‘Bolsonaro está levando país ao pior desastre de sua história’, diz James Green

21.04.2020 - São Paulo, Brasil - Redação São Paulo

‘Bolsonaro está levando país ao pior desastre de sua história’, diz James Green
James Green é professor de História da América Latina na Brown University, nos EUA. (Crédito da Imagem: Sul21/Divulgação)

Por Marco Weissheimer/Sul21

“Bolsonaro é dez vezes pior que o Trump em todos os aspectos e está destruindo o país”. O historiador James Green é direto e categórico ao comparar os dois presidentes e prever o horizonte sombrio que está diante do Brasil. “Bolsonaro está levando o país ao pior desastre de sua história. Dezenas de milhares de pessoas vão morrer. O sistema de saúde entrará em colapso. Os indígenas vão experimentar algo semelhante ao genocídio da conquista portuguesa. Pessoas pobres – especialmente os afrodescendentes – vão sofrer mais”, diz Green, que tem no Brasil e na América Latina duas de suas principais áreas de pesquisa.

Historiador especializado em estudos latino-americanos, brasilianista e ativista dos direitos LGBT, James Green viveu no Brasil entre 1976 e 1982, trabalhando como professor de inglês e ajudando a organizar o movimento homossexual no país. Hoje, é professor de História da América Latina na Brown University e é co-coordenador nacional da Rede dos EUA para a Democracia no Brasil (US Network for Democracy in Brazil), que vem procurando articular um movimento de nossa solidariedade internacional ao Brasil.

Em entrevista concedida por e-mail ao Sul21, James Green fala sobre como a pandemia do novo coronavírus está impactando o imaginário social, político e econômico nos Estados Unidos, avalia as possíveis repercussões da situação anual na disputa pela Casa Branca e prevê, com tristeza, dias muito difíceis para a população brasileira.

“Fico muito triste em dizer isso, mas o Brasil está caminhando para uma catástrofe econômica que talvez seja a pior de sua história.  Nós, que amamos o Brasil, os brasileiros que moram nos Estados Unidos, estudiosos como eu que escrevemos sobre o Brasil, estamos extremamente preocupados com a situação e estamos fazendo tudo o que podemos para apoiar o país”.

–Como o coronavírus impactou a tua vida até aqui, do ponto de vista profissional e do cotidiano? 

–Fiquei trancado em meu apartamento durante as últimas cinco semanas, ministrando um seminário de pós-graduação sobre “Democracia na América Latina, toda quinta-feira, e trabalhando nas atividades de dia-a-dia com meus alunos, como leitura de capítulos de teses e dissertações, participando em uma banca no Brasil, trabalhando em projetos de pesquisa, e escrevendo um novo capítulo do meu primeiro livro, “Além do Carnaval: a homossexualidade masculina no Brasil no século XX”. Por um lado, a quarentena me permitiu organizar os meus arquivos, cumprir vários compromissos pendentes, mas também me deu mais tempo livre para escrever. Neste sentido estou realmente bem. No entanto, também tenho muito tempo para assistir as notícias, ler informações sobre o vírus aqui e no Brasil e isso é muito alarmante.

–Como a pandemia do coronavírus está impactando o imaginário social médio nos Estados Unidos? É possível detectar uma mudança de percepção em temas como, por exemplo, a importância de se ter um sistema público de saúde de acesso universal?

–O mais interessante é o que está acontecendo dentro do Partido Democrata e sua relação com o vírus e as noções de saúde pública nos Estados Unidos. Quando Bernie Sanders venceu a primária de New Hampshire e Biden ficou em quinto lugar, os setores moderados do Partido Democrata e todos os comentaristas dos canais de notícias a cabo – CNN e MSNBC – entraram em pânico e iniciaram uma campanha “Stop Bernie, “o que foi bem sucedido, especialmente quando a liderança negra do Partido Democrata se manifestou em favor de Biden e ele venceu as eleições primárias seguintes, ficando à frente de Sanders por 300 delegados.

No minuto em que ficou claro que Bernie não seria indicado como candidato à presidência, esses mesmos comentaristas e líderes do Partido Democrata começaram a elogiar Sanders por todas as suas contribuições. Logo em seguida começou a quarentena e ficou claro que seria impossível para Sanders continuar na campanha. Então ele desistiu e, em menos de uma semana, endossou Biden. Em troca, Biden começou a abraçar algumas das idéias de Sanders, movendo-se um pouco para a esquerda.

Na questão da Universal Health Care (um sistema de saúde pública de acesso universal), um dos grandes argumentos de Biden e dos outros candidatos moderados à presidência era que a proposta de Sanders para a Universal Health Care significava que trabalhadores com bons empregos teriam que desistir de seus planos de saúde. Foi um ataque a Sanders por aparentemente “roubar” ou “destruir” uma conquista do movimento trabalhista.

No entanto, os efeitos do vírus e da quarentena em que milhões de pessoas perderam o emprego, e muitos deles também perderam os seus planos de saúde vinculados ao emprego, mostram a vulnerabilidade do sistema atual para as pessoas que possuem bons planos de saúde privados . Portanto, nesse sentido, pelo menos por enquanto, as idéias de Sanders estão sendo consideradas com mais seriedade.

Mais importante ainda, a maneira totalmente incompetente pela qual Trump não liderou a luta contra o vírus, recusou-se a mobilizar o governo federal, culpou todos no mundo, exceto ele próprio, fez milhões de pessoas perceberem que o sistema de saúde neste país tem muitos problemas que precisam ser corrigidos.

