NOTA PRETA
Por Mauro Viana
Este artigo investiga a obra do compositor Silas de Oliveira e a atuação da Velha Guarda Show do Império Serrano como práticas de reconfiguração de fronteiras culturais, raciais e simbólicas.
RESUMO
Ancorado nas teorias de Étienne Balibar (fronteiras móveis), Michel de Certeau (táticas do cotidiano) e Renata Summa (invenção de lugares), o estudo compreende o samba do Morro da Serrinha (Rio de Janeiro) não apenas como expressão artística, mas como campo de disputa política e dispositivo de comunicação comunitária. Por meio de revisão bibliográfica crítica e pesquisa de campo, analisa-se como essa musicalidade opera como cartografia afetiva, construindo memória coletiva, projetando pertencimento e desafiando representações hegemônicas do espaço urbano. Conclui-se que a performance da Velha Guarda constitui um “museu vivo” e uma pedagogia insurgente, reinscrevendo a cultura negra na esfera pública e acadêmica.
Palavras-chave: Silas de Oliveira; Velha Guarda Show do Império Serrano; Fronteiras móveis; Samba; Comunicação comunitária; Morro da Serrinha.
1 INTRODUÇÃO
O roteiro da pesquisa Velha Guarda Show: Museu Vivo da Obra de Silas de Oliveira sugere um mergulho nas obras de Étienne Balibar (Politics and the Other Scene), Michel de Certeau (A invenção do cotidiano) e Renata Summa (Challenging the Representation of Ethnically Divided Cities). Trata-se de autores que, embora provenientes de diferentes tradições intelectuais, compartilham uma preocupação comum: compreender como os espaços sociais, urbanos e simbólicos são continuamente construídos, disputados e ressignificados.
A partir de Balibar (2002), depreende-se a ideia de que as fronteiras não são apenas linhas fixas que delimitam territórios geográficos, mas processos dinâmicos que atravessam corpos, instituições e práticas culturais. Certeau (1998), por sua vez, enfatiza o cotidiano como lugar privilegiado de resistência, onde sujeitos aparentemente “anônimos” exercem táticas criativas para contornar as estruturas de poder e produzir novos sentidos para a vida coletiva. Já Summa (2021) problematiza as representações das cidades etnicamente divididas, mostrando que os territórios urbanos não podem ser compreendidos como espaços homogêneos, mas sim como arenas de disputas permanentes, onde identidades, memórias e narrativas se sobrepõem e se confrontam.
Essas diferentes abordagens convergem para a compreensão do espaço como prática social, política e simbólica. É nesse ponto de encontro teórico que se ancora o presente artigo, o qual toma como estudo de caso a musicalidade de Silas de Oliveira e da Velha Guarda Show do Império Serrano. Ao trazer para o centro da reflexão a cultura do samba do Morro da Serrinha e seus desdobramentos culturais, busca-se demonstrar que a produção de conhecimento de matriz africana não se limita à dimensão estética, mas constitui-se em campo de disputa simbólica, território de memória coletiva e prática de invenção de lugares. A cultura do Morro da Serrinha, nesse contexto, é entendida como linguagem comunicacional complexa, capaz de articular resistências, construir sociabilidades e projetar futuros possíveis. Nesse sentido, opera como uma espécie de cartografia afetiva que, ao mesmo tempo em que compartilha a presença histórica da população negra na cidade do Rio de Janeiro, inscreve novas possibilidades de pertencimento e de visibilidade social.
Nessa linha de reflexão, a obra de Silas de Oliveira e a trajetória da Velha Guarda Show do Império Serrano ganham relevância por evidenciarem como a arte pode se tornar um dispositivo político de reconfiguração de fronteiras, sejam elas territoriais, raciais ou simbólicas. Esse argumento significa também reconhecer o caráter transdisciplinar das mídias criativas. Por esta razão, a análise aqui proposta se insere no cruzamento entre comunicação, estudos culturais, sociologia urbana, história e antropologia, reforçando a necessidade de metodologias que deem conta da complexidade das práticas culturais contemporâneas.
