Direitos indígenas com literatura e música

19.07.2020 - São Paulo, Brasil - Redação São Paulo

Direitos indígenas com literatura e música
(Crédito da Imagem: Prof. Clovis Brighenti)

 

Por Elisane Andressa Kaiser da Silva

 

Sou Elisane! Cursei o magistério e posteriormente ingressei na Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA) onde fiz a graduação em Letras-Artes e Mediação Cultural e o Mestrado em Literatura Comparada. Sem dúvidas, estudar na universidade pública foi a melhor experiência da minha vida e sou muito grata por isso, pois reconheço que neste país marcado por tanta desigualdade esta é uma oportunidade que nem todos têm – mesmo sendo um direito de todos e todas.

Certamente a vivência acadêmica faz parte da minha história, mas aqui quero evidenciar o que está nas entrelinhas do meu currículo para poder falar de sonhos e de luta. Afinal, o que somos sem sonhos e sem luta?

Talvez, seja essa a essência desta vida atravessada por constantes metamorfoses.  Somos os sonhos que nos constituem e a resistência nos move para seguir lutando por aquilo que acreditamos. É fácil? Obviamente que não. A luta contra a opressão é constante e às vezes, ter que defender os direitos humanos e o óbvio parece até ilusão.

Somos cidadãos, somos humanos – embora nem toda a sociedade pareça humanizada. Em função disso, acredito na literatura e nas artes como potência para a transformação. Realizo o Projeto Cantando Histórias que consiste no trabalho de Mediação de leitura literária com músicas para a formação de leitores.  As histórias selecionadas buscam, sobretudo, contemplar as culturas silenciadas valorizando a diversidade étnica e cultural.

Recentemente, adaptei com músicas o reconto “A Indiazinha Chapeuzinho Verde” da escritora guarani Maria Lucia Takua e fiz a mediação em contextos diferenciados: Escola do Campo e Escola indígena. Durante essas mediações foi muito interessante perceber como as crianças construíram sentido ao ouvir esta narrativa.

Na Escola Indígena, as crianças se identificaram com a narrativa e tinham  “de memória” a frase mais significativa dos posicionamentos pelos direitos indígenas expressos no texto: “A terra não é nossa, nós somos da terra” (Takua, 2016). Já na Escola do Campo notei que o conhecimento sobre a cultura indígena ainda era algo a ser construído, ou melhor, desconstruído, pois a presença da imagem “congelada” do indígena, isto é, aquele que apenas vive na floresta ficou acentuada, pois não houve comentários no sentido de que o indígena poderia viver na cidade ou em uma aldeia da região, por exemplo. Essas respostas podem ser um reflexo do contexto em que as crianças estão inseridas ou de como é trabalhada a questão indígena no ambiente escolar.

Por isso, nos cursos de formação continuada para professores sempre destaco a importância de proporcionar aos estudantes o acesso às obras literárias diversas, isto é, não selecionar apenas histórias que se limitem a uma visão monocultural. É importante apresentar narrativas em que os leitores possam reconhecer ou conhecer outras culturas e contribuir para a formação de leitores críticos e reflexivos.

Por isso, considero muito significativo quando vejo novas publicações de escritores e escritoras indígenas para que eu possa fazer a mediação de leitura literária dessas obras, pois certamente são as melhores fontes para conhecer sobre as diferentes etnias.  Nesse cenário, a mediação de leitura se apresenta como uma linguagem de aproximação e como caminho para a mediação dessas tensões culturais, favorecendo a integração, sensibilização e alteridade.

Percebe-se que o princípio do preconceito é a ignorância, que instiga a reprodução de pré-conceitos em relação à cultura indígena. Acredito que a partir da literatura, por intermédio da mediação de leitura literária, é possível transcender as fronteiras que separam o eu e o “outro” e contribuir para que desde cedo as crianças reconheçam a diversidade em sua própria ascendência, valorizando a sua própria identidade e as culturas que fazem parte da formação do povo brasileiro.

Esse ainda é um caminho a ser construído e a literatura e as artes se apresentam como uma possibilidade para esse fim. Certamente há muitos desafios durante o trabalho de mediação cultural e de mediação de leitura e, ao longo do meu trabalho vou constatando a verdade dessa afirmação. Entretanto, conforme mencionei inicialmente, a resistência nos move para seguir lutando por aquilo que acreditamos.

Acredito que com o exercício de alteridade toda pessoa tem a capacidade de colaborar para desenvolver esse processo de desconstrução, reflexão e construção de uma nova história. Isso é utopia? Prefiro acreditar que sem horizonte utópico é impossível resistir.

Sonhar e lutar são processos revolucionários e tirar o encantamento de nossos sonhos é tudo o que o opressor deseja. Por isso, seremos resistência todas as vezes que a injustiça tentar apagar nossos sonhos e silenciar a voz das mulheres, das pessoas negras e indígenas. Enquanto tiver pessoas sendo mortas simplesmente por demonstrar amor ou sofrer violência por causa de sua cor a luta será constante.

Categorias: Ámérica do Sul, Assuntos indígenas, Cultura e Mídia, Opinião
Tags: , , , , ,

Boletim diário

Digite seu endereço de e-mail para assinar o nosso serviço de notícias diárias.

Pesquisa

Informe Pressenza

Informe Pressenza

Caderno de cultura

Caderno de cultura

O Princípio do fim das armas nucleares

Documentário 'RBUI, o nosso direito de viver'

Canale YouTube

International Campaign to Abolish Nuclear Weapons

International Campaign to Abolish Nuclear Weapons

Arquivo

xpornplease pornjk porncuze porn800 porn600 tube300 tube100 watchfreepornsex

Except where otherwise note, content on this site is licensed under a Creative Commons Attribution 4.0 International license.

maltepe escort