Carlos Fino (*) entrevistado para a PRESSENZA por Vasco Esteves

Carlos Fino nasceu em Portugal e foi durante 4 décadas repórter de rádio e televisão, correspondente de guerra, apresentador de serviços noticiosos, conselheiro de imprensa. Esteve no Leste da Europa, no Médio Oriente e no Brasil. Trabalhou sediado em Lisboa, Moscovo, Bruxelas, Washington e Brasília. É porventura o mais conhecido repórter português em todo o mundo. Foi um jornalista premiado, escreveu livros e doutorou-se em Ciências de Comunicação. Em 2022, regressou a Portugal para – como ele próprio diz – “não estar mais na boca de cena da política internacional e do jornalismo e levar uma vida mais tranquila” com a sua mulher, procurando viver, à boa maneira dos antigos, a sua “aurea mediocritas”.

Logo à chegada a Portugal em 2022, no entanto, eclodiu a guerra da Ucrânia, cujo desenrolar o choca profundamente. Manteve-se relutante em intervir, mas agora decidiu abrir uma exceção e dar esta entrevista exclusiva à PRESSENZA sobre as suas experiências no Leste da Europa e as possíveis ilações geopolíticas que esse saber, de experiência feito, permitirá fazer.
Nesta primeira parte da entrevista abordam-se as experiências de Carlos Fino em Moscovo e durante o desmoronamento da União Soviética e o desmembramento forçado da Jugoslávia. Na segunda parte, a publicar daqui a uns dias, ele irá falar sobre a atual guerra na Ucrânia, a Europa de Leste em geral, assim como sobre a desglobalização em curso e a nova ordem mundial emergente.

Moscovo

Pressenza:

Perseguido pela PIDE/DGS (polícia secreta do regime Salazar-Caetano), o Carlos Fino viu-se na contingência de fugir “a salto” (ilegalmente) de Portugal para França, em 1971. Na altura, era dirigente estudantil (foi membro da direção da Associação Académica da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa em 1968/1969) e aderiria pouco depois ao PCP (Partido Comunista Português), então ainda na clandestinidade, tendo igualmente feito parte do MDP/CDE – Movimento Democrático Português-Comissão Democrática Eleitoral, que disputou as “eleições” controladas de 1969, desafiando as limitações impostas pelo regime.

Continuou então viagem até Paris, e daí para Bruxelas, onde obteve o estatuto de refugiado das Nações Unidas e permaneceu dois anos, tendo trabalhado como condutor de elétricos e frequentado o curso de Direito na ULB (“License em Droit da Université Libre de Bruxelles”).

Em 1973, via PCP, seguiu para a Rússia para ir trabalhar como locutor da Rádio Moscovo, que tinha um programa destinado a Portugal, onde – juntamente com a Rádio Portugal Livre, sediada na Roménia, e a Rádio Voz da Liberdade, com base em Argel – era captada e seguida de forma clandestina pelos opositores do regime.

A seguir ao golpe militar do 25 de Abril de 1974, que derrubou o regime ditatorial de Salazar-Caetano, abrindo caminho à institucionalização de um regime democrático, o Carlos Fino voltou, em finais de 1974, para Portugal, onde acompanhou a Revolução dos Cravos em curso, tendo então trabalhado durante um ano como tradutor na Agência de Notícias soviética Novosti, que acabara de abrir delegação em Lisboa.

No final de 1975, voltou de novo para Moscovo, desta vez como correspondente e repórter da EN (Emissora Nacional portuguesa) e, mais tarde, da RTP (Rádio Televisão Portuguesa); desta vez, manteve-se na capital soviética até 1982, ano em que regressa a Portugal na sequência de uma agressão de que foi alvo por parte da polícia soviética.

Entre 1982 e 1989, trabalhou na RTP em Lisboa como repórter, apresentador e comentador, sendo no final desse último ano nomeado correspondente da televisão pública portuguesa em Moscovo, onde se manteve até 1995, quando foi transferido para Bruxelas e, três anos depois, para Washington, sempre na qualidade de correspondente internacional da RTP.

