“Um país que trata mal seus imigrantes é um país que trata mal seu próprio povo”

09.06.2016 - São Paulo, Brasil - Equipe de Base Warmis-Convergência das Culturas

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“Um país que trata mal seus imigrantes é um país que trata mal seu próprio povo”

Por Aline Vessoni (Equipe de Base Warmis – Convergência das Culturas).

Entre os dias 7 e 10 de julho, São Paulo vai receber o VII Fórum Social Mundial das Migrações. Os diversos eixos temáticos tentam avaliar as condições dos povos migrantes sob diversas perspectivas, tais como, econômica, geográfica, política e social. Tomás Hirsch, líder do Partido Humanista Chileno, foi convidado a participar como conferecista do Eixo 1: “A crise sistêmica do modelo capitalista e suas consequências para as migrações, que acontece no dia 08, às 9h.

Sua história pessoal está intrinsicamente ligada à história da imigração. De origem judaica, seus antepassados nascidos na Alemanha conseguiram imigrar para o Chile, em 1939. O pai que havia sido levado para um campo de trabalhos forçados conseguira fugir para Holanda, onde foi-lhe concedido um visto para o Chile. Sua mãe estudava em Israel, quando soube que a família imigraria para o Chile e, então, veio juntar-se a eles na América do Sul. Conheceram-se em terras chilenas.

“Meus pais se conheceram no Chile e logo se casaram, em 1950. E como todo imigrante daquela época, tiveram uma vida muito dura, de muitos sacrifícios para conseguir educar os filhos”, conta.

O pai de Tomás conseguiu escapar do regime nazista, mas seus avós não tiveram a mesma sorte. “Meu pai viveu sempre com esse peso de ter perdido seus pais em um campo de concentração. Isso o transformou em um homem calado, reservado. Nunca nos contou sobre sua infância e juventude na Alemanha. Nunca vimos uma foto dessa época. Mesmo assim, ele nunca nos inflamou o ódio contra os nazistas, nem contra ninguém. Ele achava que deveríamos conhecer a História, mas não odiar; é preciso conhecer e lembrar para não repetir”, afirma.

Essa filosofia de vida dos pais teve grande influência na militância política de Tomás, pois isso despertou nele um sentimento de se engajar contra qualquer tipo de discriminação, injustiça e violência. A família tinha o hábito de receber muitos amigos e a troca de ideias, discussões políticas eram abertas também aos filhos. Segundo conta Tomás, essa era a época da Unidade Popular, Salvador Allende estava na presidência e era quase um dever de cidadão estar comprometido com os problemas sociais da época. “Em 1971, lembro-me muito bem que aos 15 anos, como tantos outros jovens, senti uma profunda rebeldia ao me deparar com um mundo tão injusto e violento. Nesse momento, assumi uma espécie de propósito para a minha vida, de me dedicar a tentar construir um mundo mais justo e mais humano”, relembra.

Sua participação ativa em movimentos sociais durante a Ditadura Militar Chilena culminou com a fundação do Partido Humanista, em 1984. “Em plena ditadura, era evidente que necessitávamos de um instrumento político que nos ajudasse a lutar pela volta da democracia”. E, dessa forma, nasceu o Partido Humanista, um partido que acredita que a democracia que vivemos hoje em dia é uma democracia formal, não real. Ou seja, como cidadãos somos obrigados a votar (existe a obrigação do voto até hoje em alguns países, como no Brasil) e não decidimos nada. “Acredito que o grande desafio e objetivo é construir uma democracia direta, em que as decisões sejam tomadas pelo povo e não por seus representantes […]. Uma democracia direta deve ter plebiscitos, consultas populares, iniciativas populares, revogação de mandato, lei de responsabilidade política, etc. Deve priorizar toda forma de desconcentração de poder, seja este de ordem política, econômica, geográfica, cultural ou religioso”.

Humanização das relações migratórias

Um dos princípios mais simbólicos do Partido Humanista é a da não-violência. Quando falamos de violência referimo-nos àquela que existe no cotidiano das minorias que não têm voz, que não têm seus direitos respeitados, não têm acesso à saúde básica, educação e não têm nem mesmo o direito de cruzarem fronteiras em busca do sonho de uma vida melhor. Tomar a decisão de emigrar de seu país não é fácil, principalmente quando se está em busca de melhores condições socioeconômicas para toda a família.

Para Tomás não existe diferença entre migrantes que decidem ir a países mais ricos ou vão apenas a países um pouco mais desenvolvidos. A motivação que os faz emigrar está relacionada com a violência, seja ela econômica, física ou religiosa. “Todos os imigrantes ficam iludidos com a possibilidade de encontrar um futuro melhor. Essa esperança está presente em todos que se lançam a percorrer o mundo em busca de um novo destino”, comenta.

Porém, na grande maioria dos casos, a realidade não tem nada a ver com aquilo que eles imaginavam. É difícil adaptar-se a novas regras, por isso eles se sentem, muitas vezes, desconectados de suas raízes culturais e das novas. Nesse cenário é bastante comum a formação de guetos.

A maneira como se dão os processos migratórios na atualidade, com tantos entraves e cerceamento, vem apenas para nos certificar que o ser humano há muito deixou de ser considerado peça central nas sociedades contemporâneas. “[A imigração] aparece como uma expressão de um mundo violento e profundamente hostil e desumano. A imigração deixa evidente que neste sistema o ser humano não é prioridade, não é o valor central. Apenas nos lembra que antes do ser humano está o dinheiro, a religião, a pátria”.

A única solução viável, na opinião de Tomás, é ter fronteiras abertas para o ir e vir das pessoas, já que, como lembrou, a circulação de capital financeiro é livre e, em segundos, estão em outro país. Enquanto isso, as pessoas são impedidas de cruzar fronteiras e para fazer isso precisam pagar, se humilhar ou atravessar clandestinamente, arriscando suas próprias vidas.

“Uma boa política de imigração é a mesma boa política que se deve ter com o próprio povo. Não deve haver diferenças de direitos entre nativos e imigrantes. Um país que trata mal seus imigrantes é um país que trata mal seu próprio povo”, concluiu.

Categorias: Ámérica do Sul, Direitos Humanos, Diversidade, Entrevista, Internacional, Não violência, Política
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