O artigo da Reuters sobre Snowden: Desviar a atenção das revelações

20.07.2013 - Radio Moçambique

O artigo da Reuters sobre Snowden: Desviar a atenção das revelações
(Crédito da Imagem: Imagem: Radio Moçambique)

 

O mais recente esforço para desviar a atenção das revelações sobre espionagem é o mais absurdo de todos, até aqui. É o caso do artigo da Reuters, que pretende resumir a minha entrevista (em espanhol) ao jornal argentino La Nación. Artigo de Glen Greenwald, publicado na Redecastorphoto e na Radio Moçambique.

Quando se dá muitas entrevistas em diferentes países e diz-se essencialmente a mesma coisa repetidas vezes, como eu, os veículos quase sempre se dedicam a reembalar aquela mesma coisa, para que a entrevista que publicam dê a impressão de conter novidades, mesmo que não traga novidade alguma. É o caso do artigo da Reuters, que pretende resumir a minha entrevista (em espanhol) ao jornal argentino La Nación.

Como tudo o que tenha a ver com as fugas de informação da Agência de Segurança Nacional dos EUA, essa entrevista também está a ser ferozmente distorcida, para desviar a atenção das revelações propriamente ditas. Tudo é reescrito para atacar Edward Snowden e, secundariamente, para me atacar pessoalmente, por estarmos, supostamente, a “chantagear” e “ameaçar” o governo dos EUA. Absurdo.

Que Snowden criou uma espécie de “conexão do homem morto” – para que documentos sejam divulgados no caso de ele ser assassinado pelo governo dos EUA – já havia sido noticiado há várias semanas  e o próprio Snowden já várias vezes sugeriu fortemente que fizera, sim, exactamente isso. Não significa que ele pense que os EUA estejam a tentar assassiná-lo – e ele não pensa – apenas que tomou precauções contra inúmeras eventualidades, inclusive essa (afinal, é perfeitamente razoável preparar-se para essa eventualidade, se se está a enfrentar não qualquer inimigo mas, precisamente, o governo que passou a última década a invadir, bombardear, torturar, “entregar” prisioneiros a torturadores em prisões estrangeiras, sequestrar, encarcerar sem acusação formalizada, assassinar “à distância” com drones, apoiar e financiar os piores ditadores e assassinos, e matar os seus próprios cidadãos em golpes de assassinato pré-definidos).

Eis o que eu disse na entrevista ao jornal La Nacion – afirmações verdadeiras e nenhuma das quais, nem remotamente, teria algo a ver com ameaçar alguém:

1 – O argumento sempre repetido de que Snowden teria a intenção de ferir os EUA é absolutamente desmentido pelo facto de que ele tem, sim, todos os tipos de documentos que mais rapidamente e mais seriamente podem hoje causar dano aos EUA, se divulgados. E não publicou nenhum desses documentos. Quando nos entregou os documentos que entregou, Snowden várias vezes repetiu que aplicássemos a eles o nosso mais rigoroso critério de avaliação jornalística, para decidirmos que documentos deveriam ser publicados, com vistas a atender ao interesse público; e quais deveriam ser escondidos, sob o argumento de que o dano gerado pela publicação ultrapassaria o valor público que tivessem.

Se Snowden visasse a causar dano aos EUA, poderia já ter vendido todos os documentos, por quantia astronómica de dinheiro, ou já os teria divulgado indiscriminadamente, ou entregue a inimigo estrangeiro. E não fez nada disso…

Snowden examinou cuidadosamente cada um dos documentos que nos entregou e ainda, depois disso, pediu que só se publicassem os que pudessem ser publicados sem causar nenhum dano desnecessário a quem quer que fosse: o mesmo critério que todos os veículos de imprensa comercial e whistleblowers usam sempre. A ampla maioria das revelações já feitas são um sinal de alerta, um “apitar de consciência”, para alertar contra a vigilância secreta e total, sobre todos nós, que o governo dos EUA estruturou e mantém em operação.

O meu argumento sobre isso, naquela entrevista, era claro, e repeti-o várias e várias vezes: se Snowden quisesse agredir o governo dos EUA, poderia tê-lo feito facilmente, mas não o fez, o que está bem comprovado – como eu disse na entrevista – pelo facto de que tem, mas não divulgou, documentos que, sim, poderiam causar grave dano a inúmeros programas mantidos pelo EUA.

Snowden não tem qualquer desejo de prejudicar os EUA. O que ele quer é lançar luz sobre os programas de vigilância, para que o problema possa ser democraticamente debatido. Por isso, nenhuma das revelações já publicadas pode ser apresentada, nem de longe, como danosa à segurança nacional dos EUA ou à reputação e credibilidade de funcionários dos EUA que fizeram aquelas coisas e, na sequência, mentiram sobre elas.

2- O governo dos EUA está a agir sob o ímpeto da mais feroz irracionalidade.

A crítica mais recente é que Snowden está na Rússia, não em outro país “neutro”. Mas Snowden não está na Rússia porque tenha escolhido o país. Só está lá porque os EUA o impediram de sair: primeiro, caçaram-lhe o passaporte (sem qualquer devido processo legal ou sentença); depois, pressionaram países aliados para que lhe negassem direito de voar em espaço aéreo territorial daqueles países (chegando ao cúmulo de forçar o pouso do avião presidencial no qual viajava um presidente democraticamente eleito de um estado soberano, apenas porque havia a suspeita de que Snowden estivesse a bordo); depois, forçaram pequenos países a impedir que o avião pousasse para reabastecer.

