileira e o povo envolvido nela um saco de bosta. Gente chata e irritante. Principalmente os “xovens”. Acompanho muito mais a cena internacional. Talvez por ver de longe, me iluda que sejam diferentes. Bendita internet. Mais troco conversas e me aparentam ser pessoas menos soberbas e mais antenadas tentando captar muito mais coisa do que só o farfalhar do seu próprio ego.

Eu percebo que aqui todos querem ser eleitos e chancelados. Passando em um mísero edital, pronto: a pessoa trocou de fase ou evoluiu tipo um pokémon, não interessa mais olhar tudo e a todos e sim apenas os próximos a ela ou os megasuperiores. Isso bloqueia diálogos. O que vale na real todos os editais que passamos? Representam vendas reais? Preço de mercado? Valor em nossa arte? Isto é permanente? Conheço artistas que expuseram na bienal de São Paulo e hoje galerias não os representam. Complicado.

Estamos vivendo também um novo academicismo, estamos urgentemente necessitando de novas vanguardas para romper com os atuais conservadores. Se você pegar um catálogo da bienal parece que todos estão pedindo emprego com seus currículos, Doutor em…Mestre em… PHD em…. depois, bem depois você olha o trabalho que o indivíduo faz. Não foi contra isso que impressionistas e modernistas lutaram? Uma arte acadêmica. Virou uma nova academia. Existe um novo padrão clássico de arte contemporânea, quem estiver fora desta curva está fora.

Existe formas de se fazer arte, tem que ter certos ingredientes, tem fórmulas de pinturas, até o gotejar das tintas já virou escola, o grafite já é um estilo acadêmico, tem toda uma tradição da contemporaneidade e por aí vai. Então quando voltei a pintar esqueci dos maneirismos modernos e fui olhar para o Barroco, um claro escuro, uma anatomia ou coisas como Frans Hals, longe de querer e pretender me igualar a genialidade deste tipo, mas se era para pertencer a uma tradição vamos a uma com alicerce.

Sem falar que ser um escolhido em arte hoje em dia se refere muito mais aos lugares onde você anda, com quem você convive e conhece e qual a tese que defende nas altas rodas, do que o trabalho que você realiza. O trabalho pode nem existir, isso é só um detalhe.

Só que certamente ou estamos ou estaremos brevemente vivendo em um tempo de virada. A coisa toda não está se sustentando, a fórmula funcionou, mas está mostrando fissuras, o povo nunca foi convidado para esta festa da arte, recebia no máximo uma nota no jornal e a mídia começa a duvidar. Os intelectuais vão ter que coçar a cabeça e pensar novas teorias. Por fim o mercado, sempre ele, vai dar um jeito de lucrar com o que vai surgir.

Série Meninos, Registro em fotografia 2017. Paulo Jorge Gonçalves.

– No contexto atual brasileiro (que momento…) a questão gay é um tema extremante complicado para ser abordado no universo da arte pois falsos moralistas de plantão vêm logo debitando em cima dos homossexuais a conta da sua perversão. Houve alguma época um pouco mais segura para se mostrar ou falar destes assuntos?

– Em todos os períodos tivemos artistas gays, em todas as épocas tivermos arte gay. Claro, todos enfrentando os limites ou liberdades que lhes eram oferecidos. Donatello foi extremamente gay e seu Davi é um exemplo clássico disso, produziu peças homoeróticas consumidas por uma renascença que compreendia e possibilitava esta produção. Já Michelangelo por viver muitas décadas pode vivenciar também esta possibilidade no início da carreira e fica claro em peças de escultura e no teto da capela sistina e no final de sua carreira ver como as coisas mudaram com a contra reforma, traduzido na censura do seu juízo final.

O moralismo sempre está à espreita tentando consumir o pensamento progressista. No Brasil Victor Arruda dá um show a muito tempo, com uma arte vanguardista, bombástica, podre e violenta, Leonilson foi forte nos anos 80 deixando uma arte depoimento em forma de poema visual, na fotografia temos o já citado Alair Gomes, mesmo que sua obra só tenha vindo a publico depois de sua morte.

Tudo aparentemente parecia “normal” até que todos são pegos com a nota violenta que no dia 15 de julho, o performer Maikon K foi preso durante a execução de sua performance e a Polícia Militar do Distrito Federal informou que o motivo da prisão foi “atentado ao pudor”. Isso porque Maikon K se apresenta nu. Como assim?

Isso ocorreu duas semanas depois de o banco Santander determinar o fechamento da exposição Queermuseum, em Porto Alegre, em meio a uma onda de críticas conservadoras, de um bando de aproveitadores surfando na onda para conseguir votos para as próximas eleições. É a performance La Bête, apresentada pelo Museu de Arte Moderna de São Paulo, realizada pelo coreógrafo carioca Wagner Schwartz, fazia uma releitura da obra Bicho, de Lygia Clark, artista historicamente reconhecida. Um vídeo divulgado nas redes sociais que viralizou, mostrava um trecho da performance, na qual uma mulher e uma criança interagem com Schwartz, que se encontra deitado e nu. A garota toca os pés e a canela do coreógrafo. Foi o bastante para a arte ser bombardeada como produtora de pedofilia, imoralidade, degeneração. A mãe teve que prestar depoimento, o artista sofreu ameaças, depoimentos constrangedores.

