TEATRO
Por Rogério Weber
O público carioca tem as últimas semanas para acompanhar a trilogia cênica Grande Sertão: Veredas – 70 anos de travessia, em cartaz até o dia 24 de abril no Teatro Glauce Rocha.
Com apresentações de quarta a sexta, às 19h, o projeto propõe uma imersão teatral na obra de João Guimarães Rosa, considerada uma das mais importantes da literatura brasileira do século XX.
Idealizada e interpretada por Gilson de Barros, com direção de Amir Haddad, a trilogia apresenta três peças que percorrem diferentes caminhos narrativos do romance publicado em 1956. A montagem aposta em uma encenação minimalista, centrada na oralidade e na força do texto original, aproximando o público da complexidade e da poesia da obra.
No palco, Gilson de Barros dá vida ao ex-jagunço Riobaldo, personagem que revisita sua trajetória marcada por conflitos no sertão e por sua relação com Diadorim — figura central da narrativa, cuja identidade desafia convenções de gênero e amor, especialmente no contexto da década de 1950. A adaptação evidencia, além das questões existenciais, a dimensão afetiva e política do romance.
“Grande Sertão: Veredas está entre os 100 livros mais importantes do mundo no século XX. É uma obra que ultrapassa o romance e dialoga com questões universais do ser humano”, destaca o ator, que foi indicado ao Prêmio Shell em 2023 pelo trabalho.
A encenação, concebida por Amir Haddad — fundador do grupo Tá na Rua, reconhecido como Patrimônio Imaterial do Rio —, aposta na simplicidade como linguagem. Sem grandes recursos de luz ou som, o espetáculo se constrói a partir da relação direta entre ator e plateia, como se Riobaldo narrasse sua história a cada espectador.
“O personagem conta sua vida como se estivesse na varanda de casa, falando diretamente com quem assiste. Essa escolha cria uma experiência íntima e potente”, explica Gilson.
Com mais de 15 mil espectadores ao longo de sua trajetória, incluindo apresentações no Brasil e no exterior, o projeto tem sido bem recebido por público e crítica. Segundo o ator, a proposta também busca desmistificar a ideia de que a obra de Guimarães Rosa é inacessível.
“A gente apresenta o Guimarães Rosa pelo afeto, pela escuta, mostrando que é possível compreender e se emocionar com a história”, afirma.
Além das apresentações, o projeto inclui atividades formativas como oficinas, exposições e rodas de conversa, realizadas em universidades públicas e instituições como o Colégio Pedro II, ampliando o diálogo com novos públicos.
Com ingressos a preços populares, chegando a R$ 40, a temporada reforça o compromisso com o acesso à cultura em um dos espaços mais tradicionais da cena carioca, localizado no centro da cidade.
A travessia está chegando ao fim — mas ainda há tempo de atravessar o sertão proposto por Guimarães Rosa e revisitado no palco.







