Umberto Eco e a influência islâmica no imaginário europeu

04.03.2016 - Fernanda Pereira Mendes

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Umberto Eco e a influência islâmica no imaginário europeu
(Crédito da Imagem: By Erinc Salor from Amsterdam, Netherlands (Umberto Eco) [CC BY-SA 2.0 (http://creativecommons.org/licenses/by-sa/2.0)], via Wikimedia Commons (imagem cropada))

Dante_e_islamAlém do nome de sua ultima e recém-lançada obra, “Pape Satán Aleppe – crônicas de uma sociedade líquida”, o clássico dantesco Divina Comédia inspirou Umberto Eco a escrever um dos artigos mais ilustrativos desta liquefação caracterizada, segundo ele, pelo colapso das ideologias, das memórias, individualismo e confusão generalizada. “Dante e o Islã” foi publicado há cerca de um ano no jornal italiano L´Espresso e reproduzido por meios de comunicação em diferentes idiomas. Comenta o recente lançamento do livro de mesmo nome, 20 anos após a sua primeira edição na Itália com o título original “A escatologia muçulmana na Divina Comédia de Dante Alighieri”. Trata-se de um estudo publicado em 1919 pelo filólogo espanhol Miguel Asín y Palácios, que mostra as estreitas semelhanças entre o poema dantesco e o relato da ascensão do profeta Maomé ao Paraíso e sua jornada noturna ao Inferno.

Escatologia é o conjunto de crenças religiosas sobre o que vai acontecer depois da morte. Por meio de uma análise comparativa, este autor demonstra que muitas das descrições dos cenários infernais aos paradisíacos, além da arquitetura destes três planos pelo qual transitam as almas tanto no cristianismo como no islamismo, são praticamente as mesmas nas duas narrativas. Em seu artigo, Eco comenta a importância do estudo e sua atualidade, estabelecendo um paralelo com contexto antiterrorismo e recomenda sua leitura “ainda mais relevante hoje – uma época em que, perturbadas pela insensatez bárbara dos fundamentalistas islâmicos, as pessoas tendem a esquecer as relações que sempre existiram entre as culturas ocidental e islâmica”.

Esquecimento sem dúvida sintomático da sociedade líquida da qual nos fala o pensador italiano, que na verdade é o aprofundamento do sem sentido no qual mergulhou há muitos séculos, quando os triunfadores cristãos impuseram e reiteraram sua versão da história, baseada na degradação do diferente. E o advento do racionalismo não fez muito mais do que legitimá-la sob a vestimenta do discurso científico.

Só assim se entende a absurda desconexão entre o pensar e o sentir explicitada por Eco. Ainda que qualquer cidadão médio europeu tenha conhecimento dos fatos sobre os avanços proporcionados pela presença árabe-islâmica no continente durante oito séculos na Idade Média, num momento em que a cultura europeia era periférica, admitir qualquer coisa em comum com o islamismo é, literalmente, outra história. E o respeito e o diálogo intercultural que poderiam contribuir para a solução dos atuais conflitos são substituídos pela estranheza e a mecanicidade defensiva.

Permeabilidade intercultural na história

Também foi com base nesta desconexão que os intelectuais de distintos séculos nunca sequer desconfiaram, durante os 600 anos que separam o estudo de Palácios da publicação da Divina Comédia ,desta permeabilidade cultural islâmica na obra, apenas recentemente aceita pelos especialistas. E estamos falando de uma das obras mais estudadas da literatura mundial!

Há muitos exemplos desta permeabilidade em todo o período medieval. Citando R. A. Nicholson, o antropólogo Campbell reitera que “os conquistadores árabes da Espanha e da Sicília repetiram, embora em escala menor, o mesmo processo ao qual eles próprios foram sujeitados pela civilização helenística da Pérsia e da Síria”. Aliás, eles foram os guardiões desse legado, depois do fechamento das escolas de filosofia pagãs em Atenas no ano 529, por ordem do imperador bizantino Justiniano. Um dos exemplos mais célebres é o aristotelismo no pensamento de Averrois e Avicena.