Assim, compreender a obra de Silas e a atuação da Velha Guarda Show não apenas como memória. De fato, tanto a produção artística de Silas de Oliveira quanto a performance viva de resistência da Velha Guarda Show do Império Serrano, enquanto invenções culturais, permitem localizar o Morro da Serrinha como fronteira cultural móvel, constantemente atualizada por práticas sociais, estratégias de sobrevivência e memórias coletivas. No que tange à metodologia, este trabalho combina revisão bibliográfica crítica com pesquisa de campo. A revisão bibliográfica vem sendo conduzida a partir de autores clássicos e contemporâneos que problematizam as relações entre espaço, cultura e comunicação, com destaque para Balibar (2002), Certeau (1998), Summa (2021), Sodré (1998; 2014), Paiva (1998) e Valença (2017). Esse arco teórico se articula com entrevistas semiestruturadas, análise de registros sonoros e visuais e observação participante.
Os encontros com a Velha Guarda Show do Império Serrano têm permitido entrecruzar teoria e prática, ampliando a compreensão dos sujeitos de estudo em suas múltiplas perspectivas. Vale destacar que os objetivos da pesquisa se desdobram em três eixos principais: (1) compreender de que maneira a obra de Silas de Oliveira e a trajetória da Velha Guarda Show do Império Serrano se constituem como práticas de resistência cultural e política; (2) analisar como o samba, enquanto linguagem comunicacional e cartografia afetiva, opera na construção de memórias coletivas e na reconfiguração de fronteiras simbólicas e territoriais; e (3) refletir sobre a contribuição do samba para o campo das mídias criativas, evidenciando seu caráter transdisciplinar e seu potencial como prática de invenção de lugares e de sociabilidades.
2 AS PONTES METODOLÓGICAS ENTRE O VALE DO PARAÍBA, A SERRINHA, OSWALDO CRUZ E MADUREIRA
Antes de completar duas décadas, o século XXI redimensionou as relações sociais, culturais e políticas em diversas partes do mundo. Esse redimensionamento tem como elemento central a digitalização das relações socioculturais, que reconfigura não apenas os modos de comunicação, mas também os processos de construção da memória coletiva, da identidade e da sociabilidade urbana. Nesse contexto, as expressões culturais tradicionais — entre elas a cultura do Morro da Serrinha — convivem com fluxos digitais globais, mas preservam sua força como práticas de resistência e invenção cotidiana.
No apagar das luzes do século XX, em 7 de maio de 1999, o Espaço Multimídia do Museu da República, no bairro do Catete, Rio de Janeiro, sediou o projeto de jornalismo comunitário República do Samba. Sua proposta inicial era refletir sobre a construção do espaço como prática social, política e simbólica, antecipando debates que se tornariam centrais no campo das mídias criativas e das ciências sociais no século XXI. Por esta razão, na linha de frente está a materialidade dos conceitos de Balibar (2002), Certeau (1998) e Summa (2021) ao caminhar, paralelamente, à estrutura político-social da Velha Guarda Show do Império Serrano. Ora, a postura do grupo musical envolve confrontar as fronteiras culturais e raciais por meio da obra de Silas de Oliveira. Nessa esfera, entende-se postura como “tática” (Certeau, 1998) dos sujeitos anônimos de espaços periféricos — Vale do Paraíba, Morro da Serrinha de Madureira e Oswaldo Cruz — como invenções de lugares musicais.
Trata-se, portanto, de simbologia cartográfica na qual a região de Madureira está na fronteira com a cidade de Nova Orleans, nos Estados Unidos. Tal aproximação simbólica não é casual: assim como Nova Orleans é o berço do jazz e da cultura afro-americana, Madureira e seus arredores se consolidaram como epicentro da cultura do samba, território de memória, resistência e criatividade. Não por acaso, o conhecido subúrbio central é o ninho das escolas de samba Império Serrano e Portela, cujas ancestralidades estão assentadas no Morro da Serrinha. Lugar de manifestação cultural e religiosa de sujeitos da etnia africana bantu, o Morro da Serrinha nos legou, entre outros artistas, aquele que se tornaria “maior compositor de samba-enredo de todos os tempos: Silas de Oliveira” (Valença; Valença, 2017, p. 105).