Ao longo de mais de duas décadas (1973-1995), o Carlos Fino viveu, portanto, três vezes em Moscovo, num total de 12 anos, tendo acompanhado como correspondente e repórter tudo o que de mais relevante se passava na União Soviética, inclusive o desmembramento desta e a emancipação dos países do leste europeu que se encontravam por detrás da então chamada “cortina de ferro” … O que representou Moscovo então para si, e o que representa hoje?

Carlos Fino:

Quando, em Novembro de 1973, fui a primeira vez para Moscovo, a ideia que eu tinha da capital soviética, daquilo que lia na propaganda e na ignorância dos meus verdes anos, era a de uma espécie de Brasília vermelha – uma cidade desenvolvida, aberta ao futuro, progressiva, sede de um poder que no plano internacional desafiava abertamente a hegemonia dos EUA, cujo papel estava então muito maculado pela guerra do Vietname.

Ir para a Rússia ser locutor da Rádio Moscovo – que eu ouvia clandestinamente em Portugal – era então para mim o culminar de uma evolução pessoal marcada pelo contacto com a pobreza do Alentejo, pela luta pelas 8 horas de trabalho, a que assisti quando era ainda miúdo, e pela empatia para com os humilhados e ofendidos derivada da doutrina social da Igreja Católica, em particular do Concílio Vaticano II de 1961, tinha eu 13 anos.

Essa marca católica acabou por fundir-se depois com a influência comunista, quando os meus pais deixaram o Alentejo e se transferiram para a região de Vila Franca [perto de Lisboa], a fim de poderem dar instrução superior aos filhos, já que no Alentejo não existia então Universidade. O PCP era muito forte e influente na cintura industrial de Lisboa e, ainda sem ser militante, foi nesses anos que me aproximei do partido – quer da ala operária, quer dos setores intelectuais – e me envolvi no movimento democrático, sua expressão no plano legal e semilegal. A entrada na Faculdade de Direito, no final dos anos 60, reforçou essa ligação, que culminou com a militância, ainda na clandestinidade.

A fuga à PIDE [Polícia Secreta] e a travessia da fronteira a salto, em 1971, consolidaram essa situação, mas também marcaram um limite – pressionado a tornar-me funcionário do partido, disse que não: não estava disponível para “vestir a farda”, na expressão de Pires Jorge, o membro do comité central que me tentou recrutar.

Ainda assim, aceitei  ir para Moscovo, em finais de 1973, para uma tarefa que me foi proposta e que me parecia aliciante  – ser locutor de uma rádio – e também porque o ano letivo ia terminar e o “chumbo” estava à vista; parecia uma saída atraente por ir de encontro a uma vocação profissional que já sentia em mim (além da Rádio Moscovo, também sempre ouvia a BBC, a Emissora Nacional e a RTP, e encantava- me com os locutores) e por ser uma experiência que me poderia enriquecer humana e profissionalmente. Tanto mais que nada ainda fazia prever o 25 de Abril: pelo contrário, na Oposição ao regime dominava o desencanto com a chamada “primavera marcelista” e o regime parecia estar para durar.

A chegada à capital soviética foi dececionante: em vez da Brasília vermelha que eu imaginara, Moscovo era ainda uma cidade muito pesada, politicamente opressiva, fria e desconfortável, onde o próprio simples abastecimento quotidiano era uma dor de cabeça, com escassíssima oferta, em lojas decadentes, vazias, malcheirosas, nas quais era preciso ficar nas filas para poder comprar o essencial, sendo tudo ou quase tudo de má qualidade.

A partir daí, houve todo um período de ressignificação das minhas próprias opções e logo que, escassos meses depois, surgiu o 25 de Abril, quis regressar de imediato a Portugal. Afinal de contas, eu também contribuíra, ainda que de forma limitada, para aquele momento de libertação. Infelizmente, o partido tinha o meu passaporte e entendeu que eu teria de cumprir o contrato – um ano, no mínimo – não me facultando o documento, o que me impediu de partir. Não pude por isso vivenciar, como pretendia, nem as alegrias dos primeiros tempos do 25 de Abril, nem o histórico 1º de Maio que se seguiu. Essa é uma amargura que vou levar comigo para a cova e que fica também colada para sempre à minha primeira vivência em Moscovo.

