Brasil: Como virar a página do Golpe

11.05.2017 - Gunther Aleksander

Brasil: Como virar a página do Golpe

por Gunther Aleksander

Como sair desta maré?

Para nos inspirar podemos olhar para a Espanha, a Índia e o Chile e compreender como se criam novas formas, partidos-movimento e frentes amplas onde o partido não é a vanguarda, mas sim uma ferramenta dos movimentos sociais. Tal é o caso do Podemos na Espanha e o Partido do Homem Comum na India, e tal é o caso da frente ampla organizada por Humanistas, Piratas e o RD no Chile.

No caso do Brasil, a resposta pode estar em Junho de 2013 e nas duas últimas eleições.

Em 2013 uma nova geração crítica despertou e começou a se expressar social e culturalmente, mas no campo político brasileiro esta juventude todavia não se definiu claramente.

Esta nova geração ainda não se organizou de forma mais permanente e, ao contrário do que os liberais querem vender, esta juventude não definiu seu campo ideológico. E de certa forma ela é mais transversal do que as gerações anteriores, pois tem um pensamento menos binário.

Nas duas últimas eleições, entre outros motivos, houve retrocesso porque esta geração não votou.  A abstenção recorde indica que ela ainda está a espera de algo novo, talvez uma frente ampla e/ou um novo movimento que esteja mais de acordo a sua sensibilidade.

Que estratégias políticas permitirão virar a página do golpe e dos retrocessos?

Estratégias Políticas :

  • Efeitos demonstração
  • Coerência interpessoal
  • Redes, Ruas e Comunidades
  • Enraizamento nas Periferias
  • Não-discriminação e Não-violência

Efeitos demonstração
Já não bastam apenas discursos emocionantes e narrativas repetidas diariamente pelas redes, é preciso demonstrar através de ações exemplares, através de
medidas simples como reduzir os salários de políticos e magistrados igualando aos dos professores públicos, não permitir que um cidadão tenha cargo público por mais de dois mandatos, acabar com as superaposentadorias e outros dispositivos que impeçam a formação de candidatos profissionais distantes da população.

Coerência interpessoal
Todo aquele(a) que busca mudar a situação atual, seja candidato(a) ou apenas um ativista, precisa aumentar sua coerência entre o que pensa, sente e faz.  Tratar os demais como quero ser tratado é uma regra antiga e muito esquecida por partidos e movimentos que pregam uma coisa e depois fazem outra. Por outro lado, isto que deveria ser um imperativo moral, virou estratégia coletiva do Podemos na Espanha que, limitaram seus salários, privilégios e mandatos, para serem coerentes com o que eles defendiam.

Redes, Ruas e Comunidades
Além de movimentarmos as redes sociais e ocuparmos as ruas, precisamos multiplicar o número de comunidades que se encontram de forma regular, presencial e permanente.
As comunidades locais podem ser formadas através de frentes de ação nos campos do trabalho, educação, moradia, arte e cultura, etc.

Enraizamento nas Periferias

Mais do que ocupar o centro, falta ocupar o vazio político deixado nas periferias e no campo. De forma a criar raízes territoriais e vínculos humanos mais profundos com aqueles que estão sendo mais afetados pelo golpe e pela crise.

Só que além do trabalho sistemático de denúncia pública, de atos e de manifestações. É preciso gerar unidades comuns de confiança e relacionamento com vínculos mais duradouros entre as pessoas.

Não-discriminação e a Não-violência

Ensinar métodos de resistência não-violênta, não-cooperação e desobediência civil para quem está nas margens, resistindo às doses cavalares de discriminação e de violência que o sistema dispara cotidianamente no campo e nas periferias das grandes cidades. Estar ombro-a-ombro nestas lutas.

Não-discriminação e a Não-violência são duas caras da mesma moeda, vão sempre de mãos dadas, não existe somente violência física, mas também econômica, racial, sexual e religiosa.

