Não é a Venezuela, é o México

09.07.2016 - Ilka Oliva Corado

Não é a Venezuela, é o México
(Crédito da Imagem: Foto: Julio Cesar Hernandez Reyes/ Fotos Públicas)

O México está sendo sequestrado, massacrado e desaparecido, nada mais e nada menos, pelo governo de Peña Nieto.

A pergunta urgente que muito nos fazemos é: o que está esperando Almagro e a OEA para aplicar a Peña Nieto a Carta Democrática? Por acaso o governo não está violando direitos humanos dos cidadãos mexicanos? Por acaso não incita e exerce a violência de seu braço armado? Por acaso o governo de Peña Nieto não está sequestrando, torturando e massacrando cidadãos? Não está saqueando o país? Por acaso não reprime manifestações sociais? Por acaso não é um genocídio levado a cabo?

O que mais Almagro precisa para aplicar com urgência a Carta Democrática e denunciar a nível internacional a ditadura de Peña Nieto? Ah sim, é que não é Maduro, nem a Venezuela. Onde estão Hillary Clinton, Obama e Biden denunciando a nível internacional o massacre que realiza Peña Nieto contra seu próprio povo? Assim como denunciaram o “ditador” Maduro.

Onde está Uribe denunciando Peña Nieto e exigindo intervenção militar estadunidense no México assim como exigem que seja feito com a Venezuela? Onde estão os presidentes do mundo manifestando-se pelo assassinato dos professores de Oaxaca por parte do governo, assim como se manifestam pelo massacre de Orlando? É que os Estados Unidos têm de ser bem tratados.

No México o terrorismo corre na conta do próprio governo. Por que não estão denunciando isso a Telemundo, Televisa, Univisión e a CNN em espanhol? Assim como têm seus dez minutos diários de noticiário dedicado a atacar a Venezuela e Maduro. Peña Nieto se dá a liberdade de assassinar estudantes e professores. Assassinar jornalistas, defensores dos direitos humanos, camponeses e sindicalistas. E assassinar crianças, adolescentes e mulheres. Os feminicídios no México superam os dos outros países da América Latina. Encheu o país de valas clandestinas, faz correr rios de sangue, e onde está a denúncia e a intervenção internacional em defesa do povo mexicano?

Onde estão esses artistas internacionais que denunciam todos os dias as “mazelas” que vive a Venezuela por culpa do “ditador” Maduro? Onde estão denunciando a ditadura de Peña Nieto? O que acontece com os meios de comunicação internacionais que criaram um manto de impunidade como proteção aos corruptos, estupradores e assassinos do governo mexicano? Por que não denunciam e enviam correspondentes ao México e realizam transmissões ao vivo como fazem na Venezuela, denunciando a “calamidade” que vive o povo nas mãos do “opressor” Maduro? Grande responsabilidade têm os meios de comunicação que calam em cumplicidade.

Onde está o mundo dizendo “somos todos México” como há uma semana disseram “somos todos Orlando”? Onde estão esses mexicanos que há uns dias se enfureceram com a monumental derrota diante do Chile pela Copa América e por que não mostram a mesma fúria pelo que faz seu governo contra o povo? É por acaso mais importante um jogo de futebol, em um campeonato malogrado pela corrupção da FIFA do que a denúncia social em defesa da vida? Onde está essa gente graduada da universidade, grandes oradores e intelectuais que viajam pelo mundo ditando conferências contra Maduro? Onde estarão eles denunciando o genocídio que realiza Peña Nieto?

Onde está o mundo se manifestando pelo México? O México pede ajuda a gritos, envia sinais de alarme, de emergência, de catástrofe, clama por democracia, por um governo que respeite os cidadãos. Pede um basta ao genocídio, aos sequestros, às torturas; um basta aos desaparecimentos forçados. Pede um basta aos saques, à corrupção, à venda da terra.

No México temos um espelho, o que acontece nesse país é o que querem fazer os Estados Unidos com o restante da América Latina. O que acontece hoje no México já foi vivido no triângulo da América Central, há décadas atrás, com as ditaduras e genocídios dos quais ainda não conseguimos nos recuperar.

Será que temos o descaro de perguntar então por que da resistência dos governos progressistas latino americanos aos EUA? Nos perguntamos então por que a força do capital está contra a Venezuela?

O incrível e esperançoso é que no México, apesar de tanto sangue derramado, de tanta opressão, o povo segue resistindo. Digo, o povo real. Com a cabeça e o peito erguidos, ainda que literalmente chovendo balas. Não é preciso ser mexicano, docente nem estudante para apoiar a denúncia dos professores mexicanos, é preciso somente ser humano e saber que a causa quando é justa despertará a fúria dos traidores e contra eles temos que nos unir, nós que queremos trocar este mundo por um mais justo.

O México de pés descalços segue resistindo, nem os Estados Unidos puderam com ele. E vemos então os herdeiros das Adelitas, de Pancho Villa, de Emiliano Zapata e Lúcio Cabañas gritarem nas ruas: “Viva México, cabrones!”

E ainda que o mundo guarde silêncio e a midiatização pretenda esconder a impunidade, esse grito que soa do Rio Bravo até Usumacinta, que se espalha pelos mares de águas internacionais, é o chamado de sangue que só escutam os que apesar de 500 anos de genocídios e saques se recusam a acreditar que a América Latina seja vassala de traidores e vende-pátrias. E se unem ao rugido para que estoure em todos os rincões do mundo, a todos que se recusam a ver ou escutar: Viva México, cabrones! Viva México, ainda que nos despedacem com metralhadoras!

Não, não é o governo de Maduro massacrando venezuelanos, é o governo Peña Nieto massacrando mexicanos em resistência e dignidade.

Eu sou México, e você?

Tradução de Raphael Sanz

Categorias: América do Norte, Assuntos internacionais, Direitos Humanos, Opinião, Política
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