Entretanto, entre Abril e Novembro de 74, conheci a Natacha, minha primeira mulher russa, e a minha ligação com Moscovo, ao mesmo tempo que perdia o lado militância política, ganhava relevo pessoal e profissional.

O ano que passei em Portugal, entre Novembro de 74 e Novembro de 75, foi assim uma transição – já tinha, politicamente, a morte na alma, e agora queria regressar, não pela ideologia, mas pelo amor e pela profissão. Ia realizar, fundidos, os versos de Bécaud – Natalie – e a música e ambiência românticas do filme Dr. Jivago.

Foram essas duas vertentes que concretizei na Moscóvia entre 74 e 82, quando – culminando uma visão cada vez mais crítica das minhas crónicas, fui alvo de um ato de brutalidade policial, típico da Guerra Fria, num episódio que marcou a minha rutura política com uma certa Rússia.

Quando regresso, em 89, para acompanhar para a estação pública portuguesa o culminar da Perestroika, já o faço em reforço das duas vertentes com que de lá saíra – profissão e amor – agora, porém, com uma visão política democrática e não mais comunista.

De tudo isso restam sentimentos contraditórios na minha relação com a Rússia, e com Moscovo em particular – desencanto, frustração, desconforto, por um lado, mas também relacionamento humano intenso, envolvimento pessoal, e oportunidade profissional única, um “mix” que haveria de marcar toda a minha carreira e até a minha vida.

Hoje, não tenho saudades da Rússia; Moscovo é uma página volvida, mas também não alimento ressentimentos e, em geral, não partilho da russofobia de novo dominante.

Vista à distância, se a informação está correta, Moscovo (onde estive, pela última vez, no ano 2000, quando da chegada de Putin ao poder) é hoje uma cidade muito mais palatável do que era nos anos 70 – e até mesmo 90 – do século passado. E a Rússia tenta claramente recuperar do trauma que foi a queda da URSS. Não me parece, por outro lado, que a segurança europeia possa ser construída em confronto com Moscovo, mas sim em negociações onde as preocupações de um e outro lado, nesse e noutros domínios, sejam tidas em conta e se possa encontrar um “modus vivendi” mutuamente aceitável.

Como disse, em 1982, foi alvo em Moscovo de um “ato de brutalidade policial típico da Guerra Fria”. O que se passou exatamente, e porquê?

Nessa altura, já trabalhava para a RDP – sucessora da Emissora Nacional – e para a RTP. Em 1980, já tinha aliás assegurado, nessa função, a cobertura dos Jogos Olímpicos de Moscovo. Para se perceber o que se passou, é preciso ter em conta o contexto. Quando, em 1975, fui para Moscovo, a seguir à Revolução do 25 de Abril em Portugal, havia uma curiosidade grande pelo leste europeu e, em particular, pela URSS. Mas havia também todo um momento – que aliás se prolonga até hoje – de hostilidade em relação à mesma: já nessa altura os EUA tinham boicotado os Jogos Olímpicos, e havia também outras medidas sancionatórias contra a União Soviética. Estávamos num contexto de Guerra-Fria, e eu estava no cruzamento dessas tendências opostas (ideológicas, políticas, económicas) e tinha de fazer um jogo muito grande de equilíbrio para poder reportar a partir de Moscovo.

Embora eu sempre tivesse bastante cuidado com o que dizia, as minhas crónicas – acompanhando o próprio movimento da sociedade soviética – foram sendo cada vez mais críticas. Como resultado, a imprensa comunista em Portugal começou a criticar abertamente o meu trabalho. Por outro lado, havia também a pressão por parte dos soviéticos: os responsáveis do Ministério soviético dos Negócios Estrangeiros diziam até, com alguma graça, sobre os jornalistas estrangeiros credenciados em Moscovo que “os que não são espiões, são jornalistas”! Eu não era espião, mas as minhas crónicas – muitas delas com base em informações da própria imprensa soviética mais aberta, como a “Literaturnaia Gazeta”, eram tendencialmente críticas em relação ao poder instituído.

