Centenas de pessoas aguardam o julgamento, desde o sábado (01) nas proximidades do forte, em defesa do militar, considerado um herói pelos manifestantes e defensores da liberdade de expressão. Muitos cartazes dos manifestantes pedem a premiação de Manning ao Prêmio Nobel da Paz – ele é um dos 259 indicados.

Entre o material vazado estão vídeos de ataques aéreos com vítimas civis, mais de 250 mil correspondências diplomáticas de conteúdo sigiloso de quase todas as representações diplomáticas estadunidenses com o Departamento de Estado e relatórios militares das guerras do Iraque e do Afeganistão

 

O julgamento

Há três anos detido, Manning, que tem apenas 25 anos, já se declarou culpado de dez das 22 acusações contra ele, todas consideradas mais leves. A principal acusação desse julgamento é a de “conluio com o inimigo”, violação ao artigo 104 do Código Unificado da Justiça Militar (principal legislação da justiça militar dos EUA), o que lhe poderá valer uma condenação de prisão perpétua.

Ao longo do julgamento, deverão ser ouvidas 150 testemunhas. Para que Manning seja condenado por conluio com o inimigo, a acusação terá de provar que o soldado sabia que os documentos vazados seriam vistos por inimigos dos EUA. A juíza já anunciou que 24 pessoas testemunharão a portas fechadas, entre elas vários embaixadores, funcionários do Pentágono e especialistas em inteligência.

 

A acusação

O governo afirma que o soldado colocou conscientemente os EUA em perigo ao vazar as informações, às quais ele teve acesso quando trabalhou perto de Bagdá como analista de inteligência militar entre novembro de 2009 e maio de 2010, quando foi preso.

“O soldado Manning foi treinado para recolher informações sensíveis, e usou esse treino para pôr em causa nossa confiança, para prejudicar sistemática e indiscriminadamente os EUA em tempo de guerra”, acusou o capitão do Exército Ashden Fein, em uma das audiências preliminares.

No caso EUA vs. Bradley Manning, a acusação afirmou que apresentará provas de que os documentos vazados foram vistos pela rede terrorista Al Qaeda.

Uma das 24 testemunhas sigilosas será um dos militares que participou da operação em maio de 2011 que culminou com a morte do líder da Al Qaeda, Osama Bin Laden, no Paquistão. Ele deverá contar quais documentos divulgados pelo Wikileaks foram encontrados na casa de Bin Laden, mostrando que as informações chegaram às mãos inimigas.

 

Defesa

Em uma das audiências prévias do julgamento, realizada em 28 de fevereiro, Manning admitiu ter tornado as informações públicas. Ele afirma que uma das razões que o motivaram a tomar a iniciativa foi o caso conhecido como “Assassinato Colateral”, durante a guerra no Iraque, que culminou na morte de um jornalista da Reuters, seu motorista e outras pessoas no bairro de Nova Bagdá pelo exército estadunidense.

Eles foram mortos por um helicóptero apache que atacou indiscriminadamente civis. A Reuters tentou, sem sucesso, obter o vídeo através da Freedom Information Act, lei que determina a abertura de arquivos do governo, mas o material só veio a público através do Wikileaks.

Ele nega ter ajudado inimigos do país. “Acreditei que se o público, em particular o público estadunidense, tivesse acesso à informação, isso poderia dar início a um debate sobre o papel dos militares e da nossa política externa em geral”, disse, na ocasião.

“Fiquei perturbado com o tratamento que deram às crianças feridas”, referindo-se a duas crianças que ficaram gravemente feridas no episódio. “Os que estavam no vídeo não pareciam se preocupar com o valor da vida humana, ao se referirem a elas (às vítimas) como bastardos”.

Outra revelação importante feita por Manning é que, antes de procurar o Wikileaks, ele chegou a ligar para o mais tradicional jornal estadunidense, o The New York Times, gravando mensagens e deixando contatos, além de explicar o que tinha em mãos. E também contatou seu principal concorrente, o The Washington Post. Simplesmente não obteve respostas.

Foi quando procurou o Wikileaks e manteve uma conversa com um internauta identificado como “OX”, provavelmente o jornalista australiano Julian Assange, fundador do site. Ele também tentou contatar o site progressista estadunidense Politico.com. Porém, o mau tempo teria impedido o contato. David Combs, advogado de Manning, denunciou a lentidão com a qual o soldado está sendo julgado, assim como o sigilo que envolveu as audiências preliminares e a cobertura discreta dos meios de comunicação.

 

Maus tratos

Logo após sua detenção, no Iraque, Manning foi levado para a prisão militar de Quantico, Virginia, onde permaneceu na maior parte do tempo sendo monitorado pelos guardas a cada cinco minutos. Segundo sua defesa, os militares estadunidenses, por temor de que Manning se matasse, o forçaram a dormir com o rosto voltado para uma lâmpada de forte luminosidade e o impediram de se apoiar na parede durante o dia. Teve ainda suas roupas e óculos confiscados, após se irritar com os carcereiros.

Após críticas internacionais às condições da detenção, Manning foi transferido em 2011 para a prisão militar de Fort Leavenworth, no Texas. Em março de 2012, após uma investigação de 14 meses, o relator especial da ONU sobre tortura, Juan Mendez, acusou formalmente o governo dos EUA pelo tratamento “cruel, desumano e degradante” dado a Manning. Quase um milhão de pessoas assinaram uma petição para acabar com o isolamento do soldado.

Se for condenado, Manning terá descontados 112 dias de sua pena em razão dos maus tratos.

 

Protestos

Nathan Fuller, de 24 anos, porta-voz da rede de apoio a Bradley Manning, que organizou a manifestação em Fort Meade , compareceu uma vez por mês ao local no último ano para participar das audiências, tomar notas e publicá-las.

“Ele arriscou muito por nós”, disse Fuller. “Ele arriscou sua vida e sua liberdade para nos informar sobre o que o governo está fazendo em segredo. Por isso, merece nosso apoio e precisamos defendê-lo”, argumentou. “Os militares não fornecem anotações, decisões ou propostas ao público e à imprensa. Por isso, temos de fazer nossas próprias anotações”, disse.

“Esperamos que o interesse continue por todo o verão [Hemisfério Norte], a vigília e o apoio, já que o processo está previsto para durar até meados de agosto”. Mais manifestações estão previstas para junho e julho.

O assistente social Peter Swords, integrante do Syracuse Peace Council, que veio de ônibus ao Fort Meade, protestou contra as guerras no Iraque e no Afeganistão. “Comparado com os crimes de guerra e o desrespeito às leis internacionais por parte do governo Bush, os quais continuam até agora impunes, Bradley nos fez um grande favor”, afirma.

Os manifestantes se perguntam o quanto conseguirão saber a respeito do processo, já que a cobertura é difícil. O tribunal não permite gravações de áudio ou vídeo, telefones celulares são proibidos.

 

Do Opera Mundi publicado pelo Brasil de Fato