Editorial

10.05.2020 - Sevilla, Espanha - Rogério Reis Weber

Editorial

As pessoas que estavam no métier das diversas modalidades artísticas da minha geração se deliciavam com os suplementos culturais que saíam, sempre aos domingos, nos maiores jornais do país. Neles encontrávamos todas as ofertas culturais para este dia e para o resto da semana. Como jovem ator, aparecer numa entrevista ou num artigo sobre a peça teatral que tínhamos em cartaz era todo um acontecimento. Recortar e guardar estas notícias de jornal era como juntar um tesouro, que ao revelar-se colados num caderno qualquer iam dando brilho às nossas trajetórias profissionais. Até os tijolinhos contavam.

Os paulistas tinham a Folha e o Estado de São Paulo, os cariocas, o Segundo Caderno de O Globo e o Caderno B do Jornal do Brasil, o meu preferido, pelo time de cronistas, críticos, poetas e pensadores de todas as artes que, independente da imediata reação de “adesão ou rechaço” , na hora da leitura, iam nos ajudando a ver com outros olhos tudo aquilo que líamos nos livros, ouvíamos nos álbuns ou sobre os espetáculos de nossos cantores prediletos, o que víamos nas exposições de pintura, nos palcos de teatro e dança, nas telas do cinema ou mesmo da TV.

Eu nasci em 1966, ou seja, entre o Golpe de 64 e a instauração em 68, do AI-5, decreto emitido pela Ditadura Militar que inaugurou o período mais sombrio desse regime ao dar carta branca para que as forças de segurança do Estado ampliassem sua perseguição e repressão contra qualquer oposição democrática. Neste endurecimento, os golpistas fecharam o Congresso Nacional, decretaram estado de sítio por tempo indeterminado, cassaram mandatos, confiscaram bens privados, interviram em estados e municípios. Começaram com as práticas de tortura e a censura aos meios de comunicação e a todos os seguimentos culturais.

Assim, muitos de nós, crescemos num clima de vigilância e contenção e o Caderno B do jornal do Brasil, por seu conceito humanístico da Imprensa no mundo, como bem dizia Carlos Drummond de Andrade, representava de algum modo a possibilidade de externar nossa ânsia de liberdade tirando esta espécie de roupa apertada que asfixia os jovens em momentos de dialética geracional.

Este suplemento de cultura, o era, verdadeiramente, porque em sua diversidade incluía textos sobre o comportamento e o cotidiano do Rio Janeiro. E as tiras cômicas do Henfil, não se limitavam à sátira política sobre as figuras acomodadas do “sul maravilha”, como ele gostava de chamar os que eram do sul e do sudeste brasileiro, e nos fazia empatizar com os personagens nordestinos da Turma da Caatinga que clamavam atenção, ou melhor, exclamavam atenção, principalmente, pela boca de uma ave divertida com a forma desse sinal de pontuação. Graúna! A Mafalda do nordeste! Ah Graúna!!

Felizmente contamos, também neste Caderno de Cultura de Pressenza, com colegas, que formaram sua “paisagem interior” em outras épocas, outros lugares, outros contextos sociais… São mais jovens ou mais velhos e navegaram mais ou menos por outras culturas do que eu e cada um dos que estamos colaborando aqui, complementando-nos necessariamente nesta aventura digital lançada ao porvir!!

E hoje, assistimos todos, com nossas bem-vindas diferenças de paisagem, o surgimento de uma onda fascista, que volta a ameaçar nossa jovem democracia, conquistada e reconquistada tantas vezes a duras penas porque desde que se consumou o processo de destituição, em maio de 2016, da Presidenta Dilma Roussef, com lamentável e amplo apoio parlamentar, midiático e do Judiciário, os cientistas do Brasil, as organizações da sociedade civil, os movimentos sociais, os artistas e pensadores que atuaram para ampliar as liberdades individuais, o sentido, as leis e as práticas que promoveram o pouco de Justiça Social alcançado a partir de 1985 vem sofrendo sucessivos ataques.

Mas é, exatamente por isso, que nem eles nem nós, iremos nos submeter, de novo, às rígidas, violentas e velhas “tablas morais” que as empresas religiosas Neopentecostais querem nos impor. Em consonância com estas velhas tablas estiveram sempre os programas televisivos de “mundo cão” que há décadas, são emitidos por diversos canais promovendo o “olho por olho, dente por dente”, tirando proveito da ausência do Estado. Infelizmente esses dois elementos serviram como “base de formação”, principalmente para as camadas mais desfavorecidas, que foram aprendendo a achincalhar todo princípio que se inscrevesse com as insígnias dos Direitos Humanos, -num verdadeiro e inconsciente tiro no pé – e, que certamente, contribuíram para formar esta confusa horda bolsonarista aplaudida por uma burra e cruel elite económica..

Sim, essa nefasta massa amorfa que se espalhou como praga tenta amordaçar mais uma vez a opinião do teatro, demonizar as expressões da cultura de matriz africana presente no samba, no nosso Carnaval. Com a pretensão de ser dona do corpo alheio, aposta na moral de “toda a nudez castigada”, e castra toda a expressão do feminino, decretando, ridiculamente, o que seriam as cores da mulher e as cores do homem, inviabilizando a existência de escolas de dança, invadindo exposições de pintura para vendar os olhos de quem se abre para outras realidades. Buscam, com sua pauta moral, cortar todos os planos tão bem gravados na memória dos estudantes e criadores de escolas de cinema como a Darcy Ribeiro ou, através da própria Ancine, que perdeu a independência e foi invadida com o objetivo de promover um cerco a todas as produções cinematográficas que, legitimamente, nos levam à uma releitura da história recente do país. Que se cale pois, Marighella!!

O Brasil manteve, sorrateiramente em suas instituições, os algozes e simpatizantes dos algozes, aqueles que forçaram o exílio de tanta gente boa e competente da educação, das artes e das ciências, que forçaram uma “fuga de cérebros e corações” tão conveniente aos regimes autoritários. O desconcertante é constatar que, até mesmo alguns artistas famosos, que namoraram com a Ditadura atuam hoje como atuava o capitão-do-mato, que servia aos senhores de escravos numa triste página de nossa história.

Assim, caros amigos, se “a coisa aqui tá preta” será bom contar com este Caderno!! Pois é saudável reconhecer os degraus que todos os bons trabalhadores da cultura, que nos precederam, construíram contribuindo com o que é a própria identidade de um povo com talento para a alegria e a diversidade.

Para falar de arte, comportamento e cotidiano, entrelaçados com a situação política, econômica e social do Brasil já não temos aqui o pessoal do JB, ou das revistas de Humor e Sátira Política sobre as quais, por certo, também poderíamos falar em futuras edições desse Caderno. Já não será com Lispector, Drummond, Sabino, Heliodora, Millör, Veríssimo, Henfil, Motta…

Aqui somos Alícia e Alice, Marco, Jac, Contente, Valerio, Victor, Dayse, Guido, Lessa, Clodoaldo, Gilson, Patrício, Juana e todos os que estão chegando não só com seus textos, mas também com seus desenhos, podcasts, apoio técnico e moral, traduções, vídeos e todas as formas e meios de resistência não-violentos que esperamos sejam a nossa característica.

Bem-vindos!!

Categorias: Cultura e Mídia, Europa, Opinião
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