Deputada moçambicana sem membros superiores pretende focar na área de educação

23.01.2020 - Moçambique - Global Voices Online

Deputada moçambicana sem membros superiores pretende focar na área de educação
Deputada Mércia (Crédito da Imagem: José Matlhombe, usada com permissão.)

PorAlexandre Nhampossa

Aos 23 anos, Mércia também é a mais jovem deputada já eleita no país.

No meio dos 250 deputados que tomaram posse no dia 13 de Janeiro de 2020 para 9ª Legislatura da Assembleia da República, o parlamento moçambicano, um deles merece destaque.

Trata-se da Mércia Viriato Licá, de 23 anos, a mais nova deputada da história da República de Moçambique.

Por conta de uma deficiência de nascença, ela não tem membros superiores. Digitar em telefone, escrever em papel, beber água, manejar computador — tudo isso e mais algumas actividades que exigem mãos e braços ela faz com os pés. Em 2019, ela concluiu a sua licenciatura em Direito na Universidade Pedagógica.

Eleita deputada pela Frelimo, o partido no poder em Moçambique desde a independência em 1975, Mércia representa o círculo eleitoral da província de Tete. Sua candidatura foi proposta em 2019 pelo Presidente Filipe Nyusi, que há conheceu no ano anterior por meio do Facebook. Na sequência, Nyusi decidiu surpreendê-la com uma visita a sua casa, de onde disse ter saído impressionado:

“Mércia foi abandonada pelo pai ainda bebê e foi criada pela mãe, com quem vive até hoje. Apesar da sua deficiência, ela disse ao Presidente Nyusi que não se sente diferente e muito menos especial. Ela reconhece ter passado por dificuldades, mas disse a TV Surdo as ter transformado em oportunidades.”

Em alguns círculos de opinião pública, ela é vista como um exemplo de superação. O seu percurso foi recentemente contado pela Voz de América numa reportagem denominada Mércia, de menina renegada a deputada”.

Em entrevista à publicação Carta de Moçambique, conduzida no seu dia de tomada de posse como deputada, Mércia partilhou sobre como pretende inspirar os jovens moçambicanos, que constituem a maioria dos cerca de 28 milhões da população total do país:

“Espero contribuir para o desenvolvimento do país na escolaridade e educação. Incentivar os jovens para que nunca deixem de estudar porque a educação é o caminho para a vida (…) acredito que, por estar aqui na casa magna, irei incentivar e inspirar muita gente pelas atividades que irei exercer durante o meu mandato. Acredito que quando as pessoas olharem para mim e verem que sou capaz, também se conseguirão levantar.”

A pesquisadora da Human Rights Watch, Zenaida Machado, escreveu no Twitter:

Ainda que Moçambique tenha ratificado em 2010 a Convenção Internacional das Pessoas com Deficiência, um dos documentos que defende a criação de melhores condições para os deficientes no país, a vida dessa população no país permanece difícil, como reporta o Jornal A Verdade.

Exemplos incidem em estabelecimentos e autocarros cujo acesso não está adaptado para essa população, além da discriminação que sofrem em outros contextos. Por conta disso, a Associação dos Deficientes de Moçambique clama por uma legislação específica que defenda os seus direitos e deveres.

Comentando o tweet de Machado, a Alta Comissária Britânica em Maputo, NneNne Iwuji-Eme, disse que a Mércia é uma inspiração não só para pessoas com deficiências, mas para qualquer rapariga jovem e em qualquer lugar. “O mundo precisa de mais raparigas jovens a sonharem em serem líderes e terem sucesso como você“, ela disse.

A activista Benilde Mourana diz estar muito feliz pela nomeação da deputada Mércia e espera que ela não seja “mais uma deputada”, e sim contribua para o desiderato supracitado:

“Fiquei feliz com a eleição da jovem Mércia, rapariga com deficiência para deputada da Assembleia da República, afinal a inclusão deve começar de algum lado. Espero que ela não seja mais uma deputada e sim aquela deputada que leva as reais preocupações das pessoas com deficiência para a magna casa. A Mércia sozinha não basta, que onda de inclusão se alastre para outros sectores chaves na área da deficiência (…)”

Categorias: Africa, Diversidade, Política
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