Muito barulho por nada

12.07.2020 - Rio de Janeiro, Brasil - Eduardo Alves

Muito barulho por nada
Dogberry (de W. Shakespeare) por Henry Stacy Marks (1829-1898)

Faz-se necessário, antes de muito barulho por nada, dizer que o título desse artigo foi emprestado do senhor William Shakespeare. Ainda que sejam inquestionáveis o valor das peças de Shakespeare, o que interessa aqui é o seu valor de uso, o seu conteúdo simbólico. Na peça há um personagem principal chamado Dogberry, um ser fantástico em saber enganar, por se enganar também e com muito bom humor, com o uso de palavras incorretas que só pelo som parecem corretas, coisa que toma o que, lamentavelmente, se chama hoje de narrativas. Mas tudo bem, o personagem não era presidente da república, era apenas o sujeito de uma Inglaterra entre os séculos XVI e XVII. Faz tempo que, infelizmente, o palco das narrativas, e não o dos conhecimentos, roubam a cena da vida de todos nós, seres humanos.

É inquestionável o quanto cada peça deste senhor provoca, simbólicas que são, conhecimentos, questões, pensamentos, sorrisos e choros nas pessoas. Afinal, as pessoas são a razão da vida em sociedade. Por isso é de importância começar por esta contribuição notável aqui neste pequeno artigo, por ela simbolizar este fenômeno histórico e universal da mistificação narrativa e enganadora em contradição com os conteúdos relativamente verdadeiros que o conhecimento produz em seu percurso de aproximação relativa da verdade. Dogberry é expressão de um sujeito social cujas narrativas são construídas sob variadas estéticas e bons humores, desprovidas de conteúdo. Pura retórica. Porém, personagens assim vestem como luva as mãos invisíveis de sujeitos cujos objetivos são ocultar as suas verdadeiras intenções e seus mais concretos interesses, dissimulando, pela forma narrativa, o seu próprio conteúdo. Aqui, a forma narrativa é manifestação de conteúdos que lhe são contraditórios. O mundo das narrativas mistificadoras são manifestações das personas deste teatro shakespeariano da vida que ocultam o seu próprio conteúdo, antagônico e latente. Toda narrativa é a indumentária de um conteúdo revestido. E, por isso, o conhecimento exige um mergulho nas profundezas desconhecidas que o mundo das narrativas reveste, transmuta e mistifica. Conhecer exige a desfiguração das personas, o desfolhar das máscaras, o mergulho nos bastidores do teatro das narrativas e o reconhecimento dos personagens que precisam mistificar a vida para dominá-la.

A vida em sociedade que temos, histórica e socialmente, tem sido imposta pelos poderosos, para que a grande maioria das pessoas sejam empurradas para se metamorfosearem em mercadorias. O mercado assume o grande palco fazendo padecer a vida e inexistir a dignidade. Mas não é para todos as pessoas, né? Há desigualdades. Então vamos ao mercado para pensar a vida.

Um dos mais importantes cientistas sociais – para não dizer o mais importante para aqueles que vivem da venda de sua força de trabalho – fez a seguinte afirmação: “Como valores-de-uso, as mercadorias são, sobretudo, de qualidade diferente; como valores-de-troca só podem ser de quantidade diferente”. Caramba, parece que estamos no mundo das quantidades que se sobrepõem absurdamente às qualidades. Isso explica por que a quantidade absurda de produção de um remédio, que comprovadamente não combate o novo coronavírus que toma o mundo, tenha organizado o presidente da república com tanta estima pelo lucro, numa narrativa, digamos, dogberryana. Nesta peça teatral, a narrativa precisa mistificar o seu verdadeiro conteúdo. O objetivo fundamental é o lucro com a venda de uma quantidade gigante de medicamentos que tem prazo de validade e que precisam ser vendidos não pelo seu valor de uso, mas pela função que assumem como mercadorias que, se vendidas, realizam os lucros. E não é aqui, de novo, a mesma cena, a do lucro acima da vida?

Mas, de qualquer forma, precisamos, avançar. Para além de crer na potência humana e na curiosidade por conhecimento, precisamos refletir um pouco sobre a nossa vida em sociedade: seres humanos e não humanos, nossas relações com a Natureza, a transformação dos valores de uso em mercadorias, a organização da cultura, da política, da justiça e do mercado. Pois é, este mercado que aparece tão poderoso, que nos rouba a cena da vida e que transforma o nosso trabalho em mercadorias para o objetivo final de reproduzir os direitos dos lucros e não das vidas.