Soluções parciais escondem uma luta do penúltimo contra o último, de setores que não acreditam que conseguirão reverter o quadro geral de dominação do sistema atual. Estas disputas internas permitem que os neofascistas disfarçados de liberais, assumam pautas de minorias com o objetivo de atrair eleitores desavisados. E também permite que as minorias briguem entre si por pequenas cotas de poder, ao invés de se unir para mudar o cenário geral.

Resistir à onda de preconceitos e intolerância dentro todos os bandos e setores é importante para reestabelecer o diálogo e evitar um embate de todos contra todos.

Como superar, além dos tempos ásperos de hoje, os erros do passado recente?

Apostar por novos atores políticos pode ser uma boa saída para renovar as esperanças, romper com o paternalismo e a dependência aos velhos atores é um bom caminho para aqueles que buscam um Brasil diferente.

Se os velhos partidos quiserem demonstrar coerência, deveriam fortalecer os novos atores e abrir espaço, pois se voltarem ao poder trarão a mesma agenda de 10 a 12 anos atrás num cenário muito diferente do daquela época, o que vai representar mais retrocessos.

Para quem acredita em saídas repetindo fórmulas do passado, creio que o acordão entre os maiores partidos do Brasil, mais as reformas trabalhista e previdenciária vão ser decepcionantes o suficiente para gerar o clima propício para o surgimento das novas formas políticas que mencionamos no começo do texto.

Onde devemos concentrar esforços? Nas eleições de 2018? Num processo mais profundo de lutas sociais? Mas, neste caso, começando por onde?

Precisamos sair da defensiva e concentrar esforços em pressionar por novos avanços. Simplesmente reagindo aos golpes e resistindo aos ataques não vamos a lugar algum, é preciso de uma nova agenda propositiva e não mais reativa.

Se queremos ter maioria nas próximas eleições, não deveríamos focar somente no executivo, mas começar a pressionar por mudanças profundas na mídia, no judiciário e no parlamento.

Dentre diversas questões centrais que foram deixadas de lado nos últimos tempos, existe um tripé importante para priorizar:

  • Democratização das concessões de Rádio e TV
  • Democracia Real e Direta
  • Eleição para Juízes e Procuradores
  • Direitos Humanos nas Periferias e no Campo

Democratização das concessões de Rádio e TV

Os meios de comunicação massivos (e não somente a internet) precisam ser considerados como lugares para ocuparmos de forma prioritária, se queremos ter alguma mudança real.

Podemos começar pelos programas de webtv e TVs comunitárias, porém precisamos pressionar parlamentares e governos para democratizar as concessões e ter uma nova lei de meios.

Criação de TVs públicas em todas as cidades com estúdios abertos para todos os movimentos sociais, ongs e ativistas culturais é fundamental para diversificar a produção e ampliar a distribuição de conteúdo plural e descentralizado.

Muito se fala da educação como forma de mudar o futuro, porém não podemos esquecer de que a comunicação estabelece as “narrativas em tempo real” sobre o momento atual e tem uma velocidade muitíssimo maior do que a educação para transformar o tempo presente.

Democracia Real e Direta

Consultar regularmente a população através de plebiscitos e referendos para os projetos de lei e reformas mais importantes. Criar um sistema de votação online através de meios eletrônicos onde as pessoas possam votar sempre que uma pauta for de seu interesse, delegando para os parlamentares somente quando não for de seu interesse votar.

O sistema de democracia representativa está falindo, falta desenvolver mecanismos sólidos de consulta popular vinculantes e permanentes.

Eleição Direta para Juízes e Procuradores

Assim como os outros dois poderes, o judiciário também deveria ser escolhido pelo povo, de forma proporcional (para garantir a defesa das minorias), e ter mandatos provisórios.

Com mandatos vitalícios, definidos apenas por concurso público, temos hoje uma série de juízes e procuradores fazendo política, então nada mais justo do que realizar eleições.

Além disso, a nova lei de abuso de autoridade, precisa ser aprovada com urgência para conter abusos de juízes, promotores e policiais que extrapolarem suas funções.

