Relato de Cristiane, 24 anos, baleada na perna em protesto de SP

24.06.2013 - Redação São Paulo

Relato de Cristiane, 24 anos, baleada na perna em protesto de SP
(Crédito da Imagem: Foto: Protesto em Sp ao lado do Teatro Municipal | Agencia Brasil)

 

O que está contecendo nas ruas? Procurando responder esta pergunta, vamos reproduzir alguns depoimentos de pessoas que estiveram presentes e viveram o drama e a alegria de ir pra rua lutar pelos seus direitos. O depoimento a seguir foi escrito por uma jovem de 24 anos, Cristiane Rahal, que participou de vários protestos em São Paulo, capital

06/06 – Primeiro Ato “Com balas de borracha e gás lacrimogênio. Uma delas acertou a minha coxa

A concentração para o segundo ato contra o aumento da passagem foi em frente ao Teatro Municipal. Muitos policiais acompanhavam a movimentação. Ao longo da manifestação vi algumas pessoas pichando ônibus e praticamente todos os comércios que estavam no caminho. Pichavam coisas do tipo “3,20 é roubo”, “revolução” ou desenhavam o símbolo do anarquismo. Os cartazes e vozes eram praticamente unânimes: contra o aumento da passagem.

Até esse momento não teve repressão policial. Então chegamos na Avenida 23 de Maio, onde haviam algumas barricadas com fogo para bloquear o trânsito. Foi aí que chegou a tropa de choque e iniciou o ataque com balas de borracha e gás lacrimogênio. Uma delas acertou a minha coxa por trás e eu corri para o terminal bandeira com mais dois amigos. Lá havia muita gente que não estava na manifestação e dava pra ver o desespero em seus rostos, pois não entendiam o que estava acontecendo. Muitos manifestantes se dispersaram para dentro do metrô Anhangabaú e uma parte continuou pela 23 de Maio, com parte da tropa indo atrás deles.

11/06 – Terceiro Ato “presenciei a covardia da polícia

O terceiro ato teve sua concentração na Praça do Ciclista. Havia muitos policiais militares acompanhando. Por algumas vezes houve pequenos conflitos com a PM quando a única via desbloqueada da rua da Consolação era invadida pela manifestação. Começou a chover bem forte, mas ninguém pareceu ficar desanimado com isso. Apenas serviu para gritarmos mais alto, pois sabíamos exatamente o porquê de estarmos ali e ninguém ou nada iria nos tirar isso.

Ao chegarmos próximo ao Terminal Parque Dom Pedro, tentaram incendiar um ônibus. O pessoal se afastou e começou a gritar “Desnecessário”. Ao chegarmos ao Terminal, percebemos que estávamos encurralados. Havia muito policial e a tropa de choque tentava nos dispersar com bombas de efeito moral e gás lacrimogênio. Porém, sem sucesso, pois pedíamos calma uns para os outros e muitos portavam vinagre para amenizar os efeitos do gás. Nessa hora, o pessoal era muito solidário e tomávamos conta um do outro, mesmo sem nem nos conhecermos, estávamos juntos em um objetivo único.

Helicópteros sobrevoavam o local. Após bastante tempo que ficamos ali parados ao lado do terminal, começamos a nos dirigir, por outro caminho, para a Praça da Sé. Ao chegarmos lá, presenciei a covardia da polícia. O pessoal que estava mais a diante começou a ser bombardeada com inúmeras bombas de gás lacrimogênio e houve muito corre-corre, conseguiram assim nos dispersar. Estava tudo planejado: não havia nenhum morador de rua, que normalmente estão espalhados pela praça. E, em questões de minutos, desciam vários carros da PM atrás de uma parte dos manifestantes que correram em direção ao Poupatempo.

13/06 – Quarto Ato “Sentíamo-nos como criminosos”

Este foi o ato mais tenso que eu presenciei. Antes mesmo de ter começado, a tensão já tomava conta dos manifestantes. Chegavam mensagens de textos no meu celular e dos meus amigos de que estavam prendendo pessoas que portavam vinagre. Ouvíamos rumores, que depois se confirmaram como verdadeiros, de que a cavalaria estaria presente.

Como já havíamos sido alertados, não levamos o vinagre e, ao entrarmos no metrô Butantã rumo à manifestação, nos calamos e tentamos não dar brecha de que estávamos indo para lá, pois sentíamo-nos como criminosos. Estava sendo criminalizado o simples direito de se manifestar.