Em sua obra, nota-se o que Balibar (2002) conceitua como cidadania diferencial: uma forma de pertencimento que não se funda na homogeneidade imposta pelo Estado-nação, mas na multiplicidade de práticas culturais. O Mestre Silas de Oliveira, nesse sentido, vive não apenas o tempo de sua própria vida, mas permanece presente nas pessoas celebrantes do samba (Fernandes, 2001) da Velha Guarda Show do Império Serrano. De fato, a Velha Guarda Show do Império Serrano performa uma instituição móvel ao comunicar saberes políticos para além do território nacional. Como ensina Balibar (2002, p. 75), “as fronteiras operam nos corpos, nas línguas e nas instituições, sendo constantemente reconfiguradas por processos históricos, econômicos e por sujeitos”. A Velha Guarda, ao se apresentar em palcos internacionais, traduz essa noção em prática cultural: rompe barreiras físicas e simbólicas, desloca fronteiras raciais e projeta no mundo uma memória afro-diaspórica enraizada na Serrinha.
No livro A invenção do cotidiano, Michel de Certeau (1998) aproxima-se dos conceitos de Balibar contidos em Politics and the Other Scene ao demonstrar que “contar (e cantar) uma história é, também, inventar um lugar”, porque a narrativa desenha mapas simbólicos, cria sentidos e produz espacialidades. Nessa mesma linha de pensamento, sua noção de “táticas” (Certeau, 1998) descreve formas de resistência que, embora não enfrentem diretamente o poder instituído, o contornam e subvertem seus usos. O samba de Silas de Oliveira, aqui, se converte em tática por excelência ao cantar o cotidiano da Serrinha. Além disso, opera politicamente ao reinventar o espaço urbano ao qual são atribuídos significados que escapam à lógica hegemônica da cidade formal.
Nessa direção, os sujeitos celebrantes do samba (Fernandes, 2001) do bairro de Madureira materializam o conceito de inventing places (Summa, 2021) por meio da contestação cotidiana das representações espaciais dominantes. Em Challenging the Representation of Ethnically Divided Cities, Renata Summa (2021) demonstra como os residentes de cidades como Nicósia, Mostar e Belgrado desafiam discursos fixos sobre identidade, território e pertencimento. Ao adaptarmos essa conceituação para as fronteiras étnico-sociais da Serrinha, constatamos que a teoria se encaixa em diferentes modalidades de disputa. O espaço urbano, nesse caso, não é mero reflexo de divisões sociais preexistentes, mas palco de resistência estética, política e afetiva. Por isso, Summa (2021, p. 12) “aponta para a necessidade de pensar os lugares não como entidades fechadas, mas como construções relacionais, atravessadas por memória, conflito e desejo”.
Essa política de contestação estruturou a Velha Guarda Show do Império Serrano, por meio da obra de Silas de Oliveira, como plataforma identitária de Madureira. Nesse ponto, importa notar que a mediação da Velha Guarda não se limita a preservar tradições, mas funciona como força pedagógica, impulsionando novas gerações a mergulhar na história do território para reinscrever o passado no presente. Assim, ao “inventar lugares” (Summa, 2021), os sujeitos reconfiguram os significados da cidade e criam fissuras nos regimes de visibilidade estabelecidos. Aqui, o significante “fissura” assume sentido de estopim em meio à guerra cultural, como resposta de parte da comunidade discursiva hegemônica. No limite, a disputa é alimentada por veículos de comunicação corporativos que frequentemente resistem em admitir a centralidade da nação bantu no redesenho constante das fronteiras socioculturais.
Contra-hegemonicamente, os talentos do Morro da Serrinha construíram, por meio da cultura do samba, sua própria plataforma de agregação social. Essa firmeza das vozes da Serrinha — no que diz respeito à difusão e promoção das identidades locais — resulta, ao longo de décadas, no constante processo de reexistência da cultura da Serrinha. Embora a cultura do samba do Morro da Serrinha ainda se alicerce em bases associativas, o projeto da Velha Guarda Show do Império Serrano exerce papel central não apenas na vida comunitária, mas também no percurso acadêmico de pesquisadores.
