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08.08.2020 - São Paulo, Brasil - Paolo D'Aprile

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Chegamos a cem mil. A contabilidade do sofrimento oferece sua cínica contribuição à dor da minha gente, hoje mais do que nunca, filha de uma época degenerada cujo grito “Ai dos Vencidos” lhe é jogado na cara pelos poderosos de sempre. Mas nós não vamos arredar pé, nem tampouco abandonar ninguém, começando por nós mesmos e por aquilo que sempre fomos. E quando tudo acabar, poderemos nos olhar e reconhecer nossa imagem mais verdadeira, por aquilo que cada um de nós fez, por tudo aquilo que cada um de nós é. Saberemos que conseguimos resistir com a força do grito mudo do nosso silêncio, do nosso trabalho e da nossa presença. Saberemos que a solidariedade é o valor sobre o qual embasamos o nosso convívio e a que não estamos dispostos a renunciar.

Uma singela homenagem aos mortos e suas famílias; um abraço a todos os amigos que nesses longos meses compartilham comigo o medo, mas também la voglia, la pazzia, l’innocenza e l’allegria (a vontade, a loucura, a inconsciência e a alegria) de fazer parte, pertencer, aqui estar: de viver.

Brasileiros Brasil

Nós
enterrados vivos
sem força
sem voz
esquecidos
mãos atadas
pés acorrentados no lodo da vergonha
na escravidão de uma vida sem sentido
A esperança é um luxo proibido
Nossos gritos perdidos no vazio
buscam
a luz que não consegue iluminar
a escuridão do nosso medo
Bando de vagabundos
canibais em busca da próxima refeição
Mortos agonizantes na espera do golpe de misericórdia
espectadores inermes de um jogo que não é nosso
cujas regras não fomos nós a escrevê-las
Extraviados
iludidos
despojados
rasgados
defraudados
esculachados
humilhados e ofendidos
Somos todos personagens de Jorge Amado
num livro escrito por Dostoievski
vivendo o pesadelo de Kafka
Brasil, meu Brasil Brasileiro
Gente em toda parte
na solidão da alma
espera vã
nos desertos das metrópoles
nos sertões invadidos por promessas e mais promessas
sem rumo
sem destino
sem passado
a procurar memórias do paraíso nunca existido
esquecendo a construção dos mitos
ao gosto de reis e rainhas de outras terras e outras gentes
Nós, o bom selvagem
na Terra de Vera Cruz
gente de mão estendida
que implora: o espelhinho ontem, a tecnologia hoje
Mas Nós, quem somos Nós?
Nus sem pecado
Povo novo em fazimento
maravilha work in progress
povo em ser
construindo duramente o seu destino
Nós, o sorriso das crianças
Nós, os sinceros abraços de amizade
Nós, a palavra saudade
Nós, a palavra desejo
Nós, a alegria sempre
Nós, o direito reconquistado
Nós, o sonhar acordado
Nós, o delírio de uma noite de Carnaval
Nós, gente do mundo inteiro
múltiplos rostos únicos
debaixo do sol tropical
da mais linda província da Terra
plasmando um mundo novo
Temos voz e anseios
Temos olhos para enxergar o caminho
o caminho das mudanças
da infinita possibilidade de escolhas
o caminho das diferentes verdades
Temos pés para percorrê-lo
mãos para puxar quem não conseguir
e coragem de não voltar atrás
Nós, sem nada
Nós, braços abertos
Nós, acostumados com a sobra
queremos agora
participar
assim
do jeito que nós somos.

Categorias: Ámérica do Sul, Cultura e Mídia
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