Ao meu paciente que estivesse fraco e com a asa partida, eu ofereceria amor

08.05.2018 - Redação São Paulo

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Ao meu paciente que estivesse fraco e com a asa partida, eu ofereceria amor

Veja a carta do Dr. Luis Henrique Correia Lima de Oliveira que foi postada originalmente em sua página pessoal no Faceboook e conta a respeito de sua relação com o ex-presidente Lula, que está preso em Curitiba, na Sede da Polícia Federal. Lula foi condenado em um processo com uma frágil base jurídica no caso do Triplex do Guarujá. Leia a carta abaixo na íntegra –

Boa noite, presidente Lula!

Espero que o senhor esteja bem! E dessa vez eu espero mesmo pq eu estou preocupado demais com a sua saúde!

Quando eu estava na faculdade, por volta do terceiro ano, na matéria de Patologia, um professor bem velhinho dessa matéria, que nem dávamos tanta importância, parou a aula, depois de ver que estávamos mais conversando entre nós mesmos do que prestando atenção na aula, e perguntou : Vocês sabem o que significa MEDICINA? Impactados com a pergunta que não tinha nenhuma relação com o assunto da aula, ficamos sem resposta inicialmente, depois tentamos responder:

” É a profissão que salva vidas! ” ;” É a profissão que diagnostica e trata doenças! “;” É a profissão que cura doenças!”…

O professor, gozando de toda sua sapiência e anos de experiência na profissão, baixou a cabeça, sorriu um sorriso desesperançoso e disse :

” Vcs estão na profissão errada, meus queridos! Ainda há tempo para desistir! Vcs são jovens! Desistam… O tempo urge… Não prossigam! “

E completou :

A palavra Medicina é derivada do grego “medicare” e significa “acolher”, “acalentar”, “cuidar”, “tomar ao colo” e em última análise “amar”…

( Depois de muitos anos, eu soube que a definição etimológica não era exatamente essa, mas bem que poderia ser…)

Presidente, essa foi a última vez na faculdade que eu ouvi algo do gênero! Os anos subsequentes tentaram me ensinar em primeiro lugar que eu não poderia me envolver emocionalmente com o paciente, que eu não poderia me apegar… Para não sofrer caso “perdesse” algum deles para a morte! Os anos subsequentes me ensinaram que eu estava constantemente competindo se eu era mais poderoso que a morte, se os meus conhecimentos ” inquestionáveis” seriam capazes de prolongar indefinidamente o sofrimento das pessoas em UTIs frias e impessoais! Nos anos subsequentes eu aprendi que a luta era por status, por poder e por dinheiro, nunca pelo que realmente deveria interessar e pra mim isso foi motivo de profundo descontentamento e decepção com a profissão, com os colegas e com o sistema completamente corrompido.
Ontem a noite, teve início um conjunto de negociações com o partido pra me levarem até você sob a justificativa de eu ter sido o último cardiologista que o viu antes de você ir pra prisão. De início, eu tive o impacto da emoção de talvez poder reencontra-lo numa situação tão delicada e de poder dar força que talvez você precisasse naquele momento. Mas entre os nossos caminhos havia uma juíza, uma pedra fria e calculista, que impôs que o senhor só poderia ser visto por médicos da polícia federal sem acolhimento, sem que fosse possível acalenta-lo, cuida-lo, protege -lo… O que esses tecnólogos de medicina podem te oferecer além de substâncias para cicatrizar as tuas chagas e analgésicos para tua dor?
Quantas feridas na alma eles não saberiam curar?

A minha missão hoje em Curitiba seria oferecer o mais nobre tratamento a um paciente que está se sentindo solitário, amargurado, injustiçado, condenado por um sistema de forças obscuras… Ao meu paciente que estivesse fraco e com a asa partida, eu ofereceria amor, acolhimento, compreensão e a minha alma humana, demasiada humana!

Força, comandante!

Estamos na resistência!

*Fim da Carta

Categorias: Ámérica do Sul, Direitos Humanos
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