Consequências humanitárias das armas nucleares- Fórum da Sociedade Civil

04.03.2013 - Tony Robinson

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Consequências humanitárias das armas nucleares- Fórum da Sociedade Civil
(Crédito da Imagem: Jana Jedličková)

O primeiro dia da parte formal da Conferência do ICAN sobre as consequências humanitárias do uso de armas nucleares acabou hoje com um fluxo implacável de informação extraordinária a respeito de que inclusive um intercâmbio nuclear limitado deixaria apenas uma fração da humanidade sobrevivente, e que provavelmente desejaria estar morta.

De acordo com os organizadores, mas de 440 participantes de 70 países e de todos os continentes se encontram reunidos em Oslo para participar do Fórum, organizado pela Campanha Internacional contra as Armas Nucleares.

A sessão da manhã abriu com apresentações incluindo desde Física básica até temas de ativismo, conferência intergovernamental e religião. O Cardeal John Onaiyekan, arcebispo de Abuja, Nigéria, ampliou o espectro da imoralidade do uso de armas nucleares para a imoralidade do uso de qualquer arma.

Gry Larsen, Secretária Estatal no Ministério de Assuntos Exteriores, falou sobre a função do Governo norueguês de organizar o Fórum Intergovernamental e a necessidade de fortalecer o envolvimento da sociedade civil. “Sem a sociedade civil não conseguiremos nossos objetivos,” disse.

Referindo-se à Conferência Intergovernamental , ela atualizou para todos a notícia de que agora são 132 os países registrados para participar na segunda e terça-feira, e com relação ao boicote dos países do P5, Conselho de Segurança da ONU, citou o ministro de assuntos exteriores de Noruega que disse, “Seus argumentos não foram muito convincentes.”

A verdadeira meta da conferência, as consequências humanitárias, foi brutalmente apresentada em plenário na sessão da tarde, principalmente através dos depoimentos desgarradores de dois sobreviventes da bomba. Rev. Yutama Minabe, cujos pais e irmão maior sobreviveram à bomba de Hiroshima -enquanto Minabe nasceu pouco depois- explicou sobre o estigma, o silêncio e a discriminação que os sobreviventes tiveram que sofrer, além do aumento dos índices de câncer e mortalidade. Explicou como sua família provavelmente só sobreviveu porque seu pai tinha sido forçado a trabalhar para o exército e tinha, portanto, acesso a alimentação e tratamento.

Terumi Tanaka estava em Nagasaki e sobreviveu à bomba. Ele contou o horror dos primeiros dias após a explosão; os mortos, os incêndios, o rio cheio de corpos e o desespero das pessoas que buscavam em vão seus seres queridos. Depoimento verdadeiramente emotivo que deveria se fazer ouvir a todos os políticos do mundo.

Depois foi a vez dos cientistas falarem. Ouvimos surpresos as apresentações de Andy Haines, da Escola de Londres de Higiene e Medicina Tropical, Alan Robock da Universidade de Rutgers, Ira Helfand da Físicos para a Prevenção de Guerra Nuclear Internacional, e Rianne Teule, de Greenpeace Internacional.

As apresentações foram brilhantes, mas devastadoras. Um pequeno intercâmbio de umas quantas bombas entre a Índia e o Paquistão, por exemplo, jogaria na atmosfera suficiente fumaça para bloquear o sol por uma década, principalmente no Hemisfério norte, reduziria a temperatura global para criar um inverno nuclear e causaria fome para milhões.

Notem que os estoques de alimento globais poderiam provavelmente acabar em 60 dias. Seria inevitável a inanição para aqueles países e inclusive para outros que não foram bombardeados.

Dr.helfand explicou as consequências duras de uma bomba que caísse sobre Nova York. Em um raio de 3km ao redor do ponto zero, as temperaturas seriam maiores do que na superfície do sol após um milionésimo de segundo, na zona dos 3 km seguintes a onda de choque causaria destruição e morte de todos os seres vivos, e os 3 km seguintes experimentariam uma fireball quando todo material inflamável instantaneamente entraria em combustão e absorveria todo o oxigênio disponível. Além da devastação secundária, mas, todavia significativa. Estes seriam os efeitos imediatos, sem considerar o envenenamento de radiação subsequente e os efeitos no clima.

Dr.teule, de Greenpeace, ligou o tema das armas nucleares ao da energia nuclear e destacou problemas de estigmatização de radiatividade que as pessoas estão enfrentando como consequência do fornecimento de combustível nuclear e do uso de materiais radiativos nas guerras no Oriente Médio.

Os cientistas têm sido enfáticos ao acentuar que seus modelos eram apenas modelos, mas seus números foram sempre subestimados sobre o que poderia ser a realidade, e eles constantemente têm desafiado os colegas a encontrarem erros em seus modelos ou trazer informação mais refinada. Mas os resultados são sempre iguais: a Terra experimentará um inverno nuclear, os cultivos falharão por anos, e a humanidade será levada à beira do desastre. E isso considerando que em seus modelos eles trabalham com a detonação de uma fração pequena das 19.000 ogivas nucleares do mundo.

No intercâmbio, Dr.helfand colocou um ponto interessante: há 2 gerações de pessoas que têm nascido após o fim da Guerra Fria e não têm a informação sobre o tema nuclear, e as gerações anteriores a este francamente gostariam de esquecer o horror de tudo, após o medo dos anos 60, 70 e 80. Cabe às gerações mais jovens informar-se e empurrar o desarmamento.

Um elemento não tocado, mas que parece claramente apropriado neste fórum, é o fato que qualquer ataque nuclear causaria tão terríveis consequências ao fornecimento de eletricidade e combustível, que após um momento as estações de energia nuclear começariam a esquentar produzindo a fusão de um reator nuclear e explodiriam. Acrescenta que em um inverno nuclear além da carência de sol, a atmosfera seria radiativa.

À luz de toda esta informação fica claro que não há nenhuma justificativa, sequer para possuir uma arma nuclear. Seja planejada ou por acidente, uma guerra nuclear não só afeta os bandos em guerra, também devasta a humanidade e todas as outras formas de vida no planeta. A questão a respeito de se estas armas são legais ou não torna-se um ponto discutível.

O boicote de países do P5, portanto, não pode ser visto como outra coisa além da atitude de um menino que cobre seus ouvidos porque não quer escutar a verdade sobre a hora de dormir. O complexo militar-industrial-econômico-meios de comunicação-governo está tirando incríveis benefícios da indústria de armas nucleares e simplesmente não está interessado em ouvir estes argumentos.

Há, portanto, a esperança, inclusive com a ausência do P5, de que o resto do mundo seja perturbado a tal ponto pelas descrições gráficas das consequências humanitárias, que farão movimentos unilaterais para negociar um tratado para abolir as armas nucleares e o P5 não terá outra escolha além de estar de acordo com a aspiração da humanidade.

Categorias: Internacional, Paz e Desarmamento

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