A trajetória da pesquisadora Rachel Valença é um exemplo emblemático: moradora de Brasília nos anos 1970, Valença descobriu a verde e branco de Madureira por meio de um pequeno bloco do bairro da Ceilândia. Nos anos 1980, ao voltar a residir no Rio de Janeiro, no bairro de Laranjeiras, teve contato direto com integrantes da Escola de Samba Império Serrano. Um deles chama-se Cizinho. Ele faz parte da galeria dos grandes mestres-salas da escola que nasceu do racha da agremiação conhecida como Prazer da Serrinha. Ao lado de Paulo Omar e Lelei Sabino, Cizinho é um dos coordenadores da ação local chamada Baluartes de Turiaçu. Não por coincidência, os três baluartes são discípulos de pessoas ilustres da verde e branco de Madureira. O trio segue os ensinamentos de Mano Elói, Tia Eulália, Vó Maria, Silas de Oliveira, Mano Décio, Dona Ivone Lara, Beto Sem Braço, Seu Darcy do Jongo, Mestre Faísca, Jorginho do Império e Arlindo Cruz. Em tradução livre, podemos concluir que os Baluartes de Turiaçu, assim como a Velha Guarda Show do Império Serrano, são extensões do “campo de disputa simbólica, onde a resistência não se dá apenas por confronto, mas pela criação de novos sentidos e usos” (Summa, 2021, p. 18).
3 COTIDIANO, ESPACIALIDADES E FRONTEIRAS NA MUSICALIDADE DA SERRINHA
Em razão dos restritos espaços midiáticos reservados à cultura do Morro da Serrinha e, por extensão, à Velha Guarda Show do Império Serrano, a pesquisa em curso se propõe a problematizar a geografia carioca do samba (Vianna, 2007) como esfera simbólica. Se o autor que mapeou a geografia cultural do samba partiu da Praça Onze e seguiu pelos bairros do Estácio, Lapa, Botafogo, Madureira, Inhaúma, Tijuca, Vila Isabel e Mangueira, a matriz deste artigo, o jornalístico intitulado República do Samba, concentra seu campo de ação no Palácio do Catete. Na prática cotidiana, o Museu da República, naquele período histórico, sofreu um deslocamento estrutural ao discutir a diversidade da cultura do Morro da Serrinha por meio da Velha Guarda Show do Império Serrano. Tal gesto, aparentemente localizado, constitui-se em ação estratégica de reposicionamento cultural: uma tentativa de centrar a narrativa do Morro da Serrinha não apenas nos territórios clássicos, mas em novas espacialidades que garantiam um espaço de poder aos guardiões da cultura do Morro da Serrinha.
Por esta razão, as histórias e memórias dessas pessoas pensadoras do campo artístico foram registradas em múltiplos suportes — áudio, vídeo e material impresso —, compondo uma espécie de cartografia multimídia da memória da Serrinha. No jornalístico República do Samba, a força das imagens atua como biografia comunitária ao inscrever uma história social de enorme complexidade. O acervo, contudo, não se limita a constituir um repositório, mas opera também como fronteiras móveis, nas quais as imagens se tornam mapas simbólicos (Summa, 2021), desvelando e tensionando espaços culturais e raciais. Em cada registro, os corpos, as vozes e os gestos dos integrantes da Velha Guarda Show do Império Serrano e das galerias vinculadas à Associação de Velhas Guardas das Escolas de Samba do Estado do Rio de Janeiro reafirmam a centralidade da cultura do samba como dispositivo micropolítico das favelas cariocas.
Não à toa, a história da Velha Guarda Show do Império Serrano, nesse contexto, adquire caráter paradigmático. Ela começa algumas décadas após a fundação da verde e branco da Serrinha, no dia 23 de março de 1947, com nomes como Mano Décio da Viola, Campolino, Mestre Fuleiro e Wilson das Neves compondo a primeira fase do grupo. Esse ciclo inicial foi fundamental para firmar o lugar do Império Serrano na história das escolas de samba, articulando música, política comunitária e pedagogia da memória. Um intervalo de cinco anos separa a primeira formação da segunda, reconstituída nos anos 1990. Essa nova etapa, distinta em sua composição, reúne artistas de diferentes segmentos da agremiação, entre os quais: Rachel Valença, Silvio Manoel da Silva, Aluízio Machado Capoeira, Tia Vilma, Lindomar e Cizinho. Este coletivo, formado por cantoras, cantores e músicos, mantém, há quase quatro décadas, a tarefa de fazer reverberar os clássicos da agremiação fundada pela comunidade do Sindicato dos Portuários.