O mercado: lugar onde as pessoas são livres para vender e para comprar. Vende quem tem mercadoria e compra quem tem dinheiro, que é esta mercadoria especial por ter se tornado o espelho universal do valor de todas as outras. Afinal, com 10 reais o ser humano no Brasil pode comprar um picolé, dois lápis, uma caneta, quem sabe até consegue uma quentinha ou fazer mais uma viagem de ônibus. Mas tudo isso não! Será preciso escolher. O mercado é este lugar que pressupõe indivíduos livres, iguais, proprietários e que trocam suas mercadorias. Mas é, já aí, curioso que uns tenham uma riqueza imensa de mercadorias para vender (os proprietários dos meios para produzi-las) e que outros, a grande maioria, só tenham o seu trabalho para vender. Dogberry nos agraciaria, talvez, com uma narrativa promissora sobre as cigarras e as formigas de seu tempo, sobre quem mereceu ou sobre quem foi escolhido pelos céus para serem os ricos. Mas o conhecimento nos traz outra resposta. Esta resposta está no modo como produzimos na nossa sociedade e na mais-valia.

O que as pessoas produzem por dia em seus trabalhos são propriedades do patrão. E vejam, o patrão não é um chefe, que pode ser um comandante do mato do século XXI. O patrão é o dono, sua classe é o conjunto de donos de tudo o que é necessário para produzir as mercadorias e é, também, o dono delas. No mercado ele compra a força de trabalho, a única mercadoria que temos para vender. Assim, pelo regime jurídico que rege o mercado, ele passa a ser dono da força de trabalho. Por isso ele quer consumir a força de trabalho ao máximo. Mas por que? Porque a força de trabalho é a única mercadoria no mercado que, ao ser consumida, produz valor. Não tem nenhuma outra! Robô não produz valor, máquinas não produzem valor, eles só transferem valor para as mercadorias. Quem produz valor é a força de trabalho e, por isso, o patrão a enxerga como meio de valorizar e ampliar a sua riqueza. Mas para isso acontecer, o patrão tem, também, que vender as mercadorias que a força de trabalho produziu. Mas como isso acontece?

Ora, o trabalhador vende sua força de trabalho por um salário, mas produz um valor muito, muito, muito maior do que o salário que recebeu. Por exemplo, ele produz 5.000 mercadorias para uma fábrica por dia, mas recebe o equivalente a apenas uma destas mercadorias por dia. O valor das 4.999 mercadorias ficarão com o patrão. Isso significa que a mais-valia é trabalho não pago, é trabalho explorado. Foi o trabalhador que as produziu nas árduas, duras, desgastantes e constrangedoras horas de sua vida vendidas como mercadoria. Ele produz, mas não pode usufruir dos frutos de seu próprio trabalho. O trabalhador, assim, produz todos os valores deste mundo: tanto o valor do salário quanto o valor que excede ao seu salário e que será convertido em lucro. Muitos lucros. Bilionários lucros. Mas o regime jurídico do mundo do mercado os vê como cigarras e formigas.

Há notórias e absurdas diferenças entre as consequências para cada pessoa. Afinal, quem tem como única mercadoria a força de trabalho para vender no mercado, sofre as maiores consequências do mundo organizado pela exploração. E o teatro de narrativas se impõe com força a ocultar a verdade desta escravidão contemporânea, ajudando a mantê-la. E esse mundo é assim organizado pela política, pela justiça e pela cultura impostas. Essas são criadas por quem quer manter o poder e destruir o amor. Este amor coletivo, tão importante para que a vida se torne vida, não coisa comprada e vendida, e assuma o lugar central para o pensamento coletivo, fazendo valer a palavra solidariedade em quaisquer narrativas.

Ou seja, nossos desafios são grandes nesse momento. Para além de organizar o conhecimento acumulado, é preciso organizar-se. Não é natural sofrer, adoecer e morrer por forças criadas socialmente e, como no Brasil, principalmente pelas ações irresponsáveis e que organizam o lucro acima da vida. Para quem nasceu, viver e morrer são fenômenos naturais. Mas nada de natural há em como se vive e em como se morre. E em países como o nosso são principalmente as pessoas negras, indígenas, que moram em periferia, as que sofrem o maior peso. Mas essa lamentável realidade não é mais realista que o fato desta grande maioria de pessoas sofrerem as péssimas consequências do peso da organização social para a exploração. Assim, desaparecem direitos, alegrias e dignidades. E nós, ou conquistamos a vida com dignidade em uma grande escala, pela inteligência coletiva comprometida com o verdadeiro e com a liberdade, ou sofreremos no tempo vendo a banda passar. O otimismo da vontade grita forte: é possível organizar, avançar, mudar o mundo e fazer existir a dignidade humana. Então vamos fazer muito barulho por tudo que há e pode haver a favor da vida!

Categorias: Ámérica do Sul, Cultura e Mídia, Educação, Política
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