Construindo uma massa de mídias frente à mídia de massas

30.05.2018 - Redação São Paulo

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Construindo uma massa de mídias frente à mídia de massas

Aforismo

“Se eles têm as mídias de massas, nós vamos construir uma massa de mídias

Se eles têm armas, nós temos câmeras

se eles têm os bancos, nós temos uns aos outros”

Entrevistamos um dos participantes do Fórum Humanista Europeu, um dos organizadores da mesa “meios de comunicação independentes e movimentos sociais”, Gunther Aleksander, que é filósofo, humanista e ativista. Graduado em Comunicação Audiovisual e pós graduado em Filosofia Política. Editor da Agência Pressenza no Brasil e produtor do canal QuatroV – 4V

P. Qual é a função dos meios de comunicação independentes? Como podem gerar relatos de uma cultura mais humana e menos violenta?

G.A. A imprensa alternativa tem uma função fundamental, que é contribuir com novos elementos e realizar uma mudança de perspectiva, de narrativa, justamente por não ser tão dependente como a imprensa capitalista. Colocamos a necessidade de construir novas matrizes culturais, no lugar de disputar a “hegemonia cultural”, como fazem os poderosos e aqueles que desejam obter o poder.

No caso da hegemonia, trata-se de uma batalha de narrativas para tentar “instalar” uma “versão oficial”, que é aceita pelas maiorias. As matrizes são uma via de construção em “espaços abandonados” pelos poderosos, onde se constroem idéias e imagens que sirvam de modelos inspiradores para os fracassados, perseguidos e discriminados pelo sistema.

Não necessariamente se trata de disputar o espaço central da informação, se bem que isto seria interessante, o principal das matrizes de informação é apontar novos modelos e imagens que reorientem de forma positiva e integradora tudo o que, até então, é aceito como “verdade social”.

Destacamos a necessidade de mudar a abordagem do jornalismo niilista [que não propõe um futuro melhor] por uma perspectiva que traga mais possibilidades, que abra os horizontes, ressignificando os conflitos e re-direcionando os olhares para imagens coerentes e exemplares.

P. Como as mídias alternativas (independentes) podem chegar a mais pessoas?

G.A. Primeiro é preciso escutar as pessoas para se conectar com suas necessidades e conflitos, hoje em dia dispomos de muitos meios para escutá-los. Através da comunicação presencial e direta ou também através da internet. Podemos “ajustar as antenas” para “captar” profundamente antes de “transmitir” massivamente. Isso faz com que o conteúdo tenha mais ressonância e as pessoas o compartilhem mais.

Hoje em dia existem muitos caminhos para ampliar a comunicação bidirecional e multifocal, antes de produzir, nós temos que fazer perguntar e buscar escutar o que as pessoas dizem e pensam. Uma das formas é a busca de “Palavras-chave”, as keywords, para ver como as pessoas estão fazendo suas buscas, filtrar nas redes sociais os comentários com mais reações e utilizá-los como gancho inicial de uma publicação.

É importante captar o que as pessoas dizem, utilizar isso como gancho no começo da publicação, para depois transferir carga e produzir mudanças de abordagem e de perspectiva com relação as propostas irreflexivas e irracionais que muitas vezes as pessoas têm. Esta mudança também amplia a “viralização” de cada publicação.

P. Qual é o tipo de informação que não aparece nos grandes meios de comunicação?

G.A. Existem muitos temas e numerosas pautas que não são publicadas, ou por que vão contra os interesses econômicos dos que financiam a imprensa capitalista, ou por que foram “abandonados” por não estarem presentes nos espaços centrais dos grandes centros urbanos.

Os meios hegemônicos quase sempre têm uma explicação materialista e economicista, não pensando nos aspectos culturais e existências dos conflitos políticos e sociais.

Em geral não se publica nada de movimentos sociais que possam servir de “exemplo” ou “modelo” de ação coletiva para as pessoas que estão marginalizadas dentro do sistema capitalista. Também não se publica com uma visão estrutural ou de processo, tudo que é publicado quase sempre é conjuntural e responde aos aspectos mais passageiros, fragmentados e anedóticos, dificultando que as pessoas tenham uma visão coerente e ampla do que é informado.

Isto também passa, em grande medida, devido ao formato atual dos novos meios em rede, cada vez mais colaborativos, descontínuos e multifocais. A resposta coerente a esse fenômeno é fazer uma “massa de mídias” que tenha um certo projeto em comum e processos informativos convergentes.

P. Sobre o tema do Fórum “O que nos Une”, que tipo de proposta comum poderíamos criar para o futuro?

G.A. Na ausência de um projeto que dê sentido, tudo se fragmenta. Nós propomos fazer uma frente com múltiplos meios de comunicação, que mantenham sua identidade e autonomia, mas que tenham linhas editoriais convergentes com a construção de uma humanidade sem guerras e sem fronteiras, uma nova nação humana onde a “Declaração Universal dos Direitos Humanos” se torne uma realidade tangível em todas as regiões do planeta, incluindo as periferias e o campo.

Para isso propomos uma comunicação direta e convergente, que tenha muito estudo e reflexão, baseada em exposições breves de ações exemplares. Uma frente com a participação aberta e flexível para todos os meios, grandes ou pequenos, que possam somar-se livremente para criar as novas matrizes culturais do mundo vindouro.

P. Qual foi a sua participação no Fórum Humanista Europeu?

Tratamos de responder aos questionamentos do Fórum na mesa de jornalismo, pondo ênfase na diferença entre a disputa por hegemonia cultural e a criação de matrizes culturais que não possam ser controladas e detidas pelos poderosos de turno.

Comentamos que, quando assassinaram a Marielle Franco no Brasil, não sabiam que ela era semente e o fruto de suas ações exemplares já estão se multiplicando vertiginosamente. Explicando de forma breve, seria mais ou menos assim: mais do que disputar versões de relatos nos espaços centrais de comunicação, nos interessa fazer uma massa de mídias para difundir exemplos inspiradores que sirvam de modelo.

No Brasil já estamos fazendo isso, desde 2015 estamos trabalhando com um canal de vídeos que se chama QuatroV, temos uma média de 1 a 2 milhões de visualizações mensais em português. Participam ao redor de 20 voluntários de mais de 10 diferentes meios alternativos em uma produção próxima de 28 vídeos mensais.

Em termos concretos, propomos ampliar a produção audiovisual da Agência Pressenza, em conjunto com outros meios de comunicação e movimentos sociais, através do programa 4V com a abertura de novos estúdios, um no Chile neste ano de 2018 e outro na Espanha em 2019. Para realizar este projeto estamos fazendo um crowdfunding na página do QuatroV, onde quem quiser pode dar seu apoio e receber um gibi “O dia do Leão Alado”. Muito além das contribuições em dinheiro, buscamos voluntárias(os), em colaboração com outros meios para redigir roteiros para os vídeos curtos e produzir de forma colaborativa alguns programas semanais para a TV.

Para finalizar, também vamos apoiar a criação de redações e de dois ou três estúdios audiovisuais ad-hoc durante os cinco meses que vai durar a Segunda Marcha Mundial pela Paz e pela Não Violência, entre 2019-2020

tradução do original – Construyamos una masa de medios frente a los medios de masas

Categorias: Ámérica do Sul, Entrevista
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