Neste capítulo, não é coincidência que as marcas do tempo histórico se inscrevem nas visualidades físicas e digitais tanto do projeto República do Samba quanto da Velha Guarda Show do Império Serrano. Ambos atuam como agentes de invenção de lugares que articulam memória e presença viva. Combinação esta que ganha concretude em um acervo (digital e analógico) ao colecionar centenas de imagens em diferentes formatos, clippings de imprensa e registros sonoros. O formato audiovisual do programa, ao incorporar a participação da plateia, nos informa que o público não era mera figuração, mas cocriador na produção de conhecimento. Nesta dinâmica, o samba do Morro da Serrinha aparece como prática comunicacional que negocia sentidos, desestabiliza fronteiras simbólicas e cria novos regimes de visibilidade.
Assim como Étienne Balibar (2002), Michel de Certeau (1998) e Renata Summa (2021) tensionam as fronteiras na chave da valorização do cotidiano como produtor de lugar, linguagem e conflito, a pesquisa em torno da Velha Guarda Show do Império Serrano: Museu Vivo da Obra de Silas de Oliveira utiliza esta mesma chave teórica ao confrontar a cultura do samba com as dinâmicas de mercado do entretenimento. Nos anos 1990 e início dos 2000, o cenário musical era fortemente marcado pela ascensão do chamado pagode romântico paulista (Coutinho, 2008), que monopolizava os circuitos de consumo cultural. Nesse contexto, a sustentação da força do samba do Morro da Serrinha se configurava como projeto de cidadania diferencial (Balibar, 2002), capaz de afirmar identidades e resistências contra-hegemônicas.
O distanciamento e a atualidade histórica nos convidam a refletir sobre o percurso delimitado pelo corte epistêmico aqui proposto (2000-2005) e seus desdobramentos até o presente. No caso, o intervalo não deve ser visto apenas como recorte cronológico, mas como campo fértil para observar conquistas, perdas, deslocamentos e invenções. A pesquisa, nesse sentido, busca compreender os deslocamentos não como meras transições espaciais, mas como dispositivos de reconfiguração cultural. Observa-se que é justamente nesses movimentos que se revelam as fronteiras como instituições móveis (Balibar, 2002), constantemente tensionadas por práticas sociais, memórias coletivas e táticas cotidianas.
4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
A pesquisa em andamento Velha Guarda Show do Império Serrano: Museu Vivo da Obra de Silas de Oliveira alinha-se profundamente com as orientações do Professor Paulo César de Oliveira. Para além desses alinhamentos conceituais, o presente estudo flerta com a noção de comunidade na perspectiva de Paiva (1998) em O espírito do comum e de Sodré (2014) em A ciência do comum. A contribuição de Muniz Sodré (1998) se revela decisiva não apenas na formulação teórica, mas também na vivência do samba como terreiro de experiências coletivas, sintetizada em sua obra Samba, o dono do corpo.
Esse eixo de sustentação teórica se amplia com as pesquisas da Professora Rachel Valença (Valença; Valença, 2017), da Professora Marília Trindade Barbosa, biógrafa de Silas de Oliveira, e do artista-pesquisador Nei Lopes, cujas obras configuram verdadeiros mananciais para a compreensão da cultura do samba do Morro da Serrinha como prática histórica, política e comunicacional. Nesse trânsito interdisciplinar, a intersecção com o Laboratório de Estudos em Comunicação Comunitária (LECC) e com o Grupo de Estudos Muniz Sodré (GEMS) torna-se imperiosa, pois ambos representam espaços de produção epistemológica que reconhecem a centralidade das culturas populares na tessitura da vida social.
Nos passos do estudo de caso, o caminhar da pesquisa segue em direção à micropolítica de Certeau (1998), no sentido de lançar luz sobre emaranhados de saberes, tensionando as encruzilhadas epistemológicas (Rufino, 2019). Todo este arcabouço será articulado ao longo da dissertação, que, por meio de pesquisa de campo e entrevistas, pretende oferecer uma visão expandida da cultura do samba do Morro da Serrinha como experiência cotidiana, como espacialidade disputada e como fronteira simbólica permanentemente negociada.
Acoplar tais estudos ao fenômeno das fronteiras como produtoras de lugar é um caminho que remete, inevitavelmente, a Wittgenstein, para quem a filosofia deveria ser entendida como atividade de elucidação das questões trazidas pela linguagem em sua dimensão ordinária (Sodré, 2014). De tal modo, a comunicação não é reduzida a mera transmissão de informações, mas entendida como campo de produção de mundos comuns, de sentidos partilhados e de resistências culturais. Nessa composição, o diálogo com o pensamento do Professor Paulo César de Oliveira mostra-se autoexplicativo, na medida em que a obra de Silas de Oliveira, nas vozes da Velha Guarda Show do Império Serrano, ecoa como pedagogia insurgente, afinada com a Pedagogia do oprimido de Paulo Freire (1974).
