A relação das guerras e conflitos armados com as migrações e os refugiados

12.07.2016 - Redação São Paulo

A relação das guerras e conflitos armados com as migrações e os refugiados
(Crédito da Imagem: Equipe de Base Warmis - Convergência das Culturas)

Reproduzimos aqui o texto lido por Fernando Suárez, argentino radicado no Brasil, na Mesa: Mesa de debate: Guerras e conflitos armados, sua relação com as migrações e refugio no VII Fórum Social Mundial das Migrações

“Falar de refugiados e migrações sem falar da indústria armamentista (o complexo militar industrial) é deixar de lado os verdadeiros interesses que estão por detrás deste fenômeno.

A indústria Bélica é a grande máquina que impulsiona as guerras e conflitos internos nos países para obter lucros gigantescos, avançar e apoderar-se das riquezas de cada país no qual intervém ou simplesmente vender armas para os dois lados em luta.

Com isto geram um efeito que a própria indústria bélica chama de colateral, que é uma imensa massa de pessoas que fogem da violência, da instabilidade democrática, da fome etc, deslocando-se para outras regiões dentro do seu próprio país, para países vizinhos, ou para outros países mais distantes onde se visualizem melhores condições de vida.

Isto, desde o ponto de vista deles, de certa forma é bom, porque o desespero do refugiado ou imigrante quando chega a seu novo destino faz gerar mão de obra barata para as empresas que somente visam o lucro e não hesitam em tirar todo direito ao novo trabalhador.

Mario Luis Rodrigues Cobos, autor conhecido como Silo, em seu livro Carta a meus Amigos, nos diz :

“À medida que as forças que o grande capital mobiliza, vão asfixiando os povos, surgem posturas incoerentes que começam a fortalecer-se ao explorar esse mal estar, canalizando-o contra falsos culpados. Na base destes neo-fascismos está uma profunda negação dos valores humanos.”

Desde essa postura neo-fascista avança a ideia discriminatória de que as culturas contaminam, de que os estrangeiros sujam e poluem, que tiram os empregos, fazendo surgir xenofobias de todo tipo. Ate chegar ao ponto de que países como o Reino Unido, prefere sair do mercado comum europeu a ter que acolher refugiados que eles mesmo ajudaram a gerar .

Atingindo um de cada 113 seres humanos, o deslocamento forçado bate cifras recordes.

O conflito e a perseguição provocaram um aumento considerável no deslocamento forçado em 2015, alcançando o maior nível jamais registrado, provocando um tremendo sofrimento humano, de acordo com o informe apresentado este ano pela ACNUR, a Agencia da ONU para os Refugiados.

  • Atualmente existem 65,3 milhões de pessoas deslocadas, é a primeira vez que se supera a marca de 60 milhões.
  • No total, o número de deslocados forçados hoje é maior que a população de países como Reino Unido, França ou Itália.
  • No final de 2005, a ACNUR registrava uma media de 6 pessoas deslocadas a cada minuto. Hoje o número é de 24 por minuto – quase o dobro da frequência habitual com que uma pessoa adulta respira.
  • Três países geram a metade dos refugiados do mundo: Síria com 4,9 milhões, Afeganistão com 2,7 milhões e Somália com 1,1 milhões.
  • Por outro lado, a Colômbia com 6,9 milhões, Síria com 6,6 milhões, Iraque com 4,4 milhões e Iêmen com 2,5 milhões, registram as maiores cifras de deslocados internos.
  • 86 por cento dos refugiados sob o amparo da ACNUR em 2015 estavam em países de rendas baixas e médias, próximos a zonas de conflito.
  • O Líbano acolheu mais refugiados em comparação com sua população que nenhum outro país (183 refugiados para cada 1.000 habitantes).
  • Em relação ao tamanho da sua economia, a República Democrática do Congo foi o país que acolheu mais refugiados (471 refugiados para cada dólar de PIB per capta, medidos em termos de paridade do poder aquisitivo).

Este crescimento recorde se deve principalmente a três motivos: as situações que provocam os grandes fluxos de refugiados estão durando mais (por exemplo, os conflitos na Somália e Afeganistão estão agora na sua terceira e quarta década, respectivamente); com frequência surgem novos conflitos ou se reativam outros já existentes (hoje o maior é o da Síria, mas também nos últimos cinco anos Sudão do Sul, Iêmen, Burundi, Ucrânia, República Centro Africana têm contribuído para esse crescimento. E a resposta para solucionar o problema dos refugiados e deslocados internos é muito lenta, muito vagarosa.