Resumindo a ópera tosca, estamos vivendo um tempo cafona, com uma estética própria perigosa, mais que não podemos fechar os olhos. O grande problema talvez tenha sido esse, nós não os levamos a sério. Os acadêmicos não os levaram a sério pois suas teses loucas não tinham fundamento, nós artistas não os levamos a sério porque eram bregas demais e por aí vai. Eis que o mostro vingativo surgiu com ódio a todo pensamento progressista, aos valores civilizatórios, educativos, científicos, sociais, evolutivos e cultuando a barbárie. E nesse furacão a homossexualidade é um dos temas que eles amam perseguir e não vão abrir mão de odiar.

Porque não abrem mão de sua homofobia? Mesmo sabendo que para o comércio e o turismo o dinheiro rosa é extremamente positivo. Não abrem mão, porque tanto a questão do feminismo, o racismo quando da homossexualidade tem a ver com a liberdade do corpo do outro. O controle. Exercer este domínio escravocrata, machista, opressor e castrador para dominar a alma e assim subjugar.

Nem na época da ditadura com os cães selvagens militares babando e rosnando tivemos um período tão ruim, pois não tinha uma pressão moral religiosa por traz. Tivemos o desbunde, tivemos produções teatrais audazes como O Balcão e Cemitério de automóveis, tivemos os Dzi Croquettes. O que temos hoje?

– A mesma sociedade que mais mata transexuais e travestis e a que mais consome prostituição de travestis e consome videos gays na internet. Como isso se explica, no seu ponto de vista?

– Hipocrisia – a triste realidade nacional. Por um lado, somos uma sociedade extremamente “brejeira” com excesso de volúpia. Filhos de degredados Europeus da pior espécie estuprando índias e negras, de donos da casa grande sodomizando seus escravos por prazer e um povo que rapidamente compreendeu que a forma mais rápida de ascensão social é o sexo.

Por outro lado, temos um peso de uma cultura judaico cristã cheia de moralismos, falsas promessas, culpas, intrigas, segredos, fofocas e o hábito de tomar conta da vida alheia. Onde estado e religião se misturam.

A homossexualidade já foi estudada e esmiuçada pela ciência, não é uma doença e sim algo bem natural na natureza, chegaria a ser cansativo ficar ainda debatendo este tema se não fosse que o homem, único animal entre todos os que praticam seja o único que apresenta a homofobia. Em algum ponto da sua vida o ser (bicho) humano, pode inverter os papeis e experimentar. Não indica que toda sua vida será pautada pela aquela ação. Assim como ninguém se transforma em homossexual, é algo que é inativo da pessoa. Transformar isso tudo em uma bigorna nas cabeças dos seres humanos é que reside o problema.

Uma sociedade adoentada pelo machismo sim é uma das principais doenças. Crianças são mentalmente atormentadas com padrões patriarcais e violentos. Meninas já crescem na esfera do medo e da vítima, meninos são moldados para ser um canalha e os que não se encaixam logo são rotulados e destruídos mentalmente. A quantidade de doença que este machismo toxico causa é imensa. Contra isso se é falado, explicado, mais é uma sociedade que teima em manter paradigmas baseados na religião e no estado patriarcal.

Crescemos vítimas desta loucura, camuflando desejos, condenando semelhantes, punindo o próximo, torturando física e mentalmente outros seres humanos. Travestis são condenados naturalmente a uma vida de prostituição para sobreviver e estão expostos a uma violência cruel. Mas ninguém pergunta quem são seus clientes. Assim como ninguém pergunta quem são os clientes das prostitutas e dos prostitutos. Sim, o reino mágico da hipocrisia. Um país que tem salas de bate papo onde pode se encontrar EVANGELICOS procuram EVANGELICOS, tudo na encolha, tudo escondido. Pau, porrada e morte para quem dá sua cara a tapa. Longa vida a hipocrisia.

– A sua série de fotografias realizadas com garotos de programa é contundente. São imagens sensuais, nus, músculos, sensualidade, pele…, entretanto há um limite muito tênue que as diferenciam da simples pornografia. Algo que está no olhar do fotógrafo. Como é construída a relação de confiança com estes rapazes para que eles se deixem fotografar?

– Como falei a estética dos filmes pornô me atrai, assim como as fotos eróticas, das antigas até as das décadas de 70/80. Para compor a série meninos eu não parti do nada, eu já tinha em mente que eu queria fazer algo na esfera do erótico, do pornográfico, da sensualidade. A questão era achar a temática e o processo e com quem iria trabalhar. Eu como falei fiz muitas séries que já tinha um caráter extremamente sensual e homoerótico, como passar dias em pistas de skate fotografando os jovens suando em suas acrobacias, ou na praia saindo e entrando no mar e tostando na areia. Mas eu queria mais.

Fiz uns trabalhos embrionários que juntavam as antigas formulas das ocupações e mantos com pessoas e justamente uma dessas pessoas que ao ser fotografada não teve receio em fazer nu, que me falou que era garoto de programa. Achei assim a peça que faltava. O tema. Os prostitutos seriam meu assunto.

A série meninos consiste em entrar no mundo do garoto de programa, e fazer um acordo com ele, o valor do programa, a quantia em dinheiro da minha parte e ele por sua vez ao invés do sexo, posa para mim. Acordamos também o que ele pode ofertar em termos de fotografia, muitos não podem revelar o rosto, ou não querem mostrar partes intimas ou uma certa tatuagem. Outros de forma bem narcisa ao ver a câmera se oferecem soltos. Fotografo geralmente nas cabines dos próprios clubes ou quando, marcado em motéis. O que dá as fotos algumas características. Não tenho luz própria para foto,