Retroativamente, a confluência com Balibar (2002), Certeau (1998) e Summa (2021) nos remete à estreia do República do Samba, em 7 de maio de 1999, no Museu da República, cuja bancada reuniu o teórico da comunicação Muniz Sodré e o compositor e cantor portelense Walter Alfaiate. O depoimento de Sodré, tanto no programa quanto no livro Fala, crioulo: o que é ser negro no Brasil (Costa, 2009), mostra como a cultura do samba do Morro da Serrinha e a produção do conhecimento acadêmico se entrelaçam em um mesmo gesto de reinscrição das fronteiras. De fato, Sodré revela que sua teoria da comunicação e da cultura “está sempre partindo do negro, mesmo que eu não fale” (Costa, 2009, p. 52), e sua trajetória pessoal como Obá de Xangô reforça que a legitimidade epistêmica não se restringe ao espaço acadêmico, mas se enraíza nas tradições afro-brasileiras, sobretudo no Candomblé, compreendido como investimento civilizatório do povo negro.
Por isso, não se pode atribuir ao acaso o fato de muitos homens e mulheres da Velha Guarda Show do Império Serrano serem sujeitos marcadamente constituídos por essas “acrópoles gregas” — que, na formulação de Sodré (1998, p. 45), correspondem simbolicamente aos terreiros de Candomblé —, lugares de resistência, reinvenção e transmissão de saberes. Assim, o percurso desenvolvido neste artigo buscou mostrar que a musicalidade de Silas de Oliveira, por meio da Velha Guarda Show do Império Serrano, ultrapassa o campo da arte, configurando-se como campo de disputa simbólica, memória coletiva e invenção de lugares. Entre fronteiras móveis e práticas cotidianas, entre arquivos analógicos e digitais, entre terreiros e palcos, a cultura do samba do Morro da Serrinha se afirma como produtora de lugares políticos e culturais. Ao resgatar e projetar tais experiências, esta pesquisa não apenas intenciona reinscrever o lugar da cultura da Serrinha na esfera pública e acadêmica, mas também propõe uma pedagogia do comum, em que a memória dos ancestrais ilumine os caminhos possíveis para a comunicação como prática de emancipação.
REFERÊNCIAS
BALIBAR, Étienne. Politics and the Other Scene. London: Verso, 2002.
CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano. Petrópolis: Vozes, 1998.
COSTA, Haroldo. Fala, crioulo: o que é ser negro no Brasil. Rio de Janeiro: Record, 2009.
COUTINHO, E. G. (Org.). Comunicação e contra-hegemonia: processos culturais e comunicacionais de contestação, pressão e resistência. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2008.
FERNANDES, Nélson da Nóbrega. Escolas de Samba: sujeitos celebrantes e objetos celebrados. Rio de Janeiro: Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, 2001. (Coleção Memória Carioca, v. 3).
FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. São Paulo: Paz e Terra, 1974.
PAIVA, Raquel. O espírito comum: comunidade, mídia e globalismo. Petrópolis: Vozes, 1998.
RUFINO, Luiz. Exu e a pedagogia das encruzilhadas. Rio de Janeiro: Mórula, 2019.
SODRÉ, Muniz. Samba, o dono do corpo. 2. ed. Rio de Janeiro: Mauad, 1998.
SODRÉ, Muniz. A ciência do comum: notas para o método comunicacional. Petrópolis: Vozes, 2014.
SUMMA, Renata. Inventing places: disrupting the “divided city”. In: CARABELLI, Giulia; DJURASKOVIC, Aleksandra; SUMMA, Renata. Challenging the Representation of Ethnically-Divided Cities. London: Routledge, 2021. p. 9-28.
VALENÇA, Rachel; VALENÇA, Suetônio. Serra, Serrinha, Serrano: o império do samba. Rio de Janeiro: Record, 2017.
VIANNA, Luiz Fernando. Geografia carioca do samba. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2007.
¹ Mestrando do Programa de Pós Graduação em Mídias Criativas da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro.