Para ilustrar isto podemos dar uma olhada no informe da Acnur de 2016 que mostra os países de onde está saindo a maior parte dos refugiados.

Oriente Médio e Norte da África

A guerra da Síria continua sendo mundialmente a principal causa do deslocamento e do sofrimento a que isto leva, no final de 2015 pelo menos 4,9 milhões de pessoas tinham sido forçadas ao exílio como refugiados, e 6,6 milhões tinham sido deslocadas dentro do próprio país, afetando quase a metade da população da Síria antes da guerra. O conflito no Iraque tinha deslocado até o final do ano 4,4 milhões de pessoas internamente e gerado quase um quarto de milhão de refugiados. A guerra civil no Iêmen, que começou em 2015, no final de dezembro do ano passado calculou-se em 2,5 milhões de deslocados; mais novos deslocados que qualquer outro conflito no mundo. Incluindo os 5,2 milhões de palestinos refugiados sob o controle da UNRWA, por volta de meio milhão de líbios forçados a fugir de seus lares e que permanecem no país, e mais outros afetados pelas situações de menor relevância, a região de Oriente Médio e Norte de África foram as que mais somaram deslocados no mundo.

África Subsaariana

O aumento do conflito no Sudão do Sul em 2015, assim como na República Centro Africana e Somália, somados aos novos ou continuados deslocamentos massivos dentro ou desde países como Nigéria, Burundi, Sudão, República Democrática do Congo, Moçambique e outros, geraram um total de 18,4 milhões de refugiados e deslocados internos, segundo dados do final do ano passado. Enquanto isso, a África Subsaariana acolheu 4,4 milhões de refugiados no total, mais que nenhuma outra região. Cinco dos 10 principais países que acolheram refugiados foram africanos, liderados pela Etiópia, seguida de Quênia, Uganda, República Democrática do Congo e Chade.

Ásia e Pacífico

A região de Ásia e Pacífico tinha pelo menos um de cada seis refugiados e deslocados internos no mundo todo em 2015, convertendo-se na terceira região do mundo com maior deslocamento. Um de cada seis refugiados sob o controle da ACNUR procediam de Afeganistão (2,7 milhões de pessoas), onde quase 1,2 milhões de pessoas são deslocadas internamente. Mianmar foi o segundo país de origem de refugiados e deslocados internos da região (451.800 e 451.000 respectivamente). Paquistão (1,5 milhões) e a República Islâmica do Irá (979.000) permanecem entre os principais países que mais acolheram refugiados no mundo.

América

 

Um número crescente de pessoas que fogem das maras ou gangues assim como outro tipo de violência na América Central, contribuíram para elevar em até 17% o deslocamento na região. Os refugiados e solicitantes de asilo procedentes de El Salvador, Guatemala e Honduras somaram um total de 109.800 pessoas, na maioria que alcançaram o México e Estados Unidos, quintuplicando as cifras nos últimos três anos. Colômbia, com uma crise prolongada, continua sendo o maior país em deslocamento interno (6,9 milhões). Agora com o acordo de Paz bilateral, esperamos que estas condições melhorem.

Europa

A situação em Ucrânia, a proximidade da Europa com a Síria e Iraque, somadas à chegada de mais de um milhão de refugiados e imigrantes pelo Mediterrâneo, a maior parte procedentes dos 10 principais países de origem de refugiados, dominaram o cenário do deslocamento na região em 2015. No total, os países europeus geraram por volta de 593.000 refugiados –na sua maioria desde a Ucrânia, e acolheram 4,4 milhões, 2,5 milhões deles na Turquia. As cifras proporcionadas pelo governo de Ucrânia contabilizaram 1,6 milhões de deslocados ucranianos dentro do país. O informe Tendências Globais mostra que tiveram 441.900 solicitações de asilo na Alemanha, onde a população refugiada teve um aumento de um 46% comparada com as cifras de 2014, com 316.000 pessoas.

Refugiados no Brasil

De acordo com o CONARE, o Brasil possui atualmente (abril de 2016) 8.863 refugiados reconhecidos, de 79 nacionalidades distintas (28,2% deles são mulheres) – incluindo refugiados reassentados.

Os principais grupos são compostos por nacionais da Síria- Conflitos internos (2.298), Angola – Crise econômica – (1.420), Colômbia – Conflitos internos(1.100), República Democrática do Congo – conflitos internos(968) e Palestina conflitos com Israel (376).