A concentração foi em frente ao Teatro Municipal, mas chegamos pela Praça da República, quando as pessoas já tinham começado a andar. Havia muito mais gente, cerca de 20 mil pessoas tinham confirmado presença pelo facebook e, pelo número de pessoas que estavam ali, parecia ser mais ou menos isso.

De repente a tropa de choque chegou e começou a lançar gás lacrimogênio. O ataque foi do nada, não houve depredações ou provocações aos policiais. Simplesmente começaram a lançar várias bombas mesmo com o coro que entoávamos “Sem violência”. Em um momento, motoqueiros comuns avançavam sobre a manifestação tentando passar, possivelmente assustados com as bombas e sem entender o que estava acontecendo e querendo apenas sair dali.

Apesar de resistirmos bastante conseguiram nos dispersar. Eu e meu namorado fomos em direção à Praça Roosevelt, onde houve corre-corre, muitos tropeçaram e as bombas continuavam a vir em nossa direção.

Tive dois amigos que foram detidos e um deles apanhou muito da polícia. Direitos foram violados nesta noite de forma covarde e arbitrária.

17/06 – Quinto Ato “De início,o que vi ali foi algo lindo

Se o ato anterior foi o mais tenso, este foi o mais estranho em que já estive.

Devido à grande repressão policial que teve o ato anterior do dia 13/06, o movimento pela internet cresceu de forma assustadora! Até onde eu verifiquei, eram cerca de 300 mil pessoas confirmadas pelo evento no Facebook.

Vários manuais e dicas para agir contra armas não-letais rolavam pelo Facebook. Havia também muitos grupos que se articulavam para prover ajuda jurídica e médica para quem precisasse. O medo fazia as pessoas se prepararem para uma guerra e queríamos estar prontos para o que nos aguardava.

Mas os vinagres, as máscaras e o medo mofaram nas mochilas. Não havia policial nas ruas, com exceção de alguns poucos espalhados durante a manifestação. Nem sinal da tropa de choque.

De início,o que vi ali foi algo lindo, milhares de pessoas com cartazes, enfim indo para as ruas! Mas, lá pelo meio da manifestação, estava me sentindo infeliz, por algum motivo que só entenderia depois. Fui com o meu namorado e durante toda a manifestação, havia uma vibração diferente, não me sentia parte daquilo como nos atos anteriores, era como se aquelas pessoas voltassem a ser indiferentes uma às outras. Nos demais atos as pessoas se sentiam unidas por um único objetivo, que era a revogação do aumento da passagem. Mas nesse ato, cada um parecia possuir um objetivo. E por várias vezes, a canção “vem pra rua, vem, contra o aumento” era logo abafada pelo hino nacional. Várias pessoas portavam bandeiras do Brasil e estavam com a cara pintada de verde-e-amarelo.

Cheguei a cantar parte do hino, achando aquilo muito estranho e toda vez que tentávamos cantar algo referente ao transporte público, o povo insistia em cantar o hino. Naquele dia achei que isso era apenas felicidade e orgulho do brasileiro por estar enfim indo às ruas, mas logo ia perceber que aquilo era muito mais grave do que parecia.

Ao chegarmos na paulista: nada de PM, apenas um helicóptero sobrevoava o local. Aquela “manifestação” estava irreconhecível. Vi gente bebendo cerveja, coca-cola, fazendo rodinha com os amigos, vários sentados dispersos pelo chão. Aquilo não era mais um protesto, mas sim uma festa. E para comemorar o quê? Tudo! E,o pior, sem ter ganho nada! As pessoas pediam “Contra Corrupção”, “Melhoria na Educação”, “Melhoria na Saúde”, “Não ao PEC37”, “Impeachment  da Dilma”, “Fora Feliciano”, “Fora Renan”… e quase nada sobre a revogação do aumento.

Fomos embora pelo metrô brigadeiro, como quem volta de um “rolê” qualquer. Sem entender o que acabara de acontecer ali.

Não fui ao sexto ato do dia 18/06 e nem no ato-comemoração do dia 20/06.

Por Cristiane Rahal, 24 anos

Nota da Redação: Cristiane passa bem apesar da bala e do gás lacrimogênio. A tarifa foi reduzida depois da sequência de protestos.

Leia também: Empresários são poupados na redução de tarifas no RJ, SP e outras cidades

 

Categorias: Ámérica do Sul, Direitos Humanos, Internacional, Opinião
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