Sobre o Fala Silo – II

24.06.2014 - Ernesto H. De Casas

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Sobre o Fala Silo – II

Continuando com as matérias sobre a obra de Silo, mencionada no prólogo da nova edição de Fala Silo, edições León Alado (Espanha). Apresentamos os textos a seguir, com o objetivo de aproximar Silo aos leitores:

Por motivo de sua chegada à Ásia, junto a um grupo de amigos de diferentes lugares, tive a fortuna de estar presente nos dois atos que foram realizados. Um deles em Colombo, capital de Sri Lanka (ex Ceilão) onde Silo além de expor em ato público conversou com membros da Sangha Budista. E  o outro, nas praias de Chawpatty, às portas de Mumbai. Esta foi uma experiência única pela aglomeração de pessoas que acudiram às instalações, dispostas a participarem do ato ordeira e atentamente, naquele entardecer.

Fomos chegando a Colombo aos poucos, de diferentes lugares e ficamos gratamente impressionados pelo clima tropical e as pessoas sempre sorridentes e amáveis. Posso relatar um pequeno incidente muito revelador. Assim que descemos do avião, pedimos ao chofer que nos levasse para fazer câmbio da moeda, nós vínhamos de Tókio e no Japão é costume ter moeda local, já no início.

Enquanto esperávamos no banco, o chofer, um jovem humilde que também era intérprete, subitamente nos pergunta, olhando para as japonesas: O que é o mais importante para vocês (como estrangeiros)? Elas, vacilam um pouco e respondem: Bem, não sabemos ao certo, talvez o dinheiro seja o mais importante. Sim, acho que é isso… Imediatamente o jovem ri e comenta a resposta para todos os presentes em cingalês, ao que todos riem… Então ele diz para nós: “Aqui não é assim, o mais importante é a religião, qualquer que seja a de cada pessoa, budista, hinduísta, cristã, ela é o mais importante e todos nos relacionamos bem”. Essa foi a nossa antrée neste país que colocou em xeque as prioridades.

Os amigos Siloistas do local tinham organizado várias atividades, um ato central e visita a organizações e ao Primeiro Ministro, com quem Silo intercambiou sobre diferentes temas.  No final da visita Silo recomendou ao Primeiro Ministro atender para a violência (naquele momento muito presente em partes do país por conta da guerrilha secessionista). O Primeiro Ministro respondeu que não havia problemas, o país era budista e muito pacífico. Porém, tempos depois houve um tremendo atentado na capital contra a Presidência do país com consequências fatais. Mais uma vez, Silo não foi ouvido, em circunstâncias muito precisas. (Lembremos que na primeira dissertação em Mendoza, em 1969, lhe foi dito que não havia violência, que ela existia lá no Vietnã… Pouco depois houve revoltas na rua como nunca antes, ganhando o apelido de “mendozazo”, como referencia ao grave conflito desatado).

A troca de ideias de Silo com membros da Sangha budista de Sri Lanka em 1981 ocorreu com fluidez. Ele expos a sua mensagem simples, dirigida ao dia a dia das pessoas, reconhecendo as próprias limitações e destacando a importância de saltar sobre os próprios problemas para dirigir-se aos outros”.

Aqui está o núcleo de sua prédica: dirigir-se a outros. Baseada na premissa de que “dar é melhor do que receber”. E pontifica na ideia de que “todo ato que termina em si mesmo gera contradição e sofrimento” e na ideia de que “as ações que terminam em outros são as únicas capazes de fazer superar o próprio sofrimento” E “este encerramento, este individualismo, esta volta das ações  sobre si mesmo estão produzindo uma desintegração total no homem de hoje… há um só ato que permite ao ser humano romper sua contradição e sofrimento permanente. Este é o ato moral em que o ser humano se dirige a outro para o ajudar a superar seus sofrimentos”[1]

As conversas continuam. Em outro momento destacará a importância do guia, ante o comentário de um monge: Com isso de uns ajudando outros, não existe o perigo de que “o cego ajude outro cego”? A isto Silo explicou que mesmo sendo cego há outros sentidos com os quais a pessoa poderia ajudar o caminhante em seu percurso.

Depois assistimos ao ato que foi traduzido para o inglês, cingalês e tâmil. Este foi realizado em local fechado em uma agitada região da capital do país, budista por antonomásia, que foi uma prévia do que viria desenvolver na próxima parada: Índia.

Chegamos a Bombaim desde Colombo e já haviam muitos amigos de diferentes lugares que nos tinham precedido. A equipe encarregada do ato estava trabalhando ‘full time’ em numerosas tarefas, instalações, som, divulgação, mídia, convites e outras. Para a divulgação foi feito algo original: perto da praia colocaram bem alto um balão com a frase ‘Come to Silo’s talk’.