Então, aconteceu um incidente de polícia à porta dum hotel. Eu já estaria “debaixo de olho”, penso. Eu queria entrar, não me deixaram entrar, eu levantei a voz e houve alguma altercação com a segurança que estava em frente do hotel. De repente, vem um tipo à paisana de dentro do hotel e um grupo que me prendeu. Fui puxado à força para dentro dum carro e levado para as traseiras do hotel onde estava o posto da polícia e de vigilância do que se passava no hotel (era um hotel internacional, e o posto estava cheio de câmaras), e aí fui brutalmente agredido. Eu disse-lhes que a minha detenção não estava certa, que queria falar com a minha embaixada e, nessa disputa, deram-me um pontapé forte entre as pernas e murros no fígado e rins. Eu vomitei imediatamente e a seguir fiquei como que anestesiado, resultado da dor tão forte que sentia. Só nas 24 horas seguintes a dor se começou a fazer sentir cada vez mais forte, até se tornar intolerável.

A embaixada portuguesa protestou, os jornais em Portugal também reagiram, o jornal “Expresso” publicou um editorial sobre isso, enfim, o episódio tornou-se num caso de fricção nas relações entre Portugal e a URSS. Através da diplomacia portuguesa foi-me indicado um médico da embaixada britânica que me observou (não havia médico na embaixada portuguesa) e, através dele, que conhecia um médico na Finlândia, fui depois transferido para Helsínquia, onde estive internado cerca de duas semanas e a ser tratado a morfina!

Não precisei, entretanto, de ser operado porque o meu organismo foi reagindo naturalmente, mas ficaram sequelas que perduram até hoje. Depois desse incidente, a RTP chamou-me para Portugal, eu só fui a Moscovo fazer as malas para me ir embora.

 

Carlos Fino (à direita) cumprimenta no Kremlin Mikhail Gorbachov, em Novembro de 1987. A meio, o então presidente da República Portuguesa, Mário Soares (Foto da Wikimedia-Commons, Autor: Luís Vasconcelos)

O desmoronamento da União Soviética

Precisamente por essa altura, no fim dos anos 70 e no princípio dos anos 80 — eu já vivia na República Federal da Alemanha nessa altura — aqui na Europa Central passava-se por uma fase de rearmamento massivo, não só na Alemanha Federal, através dos Pershing II (mísseis nucleares de alcance intermédio), isto tudo supostamente para contrabalançar os mísseis russos SS-20, que estariam do outro lado da cortina-de-ferro. Portanto, vivia-se um ponto alto da Guerra-Fria. Lembro-me de que tínhamos medo do que se iria passar, que acontecesse uma guerra nuclear – e nós, na Alemanha, estaríamos mesmo ali no meio da confusão…

E, num dia desses, tive uma conversa privada com um político do SPD (partido social-democrata alemão) em que ele me disse que a estratégia do Ocidente era armar-se cada vez mais para obrigar os russos a investirem também cada vez mais em armamentos sofisticados, com a intenção de arrebentarem com a economia deles e, assim, provocarem o colapso da União Soviética – o que, de facto, alguns anos mais tarde, veio a acontecer! Isso foi, portanto, um rearmamento intencional para apertar com a União Soviética, que sabiam não ter a capacidade económica para responder ao mesmo nível.
Acha que o colapso da União Soviética, em 1991 foi mesmo provocado, ou pelo menos facilitado pelo Ocidente, ou antes resultado das fraquezas imanentes à sociedade soviética?

Eu acho que, nessa altura, já era patente que aquele sistema era insustentável. Quer do ponto de vista económico, quer social. Mas, aquilo que o seu interlocutor germânico lhe confiou, deve ter também contribuído para aprofundar a crise que já se vivia dentro da própria União Soviética. Aliás, a União Soviética era como um gigante que sustentava uma barra pesadíssima, mas que não conseguia aguentar o peso. Era um gigante “descarnado” que tinha crescido muito em extensão com a sua vitória na 2ª Guerra Mundial, mas o sistema hipercentralizado não respondia às necessidades da economia e do desenvolvimento. A crise já vinha de antes, mas foi evidentemente apressada ou acentuada na fase final por esse confronto militar com o Ocidente, que passou como sabe também pela aventura soviética no Afeganistão, que começou no final dos anos 70 e se prolongou pelos anos 80, tendo terminado com a retirada das tropas soviéticas. E é nesse contexto geral de crise que vão surgir divergências dentro do próprio partido comunista da União Soviética, a chegada de Gorbatchov ao poder e a sua tentativa de se trilhar uma nova via, talvez mais social-democrata, mas ainda sob o controle do PCUS. Mas Moscovo acabou por perder o controle da situação… e isso levou ao fim da União Soviética.

