O legado de Henry Sobel à luz da Satyagraha

26.11.2019 - Redação São Paulo

O legado de Henry Sobel à luz da Satyagraha

Uma das principais referências religiosas do Brasil, o rabino Henry Sobel que atuou firmemente na defesa dos direitos humanos, morreu nesta sexta-feira (22/11) nos Estados Unidos, em decorrência de um câncer. 

O episódio da morte do jornalista Vladmir Herzog durante a ditadura militar brasileira (1964-1985) marcaria a história do país e destacaria o rabino norte-americano Henry Sobel. Esse texto pretende correlacionar a atitude de Sobel à Satyagraha.

Em 1975, militares levaram Vladimir Herzog, 38 anos, diretor de jornalismo da TV Cultura, para prestar esclarecimentos sobre sua suposta ligação com o Partido Comunista. Ele saiu de casa no dia 25 de outubro e nunca mais voltou. Torturado, vítima de espancamentos, choques elétricos e afogamento, Herzog morreu asfixiado nas dependências do órgão de repressão Doi-Codi. Entretanto, os membros do Doi-Codi afirmavam que Herzog cometera suicídio e uma foto do jornalista enforcado com o próprio cinto foi divulgada como prova. 

Para a religião judaica, a vida é uma dádiva concedida por Deus e só ele pode findá-la. Portanto, o suicida não pode ser sepultado no centro do cemitério como qualquer outra pessoa; mas sim enterrado encostado no muro do cemitério. É da tradição judaica que os cadáveres sejam todos preparados para o sepultamento. Na ocasião, o rabino Henry Sobel vendo as marcas de tortura no corpo do jornalista judeu se recusou a sepultar Herzog como suicida, apesar da causa oficial da morte dada pelas autoridades. O sepultamento foi realizado no centro do cemitério Israelita.  

Na semana seguinte, Sobel organizou uma histórica missa ecumênica na Catedral da Sé, em São Paulo, com arcebispo dom Paulo Evaristo Arns e o reverendo Jaime Wright. Dentre os presentes estavam artistas e intelectuais, como o filósofo francês Michel Foucault. Oito mil pessoas foram à Praça da Sé, situada em frente a catedral, apesar da repressão de policiais, com seus cavalos e cachorros. Desde o AI-5[1], o ato ecumênico foi a primeira grande manifestação de protesto contra as práticas da ditadura militar. O caso Herzog expôs toda a crueldade da ditadura. A missa transcorreu silenciosamente até o seu final. O episódio marcou o início da queda do regime e a restauração da democracia. 

A Satyagraha foi uma filosofia desenvolvida por Gandhi no caminho para a independência da Índia, no período de domínio britânico. O termo pode ser traduzido como Satya (verdade) e Agraha (firmeza, constância). Para Gandhi, Satyagraha é a arma dos fortes; pois não se admite o uso da violência sob qualquer circunstância, além disso representa a insistente busca em defesa da verdade. A pessoa que, após ter buscado a verdade em espírito de paz e compreendido tal verdade em termos de um mal a ser corrigido, afirma a sua verdade em confronto aberto com o mal através da prática da não violência. 

A atitude firme e o ato coerente de Henry Sobel correspondem a resistência não-violenta que compõe as ideias centrais de Satyagraha. Sua decisão corajosa, num cenário repressivo, representou a força moral da não-violência. O objetivo final de todos que promovem a Satyagraha não é simplesmente derrubar um sistema opressivo, mas também substituir esse sistema por algo novo que tivesse como caminho, a constante busca pela verdade. O sepultamento de Herzog e a missa ecumênica na Praça da Sé, reverberavam o clamor instalado em muitos corações que buscavam acreditar em um novo futuro, sem a barbárie da ditadura. Para Gandhi, Satyagraha, podia ser definida como “a força do amor ou força da alma”. Ao longo do tempo, tal força foi capaz de agregar ateus e pessoas de crenças diferentes, mobilizar mudanças sociais, questionar e banir leis injustas, além de evidenciar farsas cruelmente criadas.    

Leituras recomendadas:

 DREVET, Camille. Gandhi: vida, obra e pensamento. Lisboa: União Gráf. Editorial Império, 1969.

JORDÃO, Fernando P. Dossiê Herzog: prisão, tortura e morte no Brasil, de Fernando Pacheco Jordão. Global, 1979.

[1] O Ato Institucional nº 5, AI-5, de 1968, foi instaurado durante o governo Costa e Silva, definiu o momento mais duro da ditadura militar brasileira, dando poder de exceção aos governantes para punir arbitrariamente os que fossem inimigos do regime ou considerados como tal.

Cristiane Prudenciano, mestre em Ciências Sociais pela PUC-SP.  Membro do NIP PUC/SP (Núcleo Inanna de Pesquisa) sobre teorias de gênero, sexualidades e diferenças. Pratica e difunde a meditação da Mensagem de Silo. Professora nos cursos de Administração, Direitos Humanos, Cultura de Paz e Não-Violência. Escreve para a Agência Pressenza. 

Foto: Reprodução/ Instagram

Categorias: Ámérica do Sul, Direitos Humanos, Não violência
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