Direitos Humanos nas Periferias e no Campo

O estado policial e o tribunal de exceção que se instalaram depois do golpe, sempre estiveram presentes na periferia e no campo.  E o mais grave é que desumanizam grande parte da população e, justamente por não reconhecerem que somos todos humanos, realizam um genocídio sistemático das camadas mais pobres e marginalizadas.

A solução passa por desmilitarizar a polícia, terminar com os autos de resistência, punir de verdade os policiais corruptos e violentos, criando um novo sistema de reintegração penal através da arte e da cultura, e oferecer uma renda básica universal que garanta o mínimo de moradia, saúde e educação para todos e todas.


Por onde começar?

Além de questões mais amplas citadas acima, é preciso apontar as condutas pessoais e interpessoais precisamos cultivar frente aos seguintes cenários:


Comunicação Direta Frente a Desinformação 

Convém esclarecer e conversar diretamente com cada um dos nossos amigos, familiares e conhecidos, pessoa a pessoa, para dar nossos pontos de vista.
Nos opor abertamente a toda campanha de ódio e de incitação à violência, contrapondo as mentiras e boatos falsos com a verdade e com informações reais. Antes de espalhar verificar as fontes e gerar uma rede de informações seguras entre amigos, familiares e pessoas de confiança.
Estar perto das pessoas queridas, ouvindo e conversando mais. Fortalecer a rede de comunicação direta, pessoa a pessoa, cara a cara. Nos reunindo pessoalmente para intercambiar e gerar ações concretas e não apenas virtualmente.

Experimentar Paz Frente ao Ódio 

Denunciar as campanhas de ódio realizando denúncias individuais e coletivas nas redes sociais com objetivo de tirar do ar notícias falsas e incitação à violência.
Pregaremos o amor e a paz no lugar do ódio e do ressentimento. Algumas manifestações se assemelham cada vez mais com partidos de futebol, levando a uma sensibilidade de “turbas irracionais”.
Nem só de pão vive o ser humano, nem tudo se explica pela economia. Muitos fenômenos se entende pela cultura e pelos sentimentos que vamos vivenciando coletivamente.
O sentimentos são altamente contagiosos, e não são acidentais, todo sentimento é intencional. Podemos intencionar coletivamente contagiar as pessoas com bons sentimentos mais leves e positivos de paz, harmonia e reconciliação.
Essa é a urgências do momento, mais do que argumentos precisamos de sentimentos luminosos que inspirem as pessoas para novos caminhos.

Organizar Redes Frente ao Medo 

Além do ódio tem sido difundido um medo cada vez mais gritante, para modificar este sentimento precisamos agir, ajudar outros coletivos e criar redes de apoio mútuo.
Estão sendo criados dezenas de vídeos e posts na internet para criar terror e pânico, isso serve ao propósito de aumentar a confusão e a desinformação.
O medo funciona como um aforismo negativo que precisamos tirar carga, ou seja, devemos ser prudentes porém colocar atenção de verdade em tudo aquilo que for sagrado e estimado, nas ações, nas pessoas e nos projetos à futuro.

Ação Exemplar Frente a Inação 

Organizar reuniões e encontros semanais para organizar ações, comunidades e campanhas.
Abrir a participação para todos indivíduos, grupos, movimentos e entidades que queiram trabalhar de forma conjunta na busca por novas saídas e soluções reais e profundas para a crise que enfrentamos.
Criar mecanismos de comunicação simples e fortes o suficiente para competir com os veículos tradicionais. Deixar de repetir os slogans vazios dos meios de comunicação e introduzir novas pautas e novos vocabulários no cenário geral, gerando conteúdos polêmicos e debates chamativos que tragam pessoas para o campo da democracia, dos direitos humanos, da não-violência e da não-discriminação.
Ser coerente com o que defende e tomar decisões consultando a todos de forma descentralizada, participativa e flexível.
Atuar direto no seu meio imediato, o lugar onde mora, estuda ou trabalha para dar referência clara no meio imediato primeiro a nível pessoal e interpessoal, participando também de campanhas mais gerais a nível nacional e internacional.

Categorias: Opinions, Politics, South America
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