A guerra do Afeganistão nos anos 80 foi fomentada pelos EUA, que atiçaram e armaram grupos islâmicos contra a Rússia, entre os quais o futuro Al-Qaeda de Osama Bin Laden! Isso foi um cerco militar feito pelo outro lado do globo à União Soviética e que também contribuiu para a enfraquecer. No meio desta confusão toda, qual foi o papel de Gorbatchov – que esteve pouco tempo no poder – e da sua Perestroika, e qual foi o papel de Iéltsin mais tarde (quando ele tomou o poder nos anos 90)? Gorbatchov tentou salvar o socialismo e a União Soviética, mas não o conseguiu, e o Iéltsin tentou que a Rússia entrasse com o pé direito no capitalismo, mas também não foi bem-sucedido, pois não conseguiu impedir a privatização desenfreada do seu país… Que observou o Carlos durante o tempo em que lá esteve?

Gorbatchov trouxe, de início, uma grande esperança em termos de liberdade, de se poder respirar e falar, mas ele manteve-se fiel até ao fim à ideologia comunista. Ensaiou alguns passos de mudança, mas dentro daquele círculo ideológico. Como disse um membro sénior do KGB na altura, Gorbatchov, tal como Colombo, partiu à procura da Índia e acabou descobrindo a América… Mas só Iéltsin faz verdadeiramente a rotura com o regime comunista, já num ambiente de grande caos e emergência de grupos mafiosos, em que se dá um colapso do sistema de abastecimento, subida de preços, falta de produtos e decréscimo acentuado do nível de vida da população. Não deixou saudades.

Atualmente, quer um quer outro são vistos como os causadores dos problemas que vieram a seguir, não há na Rússia um olhar benigno em relação a Gorbatchov, e muito menos ainda em relação a Iéltsin. Este permitiu a criação de oligarcas que tomaram conta de grandes unidades económicas ao preço da chuva, e o engano da população em como se comprasse ações iria beneficiar com isso.

Tenho aqui uma citação do economista e professor norte-americano Jeffrey D.Sachs da Columbia University: “Em 1990-1991, fui conselheiro de Mikhail Gorbachov e, durante o período de 1991-1994, de Boris Iéltsin e de Leonid Kuchma, abrangendo os últimos dias da Perestroika e os primeiros dias da independência russa e ucraniana após a dissolução da União Soviética. Observei muito de perto o que estava acontecendo. Vi que os Estados Unidos estavam absolutamente desinteressados ​​em ajudar a Rússia a se estabilizar.” Foi também essa a sua impressão: o Ocidente não estava interessado em ajudar a Rússia a se reorganizar, mas sim em conquistar o máximo possível do bolo sob o lema “the winner takes it all”?

Eu acho que é verdade. Geoffrey Sachs sabe sobre isso muito mais do que eu, mas também foi essa a sensação que recolhi na altura. E isso gerou o grande desencanto dos líderes reformistas russos: eles não encontraram no Ocidente o apoio que julgavam que iriam ter. Isso inclui o próprio Putin (a partir de 2000), pois nos anos 90 ainda houve uma aproximação com a OTAN através da criação dum Conselho Rússia-OTAN que teve uma reunião em Paris, e a própria Rússia chegou a formular o pedido de ser também integrada na OTAN, o que foi abertamente rejeitado. Nunca ninguém estendeu verdadeiramente a mão para a Rússia se levantar, o objetivo do Ocidente não era esse, mas sim o de reduzir a Rússia duma potência mundial a um mero poder regional o mais debilitado possível.

