Adonis: uma voz do vento sírio

20.05.2014 - Sylvène Baroche

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Adonis: uma voz do vento sírio

Adonis, nome artístico de Ali Ahmed Saïd Esber, nos propõe algumas considerações sobre a tragédia que vive hoje o seu país, a Síria. Uma verdadeira revolução do mundo árabe, na sua opinião, pode ter possibilidades de sucesso somente se apoiada em “bases laicas”.
Este poeta e tradutor, “um dos maiores poetas árabes vivos”, nascido no dia 1º de janeiro de 1930 em Qassabin, na Síria, de família modesta, com dezessete anos publicou uma poesia tomando como pseudônimo o nome de Adon, deus fenício símbolo do renascimento da natureza. Durante a sua carreira, colecionou prêmios literários na França, Turquia e Líbano. O decano dos poetas árabes, hoje com oitenta e quatro anos, leciona na Sorbone e é também membro da UNESCO.

Pressenza: Adonis, os poetas cantam quase sempre a paz. Como é possível cantar a paz no seu país?
Adonis: Continuamos a cantá-la. É preciso cantar a paz perenemente. A poesia por si mesma significa paz. Não deve ser um instrumento, um meio para lançar uma mensagem. Em nenhum caso. A poesia não prega. A poesia canta, assim como uma flor canta com o seu perfume. É como o amor. É o canto da vida, do coração, do corpo.
P.: No seu discurso em Genebra, por ocasião da Conferência Internacional sobre a Síria democrática, que ocorreu em janeiro deste ano, o sr. enfatizou a necessidade da coerência entre meios e fins. O sr. poderia nos explicar melhor este conceito?
A.: Não se pode, em nome do amor, fazer inimigos. Assim, se há um fim humano, a maneira para obtê-lo, para chegar a esta conclusão, deve ser humana. Não há separação entre objetivos e meios. A política, os interesses, a potência econômica: estas são coisas que criaram esta deformação. Nunca um fim pode justificar a violência!
P.: De que modo o sr. espera que a questão síria possa ser resolvida?
A.: Critico sem meias palavras o sistema religioso islâmico absolutamente fossilizado que é imposto em todos os lugares. Nenhum reconhecimento da diversidade, da alteridade. Em uma sociedade baseada na discriminação, na qual política e religião estão fundamentalmente conectadas, como é possível progredir? É o exato oposto da ideia de revolução. O próprio tema da revolução está sendo subvertido. Os assim chamados ‘revolucionários’ estão organicamente ligados à política externa. Seria necessário um estado laico. É de uma revolução laica, não violenta, que o país precisa.
Os novos horizontes se abririam, então, e a vida humana seria o centro de tudo. O ser humano recuperaria, assim, a própria liberdade. Porque o que está acontecendo por lá é uma revolução antirrevolucionária. Oposição e regime, todos na mesma barca.
O Islã exclui, não reconhece aquele que se opõe. Não existem, nunca existirão direitos humanos na Síria até que não haja uma separação entre religião e estado. Hoje, na Síria, um cristão obviamente não pode participar do governo. E não tem os mesmos direitos de um muçulmano. Isso é algo normal?
É uma sociedade inconcebível. Toda ideia de tolerância é hoje excluída. É um país que não tem nem mesmo uma constituição. Aquilo sobre o que se está discutindo hoje é a exclusão de um inteiro povo.
E a França garante. E os Estados Unidos apoiam! Mas como é possível conceber que um país se alie a um país como a Síria, que não tem nem mesmo uma constituição?! A memória religiosa… O conflito entre árabes e hebreus… Vivemos este amalgamado de muitos povos. Não há mais lógica, mais nenhuma ética.
P.: Adonis, para concluir, o que o sr. gostaria de dizer a todos aqueles que estão lendo esta entrevista?
A.: Temos, de modo incontrolável, a necessidade uns dos outros. Absolutamente. Eu devo tomar conta do outro. É fundamental. O outro vem antes de mim. Devemos viver neste tipo de atmosfera. E se deve também estar alerta: perceber como a mentira está em todos os lugares, como se insere, como se submerge. A nossa vida cotidiana é também a nossa cultura. É preciso prestar atenção em todas as ideias que circulam, estar vigilantes, estar atentos… Sou otimista a longo termo. O ser humano é inacreditável. Mas o momento que vivemos hoje é difícil. Muito difícil. Não tenho nenhuma mensagem para transmitir. Gostaria somente que cada um fosse no mais profundo de si mesmo, porque ali reside a sua verdade.

Ele não teria talvez dito: “eu caminho em direção a mim e em direção a tudo que vem”?

Tradução: Débora Gastal

Categorias: Direitos Humanos, Entrevista, Internacional, Não violência, Oriente Médio, Paz e Desarmamento, Política, Tema
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