Os maiores fabricantes de armas

Os maiores fabricantes de armas são aqueles que têm cadeira cativa no conselho de segurança da ONU, Estados Unidos, Rússia, Reino Unido, França e China, sem deixar de mencionar também Espanha, Ucrânia, Itália e Israel.

E o Brasil é um dos maiores produtores e exportadores de armas leves, assim como também lançadores múltiplos de foguete (Astros II) que foram exportados em grande escala para Arábia Saudita, Malásia, Indonésia, Angola, Catar, Bahrein e Iraque. E fabricação de mísseis ar-ar de curto alcance.

Os verdadeiros interesses para gerar guerras são os conflitos encobertos pelos mais variados motivos religiosos, geopolíticos, defesa dos direitos humanos, pela liberdade democrática etc

  • Hoje com 10 % do que se gasta em armamento por ano daria para resolver o problema da fome no mundo.
  • Em uma hora, gasta-se em armas o que aproximadamente 100.000 trabalhadores poderiam ganhar em um mês.
  • Aproximadamente os 25% dos pesquisadores de todo o mundo se dedicam a pesquisa
  • O custo de um tanque de guerra daria para construir 520 salas de aula de educação escolar.
  • O custo de um avião caça equivale ao gasto para implementar 40.000 consultórios de saúde.
  • O preço de um contratorpedeiro poderia ser usado para a eletrificação de 13 cidades e de 19 zonas rurais com uma população de 9 milhões de pessoas.

7- Com 25 % do que se gasta em armamento em um ano se poderiam cobrir os gastos estruturais (irrigação, plantações, eletrificação, abastecimento de água e recursos sustentáveis ) para resolver os problemas da fome no continente africano. Estes dados são para mostrar que estes países não têm o mínimo interesse em resolver e ajudar os países necessitados. E sim de promover sua economia e influência a qualquer custo. Mas ante esta informação as pessoas falam: Este é um problema mundial, aqui na cidade onde vivo os problemas são outros, temos muito com que nos ocupar. O que eu poderia fazer?Isso não me afeta diretamente. Claro, as mortes, o desespero dos migrantes e refugiados não afetam as pessoas porque acontece longe de onde elas estão, aí quando aparece a foto de um menino afogado jogado na praia sente-se a dor e o sofrimento mais perto e se solidarizam com ele, mas retomam suas vidas e duas horas depois não se lembram mais do ocorrido. Mas será que as coisas são assim? Por que existe a desconexão entre a vida cotidiana e a indústria bélica? As pessoas e a sociedade podem começar a perceber e fazer essa relação, ainda que difícil, entre essa indústria e o sofrimento que gera? Por que não reagem ou quando reagem, o fazem de forma esporádica e desestruturada ? É uma ilusão pensar que nossa reação pode ajudar a produzir mudanças nas nossas vidas e para as futuras gerações? Ilusão mesmo é acreditar que esses governos e os poderes que eles representam vão produzir essa mudança, já que eles encobertamente estão mancomunados com a indústria bélica para sustentar seu modelo econômico voraz e doentio que é indiferente a dor e sofrimento dos seres humanos. Então, se a maior parte das pessoas é contra as guerras e conflitos, estamos frente à necessidade de nos perguntar: -Como é que desde a base social podemos nos organizar para mudar esta situação que é sustentada por uma minoria sem escrúpulos, mas muito bem organizada que alimenta essa máquina de morte?  Alguns podem dizer: “mas já existem os movimentos sociais e pacifistas que lutam por isso”.Existem sim, vários movimentos, que lutam cotidianamente pelo desarmamento, fazendo campanhas como a Marcha Mundial pela paz e pela não violência, que percorreu todos os países do planeta em 2009 e somou milhares de pessoas. Também na República Checa movimentos se organizaram para rejeitar a instalação de bases americanas que faziam parte do escudo de proteção da OTAN, no leste europeu. Essa campanha mobilizou milhares de pessoas e conseguiram, pressionando seu governo, que as bases não fossem instaladas. Mas isso tudo não é suficiente para conseguir mudar o rumo que a humanidade está seguindo.