Foi por isso que apareceu em cena o Putin no ano 2000. Lembro-me de o Iéltsin ter passado o testemunho ao Putin porque o primeiro já não tinha controle sobre a situação do país. Putin assumiu o poder em Janeiro de 2000: o que é que mudou desde então, e foi uma evolução para melhor ou para pior?

O que mudou foi a constatação feita pelas elites russas, ou pelo menos por uma parte delas – as mais ligadas ao Estado, aos serviços de informações e às estruturas de poder -, de que aquela situação era insustentável e que teriam de reagir. Há um fator de profundo desencanto em relação aos apoios que eles contavam poder receber do Ocidente.

As mudanças do Putin foram para melhor, era expectável que acontecesse qualquer coisa do género a certa atura do campeonato, como se diz. A quebra do poder económico e da influência política, as contradições que não se resolviam, eram situações insustentáveis. A chegada do Putin ao poder, com um projeto de restabelecer a ordem e recuperar a economia, foi por isso bem acolhida pela população em geral; e mesmo, de início, no Ocidente, onde se considerava, corretamente, que era preciso pôr ordem na situação criada por Iéltsin, acabar com o caos altamente perigoso numa potência nuclear. E Iéltsin chama Putin também com o compromisso de não o investigarem a ele e à sua clique, de não serem incomodados. Mas depois há também, a Ocidente, uma viragem, quando surge aquilo a que os analistas chamam uma “época unipolar”, em que os EUA começaram a tomar decisões à revelia de todos os outros países segundo o lema “quero, posso e mando!”. Face a isso, a certa altura, Moscovo reage.

O desmembramento forçado da Jugoslávia

E o ponto alto dessa reação foi a meia-volta do avião de Primakov (primeiro-ministro russo entre 1998-99). Primakow encontrava-se num avião a caminho dos Estados Unidos quando recebeu a notícia de que a OTAN ia desencadear uma ofensiva militar contra a ex-Jugoslávia e atacar Belgrado; nesse momento, telefona a Al Gore (vice-presidente dos EUA), com quem se iria encontrar, numa última diligência para tentar impedir esse ataque, mas Al Gore diz-lhe que não podia fazer nada, os dados estavam lançados. Então, Primakov dá ordem ao piloto para regressar a Moscovo, sem sequer pousar nos EUA. Esta inversão de rota de Primakov marca literalmente um ponto de viragem naquilo que fora até aí a política externa da Rússia desde o desmembramento da URSS. Tratou-se de um momento chave cujas consequências ainda estamos hoje a viver.

A OTAN bombardeia a Sérvia, forçando ainda mais o desmembramento da Jugoslávia já em curso nos anos 90. Falemos então da Ex-Jugoslávia, um caso muito dramático, emblemático mesmo do que se passou após a derrocada da União Soviética nos anos 90. Embora aliás a Jugoslávia nunca tivesse feito parte da União Soviética…

Sim. Ela própria era uma espécie de “Mini-União Soviética”, porque dentro dela existiam e confrontavam-se diferentes sentimentos nacionais com as suas contradições, difíceis de gerir. Só uma personagem política como o Tito a conseguiu durante tanto tempo manter “colada”. Desde que, mais tarde, os países ocidentais começaram a estimular esses nacionalismos, ou esses regionalismos internos, a Jugoslávia acabou por se desfazer. Mas o mais decisivo foram as decisões unilaterais dos EUA, sem terem em conta os interesses da Rússia, que tem uma presença histórica nos Balcãs desde os confrontos com o império otomano.

Eu na altura, lembro-me de que a Alemanha – onde eu vivia — esteve muito empenhada em fomentar o desmembramento da Jugoslávia. Esta, que já era um país muito pequeno, desmembrou-se em vários países pequeníssimos e autónomos que antes eram simples províncias. Terá sido isso uma forma de “dividir para reinar”?

Em 1999, aconteceu a guerra da OTAN contra a Sérvia, uma parte da Ex-Jugoslávia. Foi uma guerra conduzida pela OTAN à margem das decisões das Nações Unidas, com brutais bombardeamentos contra Belgrado – a capital da Sérvia – com o principal objetivo de conseguir a independência para o Kosovo (até aí parte integrante da Sérvia), o que a OTAN efetivamente conseguiu… Em seguida, os EUA instalaram uma base militar no Kosovo, que é hoje a maior da Europa.