Com a pandemia, Biden começou a abraçar algumas das idéias de Sanders, movendo-se um pouco para a esquerda, assinala historiador. Foto: Gage Skidmore

–É possível afirmar, na sua opinião, que o ideário neoliberal do Estado Mínimo foi atropelado pela pandemia e suas demandas?

–Os políticos que responderam ao vírus foram os governadores democratas (Califórnia, Nova York, Nova Jersey, Colorado, Washington etc.), juntamente com alguns governadores republicanos nos estados que votaram contra Trump (Maryland, Massachusetts), bem como governadores republicanos nos famosos “swing states” (Ohio, Carolina do Norte, Michigan). Esses governos republicanos percebem a importância do governo federal e estão muito zangados com Trump por não fazer o que o governo federal precisa fazer para lidar com a crise.

Da mesma forma que esses governadores republicanos percebem que Trump é um desastre,  também aprenderam que, se o criticarem publicamente, ele se vingará, os denunciará, interromperá o apoio ou a ajuda etc. Será interessante ver o que eles dizem durante a campanha eleitoral, porque todos sabem que Trump é um desastre. Eu acho que aqueles governadores republicanos dos “swing states” não farão campanha com muito entusiasmo por Trump, mas veremos.

De maneira mais geral, a população ficou muito consciente da importância do governo federal em prestar assistência às famílias que perderam o emprego, bem como da importância de profissionais médicos e funcionários públicos, que estão na linha de frente, enfrentando o vírus. Acredito que, nesse sentido, haverá virada para a esquerda.

–O governador de Nova York, Andrew Cuomo, vem assumindo um papel destacado no enfrentamento da pandemia, opondo-se a Trump em vários temas. Já é apontado por alguns como um possível nome para a disputa presidencial (seja como vice de Biden ou eventualmente substituindo o até aqui provável candidato democrata). Como o coronavírus está impactando a política no país?

–Biden deixou bem claro que nomeará uma mulher como candidata a vice-presidente. A grande questão é quem será. Portanto, Cuomo não será candidato neste ciclo eleitoral.

De maneira mais geral, acredito que os democratas se beneficiarão da atual crise, e baseio essa avaliação nos resultados das eleições primárias democratas em Wisconsin nesta última terça-feira. Nos últimos oito anos, os republicanos haviam assumido a política no estado com um horrível governador de direita e uma maioria na legislatura. No entanto, como parte das vitórias dos democratas nos Estados Unidos em 2018, foi eleito um governo democrata, que tentou adiar as eleições primárias por causa do vírus. A legislatura estadual recusou, a Suprema Corte dos EUA também recusou, e assim as eleições aconteceram. E apesar do perigo, milhares de eleitores, que não tiveram a oportunidade de votar pelo correio, arriscaram suas vidas para votar e derrotar o candidato republicano à Suprema Corte do estado, que Trump havia endossado.

Aprendemos duas coisas: os republicanos farão todo o possível para impedir que as pessoas votem em novembro nas eleições para o presidente, e haverá muita energia para eleger Biden.

“Bolsonaro é dez vezes pior que Trump em todos os aspectos”. Foto Palácio do Planalto

–Como tem acompanhado a (in?) evolução política no Brasil em meio a um cenário onde o presidente do país se tornou um dos maiores negacionistas planetários dos riscos da pandemia? Se arrisca a fazer alguma previsão sobre as perspectivas que estão colocadas para o nosso país?

–Estou acompanhando a situação no Brasil  diariamente. Leio três jornais todos os dias, acesso muitos sites, acompanho toda a cobertura internacional e conversei com meus amigos no Brasil pelo WhatsApp. Bolsonaro está levando o país ao pior desastre de sua história, talvez apenas comparável aos efeitos da Guerra do Paraguai no Brasil no século XIX. Dezenas de milhares de pessoas vão morrer. O sistema de saúde entrará em colapso. Os indígenas vão experimentar algo semelhante ao genocídio da conquista portuguesa. Pessoas pobres – especialmente os afrodescendentes – vão sofrer mais. Muitos terão que trabalhar, assim que Bolsonaro empurre para a abertura da economia, por causa da precariedade das suas rendas. Eles vão usar o ônibus, o trem, o metrô e serão infectados. Os trabalhadores da saúde terão que trabalhar  para salvar a vida das pessoas, porém com proteção inadequada.

Fico muito triste em dizer isso, mas o Brasil está caminhando para uma catástrofe econômica que talvez seja a pior de sua história.  Nós, que amamos o Brasil, os brasileiros que moram nos Estados Unidos, estudiosos como eu que escrevemos sobre o Brasil, estamos extremamente preocupados com a situação e estamos fazendo tudo o que podemos para apoiar o país.  Denunciamos as políticas de Bolsonaro, levamos à mídia internacional, que geralmente deu uma excelente cobertura à situação no Brasil.

Pessoas educadas no exterior sabem que Bolsonaro é dez vezes pior que Trump em todos os aspectos e ele está destruindo o país. A Rede dos EUA para a Democracia no Brasil (US Network for Democracy in Brazil), da qual sou co-coordenador nacional, juntamente com Gladys Mitchell-Whithour, uma estudiosa que faz pesquisas sobre afro-brasileiros, está fazendo todo o possível para oferecer nossa solidariedade internacional. É muito pouco em comparação com o que precisa ser feito, mas estamos trabalhando duro neste momento de tremenda crise.

Categorias: Ámérica do Sul, Entrevista, Opinião, Política
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