Hoje as mobilizações sociais estão marcando um antes e um depois. Em geral partem do motor da “indignação” contra injustiças, falta de democracia e perdas de direitos sociais. Tomam caminhos que dê uma certa forma são novidade, realizando-se de forma pacífica se apoiam na metodologia da não violência. Esta onda com estas dimensões acontece pela primeira vez, transladando-se de forma espontânea, sem líderes, com horizontalidade, de uma forma totalmente nova. Todo isto marca um ponto de inflexão com as anteriores revoluções violentas. O modelo do “guerrilheiro” ficou no passado da história. Agora se fala de “Revolução não violenta”.

Este proceder desloca os poderes que estão preparados para lutar contra a violência. O sistema violento necessita da violência para se perpetuar. Ainda mais quando estes movimentos atuam de forma pacífica conseguem um amplo apoio popular, por isso, sua força cresce de forma imparável. Conforme o testemunho de um ativista: “Não nos podem parar. Para nós dá na mesma o que faça a polícia. Se eles vêm e nos mandam embora, nós não os enfrentamos de forma violenta. Nos dispersamos, mas amanhã voltamos a protestar outra vez e somos ainda mais. Cada dia chegam mais pessoas . Assim uma e mil vezes.”

Se todas estas mobilizações sociais do mundo conseguissem sintonizar e convergir em um só clamor para a redução e o fim da industria bélica, seria uma força que poderia derrubar governos, avançar para uma sociedade solidária e não violenta, que tenha como valor central o ser humano. Seria o nascimento de uma nova cultura, de uma nova civilização, o nascimento de uma nação humana universal. Enquanto estas ideias amadurecem no interior das pessoas, hoje podemos avançar pressionando nossos governos, apresentando e apoiando propostas com o objetivo que incluam desarmamentos regionais e progressivos e a substituição dos exércitos de guerra, em forças regionais de Paz que colaborem em situações de catástrofe e na solução dos problemas básicos de saúde, alimentação e educação. Que os governos incorporem em suas constituições a rejeição explícita à guerra como método de resolução de conflitos. Que façam uma redução progressiva dos orçamentos bélicos em cada país e esses recursos sejam aplicados de imediato nas áreas de saúde e educação. Nossa grande ajuda para esta ação é a história humana mesma, que nos mostra sem atenuantes como grandes utopias se convertem em realidade quando estas se convertem em sentidas necessidades do ser humano. A utopia de acabar com a indústria bélica é de um nível superior em nossas consciências e implica uma direção evolutiva transcendental de nossa espécie. Seu sinal mais claro será não só a rejeição que se expressa nas ideias, mas também a repugnância pessoal e social com todo tipo de violência. Esta nova consciência será o passo necessário para um mundo livre de violência, não somente em sua expressão mais cruel, as guerras e a violência física, mas também livre da violência econômica, racial, religiosa, sexual, psicológica e moral. Este possível fenômeno foi descrito e expressado magistralmente por Silo (2006)iii em um dos seus últimos escritos. Ele nos diz: “É possível considerar configurações de consciência avançadas nas quais todo tipo de violência provocará repugnância com os correlatos somáticos do caso. Esta estruturação de consciência não violenta poderia chegar a se instalar nas sociedades como uma conquista cultural profunda. Isto irá muito alem das ideias ou das emoções que debilmente se manifestam nas sociedades atuais, para começar a fazer parte da rede psicossomática e psicossocial do ser humano”.iv  Tomara que em um futuro não muito distante a regra de ouro, “Trata aos demais como queres ser tratado” seja normal em nosso cotidiano e comecemos a avançar na direção de sentir amor pelos outros, além daqueles que fazem parte do nosso entorno e consigamos expandir esse sentimento de amor para o conjunto chamado humanidade. Aí sim estaremos diante do “ser humano”. Convido a todos e todas agora a fazer um pedido pelos refugiados e migrantes de todo o mundo, imaginemos a situação em que se encontram,…… agora vamos enviar uma onda de bem estar para eles, de reconforto, de energias positivas,……Agora imaginemos o futuro que desejamos para eles e sintamos como esta onda de bem estar chega até eles….. Isto foi bom para eles, reconfortante para nós e inspirador para nossas vidas, saudamos a todos imersos nesta corrente de bem estar reforçada pelos bons desejos dos aqui presentes.

Fontes:

SIPRI (Instituto de Investigación para la Paz, Estocolmo, Suecia). www.sipri.org

Acnur – Agencia da ONU para os Refugiados.

CONARE

Mundo sem Guerras: www.theworldmarch.org

Pressenza Press International Agency”

 

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