Na loteria nuclear, há 6 trilhões de pessoas jogando e milhares delas vão perder

18.04.2011 - Cracóvia - Mark Ozanne

O Mundo sem Guerras e sem Violência, organização humanista dedicada a lutar, entre outras questões, contra as armas nucleares, hoje se manifesta contra a energia nuclear, citando o desastre de Fukushima como uma das diversas razões pelas quais considera urgente estabelecer planos que contemplem um período de 10 anos para desativar o total de 442 plantas operando atualmente no planeta, substituindo-as velozmente pelo desenvolvimento de fontes de energias renováveis que não produzam emissões de carbono, financiadas pela redução do gasto militar.

A uma semana do 25º aniversário de Chernobyl, a organização Mundo sem Guerras publicou pela primeira vez sua posição oficial neste campo.

“Nossa prioridade foi, e sempre será, o tema das guerras e da violência, especialmente a erradicação das armas nucleares contra o uso das quais tentamos criar o máximo de consciência durante a Marcha Mundial pela Paz e Não Violência durante o ano de 2009,” disse Tony Robinson, porta-voz internacional da organização, “mas sentimos que não podemos permanecer em silêncio com relação ao assunto da energia nuclear, quando começou o desastre de Fukushima no mesmo momento em que acontecia nosso encontro da Equipe Coordenadora Mundial, que aconteceu em Madri, no último dia 11 de março.

Foi inacreditável estudar a questão da energia nuclear e ver o tremendo escândalo que existe por trás da fachada que a indústria nuclear apresenta.

Vemos que em 1959, a OMS assinou um acordo com a OIEA para que a OMS não emitisse nenhum relatório sobre os efeitos da radiação na saúde humana, sem que tivesse sido previamente acordado com a OIEA. É como delegar à indústria do tabaco a emissão de informe sobre os efeitos do hábito de fumar sobre a saúde humana!

Assim, embora o resto do mundo acadêmico estime que a incidência de mortalidade de Chernobyl tenha sido de cerca de dezenas de milhares a um milhão de pessoas, informes oficiais da ONU assinalam uma incidência de 47, mais uns poucos milhares de casos a mais com câncer de tireóide, que o governo da Rússia podia ter prevenido com pílulas de iodo. Vimos que os informes oficiais da ONU sobre o desastre de Chernobyl não consideraram nenhum entre as centenas de estudos sobre os efeitos do acidente na saúde que foram escritos em russo, bielorusso e ucraniano. Quero dizer, e sejamos bem claros, que estamos falando das Nações Unidas com todos os recursos de tradução a seu dispor, descontando todos os ‘papers’ que não foram escritos em inglês! É demais!”

Também se podem estabelecer comparações com o Protocolo de Montreal sobre Substâncias que Danificam a Camada de Ozônio. “A indústria química brigou com unhas e dentes contra a assinatura do Protocolo de Montreal, constantemente levantando dúvidas com relação à ciência aplicada na investigação de tal questão. Felizmente para a camada de ozônio, a indústria química perdeu. O problema é que a indústria nuclear é muito mais forte e está apoiada pela indústria militar que necessita de reatores e do enriquecimento de urânio para fabricar suas armas com plutônio e urânio.”

Também destaca o posicionamento que revelou a fraude econômica da energia nuclear. “A indústria nuclear nos fez acreditar que a energia nuclear é uma energia barata, quando claramente não é, se somamos todos seus custos. Tudo o que a indústria usa – os custos de instalação, os custos do urânio, da água, os custos de segurança e os da deposição dos resíduos – são pagos pelos impostos e isso é mantido em segredo por parte de diversos departamentos dos estados. Se tudo isso fosse somado e se adicionasse o custo da eletricidade que a indústria nuclear necessita, simplesmente não poderia ser negócio. Todo negócio que não pode cobrir seus custos fecha – é assim que o mercado obriga a trabalhar. Se tivesse acontecido em qualquer outra indústria, as forças do mercado teriam efetivamente eliminado esse setor.”