No hotel onde nos alojamos realizou-se ao chegar uma conferência de imprensa, com tradutor, àa que Silo respondeu amplamente e as notas publicadas ganharam títulos como “Silo, the Argentinean philosopher in Bombay”…

Enquanto os preparativos eram feitos, instalavam cadeiras, palco, alto-falantes e microfones, Silo visitava o local tranquilamente, apreciando a amabilidade dos transeuntes e conversava com alguns através do intérprete. Os convites pessoais e algum anúncio nos jornais fizeram o resto para que uma concorrência impressionante enchesse o lugar.

No dia do ato o pessoal chegava com antecedência e ordenadamente à praia. Uma brisa acompanhava até que ela se transformou num vento ao anoitecer, junto à voz de Silo, transmitida em quatro línguas: espanhol, inglês, híndi e gujarati.  Uma jornada antológica.

 

6. Em Sri Lanka. Silo chegou à distante Ásia, onde se originaram os grandes ensinamentos; esta é a terra do budismo mais ortodoxo. Cumprindo com um grande ciclo histórico, sua proposta se universaliza. Já é algo mundial. Em uma conversa com monges budistas  Silo destacará a importância da força moral em marcha e do ato solidário, com as ações de conduta lançadas para chegarem a outros como ação válida. Acredito que vale destacar que em nenhum outro lugar Silo foi recebido com tamanha disposição e amabilidade, primeiro pelas autoridades do país e depois pelas pessoas manifestamente religiosas. Tudo correu tão bem até no menor detalhe!

 

7. Em Bombaim, Índia. Nossos olhos não acreditavam, surpresos diante dos milhares de participantes que compareceram a escutar aquele homem, ao contrário de tantos viajantes que vêem buscando…,  ele falaria de suas certezas, esmiuçando temas cruciais como a desumanização da Terra.

Ele disse: “Bom é tudo que melhora a vida. Mau é tudo que se opõe à vida. Bom é o que une o povo, mau aquilo que o desune”. Bom é o que afirma: ”Ainda há futuro”. Mau é dizer: “Não há futuro nem sentido na vida”. “Bom é dar aos povos fé neles mesmos. Mau é o fanatismo que se opõe à vida”.

Aquele comovedor discurso terminava, entrando já na noite, com a proposta da experiência de converter o sentido da vida e comunicá-lo a outros: “…Gostaria de repetir estas frases: Vai até teus pais, teu par, teus colegas, amigos e inimigos e diga-lhes com o coração aberto: Algo grande e novo se passou hoje em mim, e explica a eles esta mensagem de reconciliação”.

 

8. A respeito do humano. Continuamos nos anos 80, de volta ao Cone Sul, na Grande Buenos Aires, onde se desenvolve um centro de estudos sobre seu Pensamento, no qual também participa. Diante das consultas ele expõe sua visão sobre que é o humano, algo consubstancial a seu enfoque humanista que dará lugar, precisamente, ao Novo Humanismo. Baseados nestas explicações realizamos este exercício: “Sinto o humano em mim, sinto o humano em ti”.

 

9. A religiosidade no mundo atual. Agora na Casa Suíça, na capital de Buenos Aires, reconhecido centro de reuniões e conferências, abarrotada por uma audiência ansiosa para escutar o Silo, que não falava publicamente há alguns anos. Ele abordará um tema que lhe é muito próximo: a religiosidade. No começo faz um périplo pelas exposições anteriores, destacando as hostilidades padecidas e como foram superadas até poder chegar a este momento quando novamente é possível dissertar em público. Com erudição alude o tema, esclarece que não o faz com um foco científico. Destaca que uma nova religiosidade já surgiu no mundo atual com um fundo de rebeldia, que há de se modificar fórmulas tradicionais e outros aspectos. É, com certeza, expressão do sagrado em nosso tempo. Tópicos que ele seguirá tratando nas décadas seguintes.

Para terminar com este ponto temático permitam que o relacione com uma frase que conhecíamos desde seus primeiros escritos, quando, ainda jovem, já perfilava seu pensamento:

Há de se ressuscitar a Deus.

Quero um deus que me escute e me fale. Não

um eco morto de meu silêncio agudo[2]

 

Outros temas nos próximas artigos.

 

[1]Ver: Comentários à Mensagem de Silo. Experiencia pessoal relacionada com A Ação Válida. De Karen Rohn www.silosmessage.net, www.elmensajedesilo.net

[2] Uma de suas primeiras frases escritas conhecidas numa novela curta, onde o termo ‘ressuscitar’ pode ser melhor entendido como renascer, um voltar a manifestar-se o espírito humano já rebelando-se ante qualquer aparente derrota, como as que manifestam varias ideologias pesimistas do século XIX e XX.

 

Tradução: Cristina Obredor

Categorias: Ámérica do Sul, Humanismo e Espiritualidade, Internacional, Opinião
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