A importância de Asín y Palácios, que curiosamente era padre jesuíta, foi sobretudo romper a censura cristã e racionalista, já que naquele momento a intelectualidade limitava a inspiração dantesca a Aristóteles e São Tomás de Aquino. Segundo ele – que dedicou sua vida a estabelecer os paralelos no desenvolvimento das ordens monásticas do sufismo e ascetismo – muitas obras filosóficas e teológicas consideradas cristãs no meio acadêmico foram influenciadas pela mística sufi. Em sua análise, Dante teria se inspirado no texto do sábio árabe-espanhol Ibn Arabi, que viveu entre os séculos XII e XIII, cuja obra até hoje é tida como referência desta corrente.

Sua tese da influência escatológica islâmica foi aceita após uma polêmica que se estendeu até o início dos anos 90, quando finalmente seu estudo foi publicado na Itália. Antes disso, uma importante descoberta, em 1949, havia corroborado suas afirmações: foram encontradas duas traduções, para o latim e o francês antigo, do Livro da Escada de Maomé, ambas de 1264, às quais Dante poderia ter lido. Contudo, para a maioria dos estudiosos o poeta italiano teria se inspirado apenas nas descrições cênicas e da arquitetura dos espaços, deixando de lado quaisquer implicações teológicas, filosóficas ou metafísicas. Entre outros argumentos, baseiam-se no fato de Maomé ter sido colocado no Inferno e na ausência da sensualidade característica de textos escatológicos muçulmanos.

Dante e o amor, humano e transcendente

Parecem esquecer-se da perseguição das heresias instaurada pela Igreja Católica naquele período. O próprio Dante adverte os leitores, no início do poema, para a “doutrina que se esconde sob o véu dos versos estranhos” (Inferno, IX, 61-63). Assim, olhos atentos podem ter encontrado sensualidade implícita em distintos trechos do poema, como no canto que narra o encontro do poeta com sua amada Beatriz, anunciada pelo verso “Veni, sponsa, de Líbano”, alusão ao Cântico dos Cânticos, que é o mais erótico dos textos bíblicos (Purgatório, XXX, 11).

Deste ponto de vista, parece que acima de uma adesão religiosa, a escolha da escatologia muçulmana encaixa-se plenamente no projeto de escrita anunciado por Dante na Vida Nova, de louvor à Beatriz “como nenhuma outra mulher havia sido louvada por um poeta” que, em última instância é um hino ao amor, como ele próprio destaca diversas vezes.

O amor como via de acesso à experiência mística está presente em diferentes tradições culturais. E o amor sensual como expressão do Sagrado é recorrente no sufismo, com destaque para a poesia de Rumi, que viveu no século XIII na Pérsia e é o mais conhecido expoente desta corrente no Ocidente. Para o humanista italiano Salvatore Puledda, a Divina Comédia teria sido inspirada nos escritos deste sábio, que chegaram a ele por meio de traduções trazidas pelos Templários.

Segundo o antropólogo Mircea Eliade, antes da Idade Moderna, tanto o amor como a sexualidade eram interpretados como manifestação do Sagrado, através dos quais é possível alcançar uma experiência transcendente integral, ou seja, com o corpo e a alma. Na Idade Média, retomando Umberto Eco, a sensibilidade estética caracterizava-se justamente por uma visão simbólico-alegórica do universo, na qual apesar do mundo parecer caótico é criação divina e, como tal, em tudo se manifesta uma verdade superior ligada a desígnios transcendentes.

Toda essa multiplicidade de significados foi esquecida no Ocidente devido à reiteração da versão cristã e racionalista da História, que mais do que nunca precisa abrir-se novas interpretações. Uma grande empreitada para a qual Eco deu uma contribuição fundamental, com seu originalíssimo legado literário e intelectual pelo qual será eternamente lembrado!

Categorias: Assuntos internacionais, Cultura e Mídia, Diversidade, Europa

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