Escritores indígenas brasileiros

15.03.2020 - Itália - Loretta Emiri

This post is also available in: Italiano

Escritores indígenas brasileiros
Eliane Potiguara

Sinto a obrigação moral de lembrar um texto que tem sido fundamental para mim em função do envolvimento pessoal com a educação escolar indígena. Refiro-me ao livro de Daniel Matenho Cabixi, indígena pareci, cujo título é A questão indígena. Publicado em Cuiabá em 1984 pelo CDTI – Centro de Documentação Terra e Índio, o texto registra a reflexão do pensador pareci especialmente em relação à passagem da “educação para o índio”, até então imposta por estado e Igreja, à “educação indígena”, pensada e gerenciada pelos próprios indígenas. Esse ensaio muito tem influenciado indigenistas e leis da época, contribuindo grandemente para que a transformação se tornasse realidade. Daniel Matenho Cabixi foi um dos intelectuais e pensadores que anteciparam o movimento dos escritores indígenas brasileiros contemporâneos.

Até a Constituição de 1988 as escolas para os índios deviam servir para “aculturá-los”; quer dizer que os indígenas deviam deixar de pertencer a povos específicos para se tornarem indivíduos marginalizados e explorados dentro da sociedade nacional, sem mais nenhum direito sobre suas terras ancestrais. Nestas escolas era até proibido o uso das línguas maternas. As reivindicações dos líderes e sua participação ativa e criativa na elaboração da Constituição   determinaram que a educação para o índio se tornasse educação escolar indígena, pensada e gerenciada por eles mesmo a partir de conteúdos oriundos de suas culturas diferenciadas. Nos anos oitenta os professores indígenas, assessorados por suas comunidades, começam a produzir cartilhas e livros de leituras em suas línguas maternas e com ilustrações próprias e artísticas. Servindo-se da escola o homem branco queria destruir as etnias brasileiras, as quais, porém, conquistaram a escrita; através também da literatura hoje em dia elas afirmam identidades e reivindicam direitos, deixando bem claro que escrever é resistir.

Entrei no facebook em fevereiro de 2013. Logo me deparei com a entrevista feita no mês de janeiro a Daniel Munduruku por Fernanda Faustino para a Global Editora. A notícia que Daniel fosse escritor indígena de etnia munduruku chamou minha atenção. Achei profundas e originais suas palavras; elas se acomodaram dentro de mim até que, um belo dia, exigiram ser traduzidas e divulgadas. A versão em italiano da entrevista foi publicada em outubro de 2013, no número 53 da Sagarana, revista de literatura fundada na Itália pelo escritor carioca Júlio Monteiro Martins. A partir desta entrevista, passei a acompanhar o movimento dos escritores indígenas brasileiros, que Daniel tem fomentado sendo o idealizador de um projeto coletivo que visa encorajar autores indígenas a escreverem suas histórias e as histórias de seus povos. Graças à clarividência do Daniel, hoje em dia muitos e de várias etnias são os indígenas que têm se afirmado como escritores.

Daniel Munduruku

Minha formação pessoal liga a palavra “leitura” diretamente ao ato de ler textos escritos. Quando os autores indígenas falam de “leitura”, eles estão falando da observação dos acontecimentos e da natureza. Em outras palavras, eles nos dizem que, para chegarmos a interpretar o mundo com nossa própria cabeça, devemos observar com curiosidade a natureza e interpretar as mensagens que a vida nos manda. É a observação e a reflexão que nos formam, que transformam os conhecimentos em sabedoria. Nesta diferente maneira de encarar a existência reside a qualidade da literatura indígena; literatura preciosa porque traz de volta aquilo que na literatura clássica, ocidental, se perdeu. Os escritores indígenas falam de raízes, de ancestralidade, da relação sagrada com a natureza, do respeito para com os anciões e suas experiências, das línguas, culturas, tradições, espiritualidade de seus povos. Eles se exprimem numa linguagem própria e original, fazendo sistemático uso do plural para falar de diversidades étnicas, de seres solidários que compartilham o que possuem, de homens que respeitam o habitat por acreditarem que todo e qualquer elemento da natureza possui um espírito, e que os espíritos são diretamente ligados ao mistério da criação. O enfoque da cultura ocidental pode ser sintetizado com palavras utilizada no singular: lucro, consumismo, individualismo.

O movimento dos escritores indígenas brasileiros começa nos anos noventa. É encabeçado por indivíduos que moram nas cidades mas que, não por isso, deixam de ser e de se considerar indígenas, tantos é que acrescentam o nome da etnia a seus nomes próprios, como Daniel Munduruku e Eliane Potiguara, por exemplo, têm feito. Eles escrevem textos originais que resgatam mitos, lendas, línguas, tradições de seus povos, dos quais herdaram maneiras diferentes de sentir e interpretar a vida. Participam de concursos e feiras literárias, obtêm prêmios e reconhecimentos nacionais e internacionais, seus nomes entram a fazer parte de listas de honra. Os livros são traduzidos para outra língua, são escolhidos para serem lidos no circuito de escolas municipais e federais, são transformados em peças teatrais. Estes autores são muitos ativos e criativos. Ministram cursos para educadores e desenvolvem atividades lúdico-formativas em escolas públicas e particulares. Organizam eventos para analisar a conjuntura e falar das lutas para salvaguardar direitos; para divulgar história, cultura, literatura, arte, jogos indígenas. Em âmbito nacional e internacional, participam de encontros, debates, seminários, conferências. São eles que hoje em dia estão educando os brasileiros a entenderem que o Brasil é um país multiétnico, que a diversidade é um valor. Eles têm profunda consciência daquilo que são e daquilo que querem e é esta consciência, esta autoestima, este equilíbrio interior que determina a qualidade e originalidade de sua escrita. De forma ativa e criativa eles animam o cenário sócio-político e artístico brasileiro. Os pensadores e escritores indígenas estão definindo a verdadeira identidade brasileira, pois sem os indígenas o Brasil não existe.

Categorias: Ámérica do Sul, Assuntos indígenas, Cultura e Mídia, Europa, Opinião
Tags: , , ,

Boletim diário

Digite seu endereço de e-mail para assinar o nosso serviço de notícias diárias.

Pesquisa

 

Caderno de cultura

Cuaderno de cultura

O Princípio do fim das armas nucleares

Documentário 'RBUI, o nosso direito de viver'

Canale youtube

International Campaign to Abolish Nuclear Weapons

International Campaign to Abolish Nuclear Weapons

Milagro Sala

Arquivo

Except where otherwise note, content on this site is licensed under a Creative Commons Attribution 4.0 International license.