Dada a quantidade extraordinária de documentos que Snowden carrega com ele e a gravidade de muitos daqueles documentos, eu disse, naquela entrevista, que me parecia inacreditavelmente ridículo que o governo dos EUA tivesse praticamente obrigado Snowden a permanecer na Rússia – o que faz sentido-zero, se se pensa nos documentos que Snowden carrega.

3- Perguntaram-se se eu imaginava que o governo dos EUA empreenderia algum tipo de ataque físico contra Snowden, caso tentasse viajar para a América Latina, ou, mesmo, que os EUA iriam ao ponto de derrubar o avião em que ele viajasse. Foi quando eu disse que nada seria tão completamente contraproducente, uma vez que – como vários jornais e blogues já haviam noticiado – qualquer ataque desse tipo imediatamente dispararia uma avalanche de revelações, porque nos liberaria, a nós, jornalistas, de ter de examinar cada documento e decidir responsavelmente, como sempre fizemos até agora.

E eu disse também, naquela entrevista, que o governo dos EUA deveria, isso sim, rezar e pedir a Deus pela segurança de Snowden, em vez de porem-se a ameaçá-lo ou tentar agredi-lo ou feri-lo.

Nada disso tem qualquer coisa a ver comigo: não tenho acesso aos documentos do “seguro” de Snowden e não tenho papel algum no plano que ele construiu para se proteger. Reporto os documentos que ele diz que tem as precauções que disse que tomou pra proteger-se contra ameaça que ele pressente contra o seu bem-estar. Isso não implica qualquer ameaça. São factos. Lamento se não agradam a todos, mas nem por isso deixam de ser factos.

Antes de a identidade de Snowden ser revelada como “apitador de consciência” [orig. whistleblower], escrevi:

Desde que o governo Nixon invadiu o consultório do psicanalista de Daniel Ellsberg, a táctica do governo dos EUA sempre tem sido atacar e demonizar os “apitadores de consciência”, como artifício para distrair a atenção do que eles expunham de mal feitos do próprio governo, e para destruir a credibilidade do mensageiro, para que as pessoas deixassem de dar atenção à mensagem. O que se vê hoje, no caso de Snowden é, só, repetição da mesma táctica.

E é o que é: mais um esforço para distrair a atenção, para que ninguém se atenha à substância das revelações. (Hoje, Melissa Harris-Parry, âncora do noticiário matinal na rede MSNBC culpou Snowden pelo facto de os média estar a dar mais atenção a ele do que às revelações sobre a Agência de Segurança Nacional dos EUA: como se ela não tivesse programa seu, que vai ao ar duas vezes na semana, no qual poderia falar o quanto quisesse sobre as revelações que diz considerar tão importantes.

Comparem-se (a) a atenção que tem sido dada ao drama do asilo de Snowden e a alegados traços de carácter, e (b) a atenção dada à substância das revelações sobre espionagem em massa, indiscriminada, pela Agência de Segurança Nacional dos EUA.

Ou comparem-se (a) as repetidas manifestações em órgãos da imprensa norte-americana, no sentido de que Snowden (e outros que estão a trabalhar para denunciar a espionagem em massa na Agência de Segurança Nacional) sejam tratados como criminosos, e (b) a virtualmente nenhuma manifestação, nos órgãos de comunicação dos EUA, no sentido de que o director da Inteligência Nacional, James Clapper, seja tratado como criminoso por mentir ao Congresso.

A invenção de alguma nova “ameaça” é, só, mais um esforço para falar de qualquer coisa, excepto as revelações de que o governo dos EUA mente ao Congresso e de que a Agência de Segurança Nacional dos EUA, apoiada em premissas muito duvidosas do ponto de vista da legalidade, espiona todos os cidadãos norte-americanos (além de espionar o resto do mundo).

Ontem era outra coisa, amanhã inventarão uma terceira, quarta coisa. Como já disse nessa entrevista a Falguni Sheth publicada hoje em Salon, é atitude típica dos EUA: no resto do mundo dos media e analistas focam-se no conteúdo das revelações; nos EUA, os jornalistas e especialistas mediáticos mantêm-se obcecadamente a falar de qualquer coisa, excepto do conteúdo das revelações.

Haveria inúmeras vias acessíveis para que Snowden divulgasse os documentos que decidira divulgar. Ele escolheu a que lhe pareceu mais responsável: procurar jornais e jornalistas nos quais confiava e cobrar que a divulgação fosse feita com responsabilidade. O esforço para desmoralizá-lo e apresentá-lo como alguma espécie de traidor não encontra nenhuma confirmação nos factos. Toda a entrevista tratou desse aspeto.

Quem queira saber quem, de facto, teve comportamento criminoso e causou dano grave aos EUA, não terá dificuldades para descobrir  – e fará trabalho mais produtivo que o de demonizar quem tanto se arriscou para tocar o apito e alertar as pessoas contra, precisamente, aqueles crimes. Mas, como já disse, e aqui repito, nada disso nos impedirá, nem por um momento, de continuar a informar sobre os muitos casos de espionagem e vigilância interna pela Agência de Segurança Nacional dos EUA que ainda não vieram a público.

 

 

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