O posicionamento também tenta desmascarar a segunda fraude da indústria nuclear, que insiste em que se trata de energia limpa. “Evidentemente, quando as plantas estão operando, não geram carbono, mas essa é só uma parte da equação da limpeza. Há que se considerar todos os componentes da produção energética e a indústria mineira sem dúvida não é uma indústria que não gera emissões de carbono. Além disso, como se pode ignorar as toneladas de resíduo nuclear geradas no processo de fabricação da energia? E essas empresas não podem dispor adequadamente dos resíduos nucleares. Queremos acreditar que se trata de uma indústria limpa? Não, essa mensagem já não funciona.”

Um ponto chave da segurança da energia nuclear está apoiado na quantidade aceitável de exposição à radioatividade. “Os efeitos da radioatividade são acumulativos e existe material radioativo em todo o nosso redor em quantidades pequenas. É um ‘substrato’ de radiação e todos temos isso dentro. Inclusive, dormindo na cama perto de outra pessoa, você se expõe a minúsculas quantidades de radiação que provêm do outro! O dano causado pela radioatividade é acumulativo e quanto mais material radioativo coloquemos no meio ambiente, mais danos ocorrerão devido a essa acumulação. Esse dano se manifestará como câncer, mas não apenas assim. Estudos feitos com aqueles que tiveram que limpar Chernobyl (mais de 800.000 pessoas) demonstram que os índices de mortalidade e enfermidade foram muito maiores que os de outros grupos de pessoas.

Mas desde 1945, a atividade humana elevou constantemente o nível de radiatividade no meio ambiente, primeiro através de testes de armas nucleares, e depois devido a desastres como os de Three Mile Island, Chernobyl e agora Fukushima. Estamos literalmente jogando na loteria com nossa saúde e com a saúde de todas as formas de vida existentes no planeta. Mas essa loteria funciona ao inverso. Nas loterias, milhões de pessoas compram um ingresso e um ou dois ganham. Na loteria nuclear, há 6 trilhões de pessoas jogando e milhares delas vão perder, e estas pessoas estarão dispersas por todo mundo (mesmo considerando que a maioria será do Hemisfério Norte). Hoje em dia, não há modo de relacionar o câncer na Alemanha com o desastre de Chernobyl. O único que se pode fazer é ver um incremento estatístico que aumenta com o tempo. Isso também joga a favor da indústria nuclear, que insiste na necessidade de contar com 100% de provas antes de estabelecer tal relação e assumir sua responsabilidade.

É obvio de que se trata do mesmo jogo que a indústria do tabaco jogou tão exitosamente durante décadas, negando a possibilidade de ter alguma responsabilidade sobre o câncer.”

Tudo isso levou o Mundo sem Guerras a se pronunciar contra a energia nuclear, mas apenas a energia nuclear produzida nas plantas atuais. “A ciência está procurando produzir energia por meio da fusão nuclear, oposta ao processo de fissão usado hoje em dia. A fusão permite que o sol seja quente. Enquanto a energia nuclear atual é incompatível com a necessidade humana de saúde e segurança, acreditamos que a ciência deveria continuar investigando a fusão para ver se poderia implementá-la efetivamente e sem riscos. Infelizmente, até hoje, as únicas reações de fusão bem-sucedidas que produziram mais energia que a necessária para começar a reação foram aquelas que acontecem em armas nucleares. Dessa maneira, fica claro que qualquer desenvolvimento de fusão terá que ter consciência em relação à necessidade de não produzir os elementos usados pelas bombas.”

Por fim, o Mundo sem Guerras considera que os executivos da TEPCO e os membros do governo Japonês deveriam ser julgados pelo delito de negligência criminosa. “Quem quer que tenham sido os idiotas que consideraram uma boa idéia construir reatores nucleares justamente nas zonas onde estão localizadas as falhas demonstradas pelos terremotos, e que o tenham feito sem suficiente proteção anti-tsunami, realmente estão em condições de ganhar o prêmio à negligência criminosa. E esse prêmio deveria ser uma temporada muito longa na prisão.”

A íntegra do posicionamento pode ser lida em:
www.worldwithoutwars.org

Categorias: Ecologia e Meio Ambiente, Europa, Internacional

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