É verdade! E esses ataques foram mais brutais ainda do que aquilo que o Putin está agora a fazer na Ucrânia, pois a OTAN bombardeou Belgrado diariamente durante quase 3 meses, destruindo também por exemplo edifícios públicos, estúdios de rádio e de televisão, ministérios, hospitais, e até a Embaixada da China! A especialidade dos norte-americanos, aliás, é fazerem bombardeamentos…

E é irónico constatar que este separatismo que o Ocidente fomentou na Jugoslávia contrasta completamente com o anti-separatismo que o mesmo Ocidente e a mesma OTAN agora defendem na guerra da Ucrânia, aonde eles querem que o Donbass e a Crimeia voltem para o seio da Ucrânia, embora essas regiões tenham as suas razões para se separarem, ou pelo menos para conquistarem uma certa autonomia dentro da Ucrânia. São duas medidas diferentes para uma situação semelhante.

O brutal ataque da OTAN contra a Sérvia não terá sido um primeiro sinal de que o Ocidente estava disposto a tudo, mesmo a uma intervenção militar, para disputar uma boa parte do “bolo” que lhe estava a ser oferecido no sudeste da Europa?

Isso foi particularmente chocante para Moscovo, que historicamente tem uma especial relação com a Sérvia. Ali há sempre uma vertente da presença russa nos Balcãs. E o facto dessa guerra ter sido desencadeada contra os interesses da Rússia e sem consultar Moscovo, foi a gota de água que fez transbordar o copo. É a partir daí que Iéltsin perde as últimas ilusões em relação ao Ocidente. No princípio da transição, início dos anos 90, no tempo dos ministros russos dos Negócios Estrangeiros como Kozyrev e Shevardnadze (este tinha sido Ministro dos Negócios Estrangeiros da União Soviética e foi, mais tarde, presidente da República da Geórgia), havia até um slogan parecido com o de Mário Soares em Portugal com o seu “A Europa connosco!” a seguir ao 25 de Abril: na Rússia,  esse slogan era “O Ocidente ajuda-nos!”. Depois, constataram que nem havia ajudas nem havia sequer interlocução, pois os EUA simplesmente punham e dispunham, faziam aquilo que mais lhes interessava ou mais convinha.

A partir daí, abre-se a caixa de Pandora, é o confronto. Se – argumenta o Kremlin – os EUA e o Ocidente podem desmembrar um país como a Jugoslávia e criar um país como o Kosovo, porque que é que Moscovo não pode apoiar também a independência da Abkhásia ou da Ossétia em relação à Geórgia?  A partir daí, passa a haver uma política russa de confrontar as políticas ocidentais e de jogar no mesmo tabuleiro e da mesma forma.

A guerra da OTAN contra a Sérvia, em 1999, mostrou que, depois do desmoronamento da União Soviética, foi a OTAN que iniciou as hostilidades militares no leste da Europa contra a Rússia, e não o Putin 23 anos mais tarde com a invasão da Ucrânia, como muitas vezes se diz no Ocidente. Isso mostra também que a OTAN tem um caráter expansivo e agressivo, e não apenas defensivo, em relação ao leste da Europa. Está de acordo com esta afirmação?

Não sei se estou de acordo com essa adjetivação de que ela tenha “ab initio” um caráter substancialmente agressivo, mas que ela começou a guerra contra a Sérvia é um facto. Foi esse momento – o momento unipolar da política internacional que se seguiu ao desmembramento da União Soviética – essa opção dos EUA pelo “quero, posso e mando” e de “nós é que decidimos, sem ouvir mais ninguém” que acabou por contribuir para a mudança de atitude da Rússia em relação ao Ocidente, claro!

[a segunda parte e última parte desta entrevista será publicada daqui a poucos dias]


(*) Carlos Fino

1948: Nasce em Lisboa, mas vive e cresce no Alto-Alentejo (Portugal).

1967: Estuda Direito em Lisboa, é dirigente estudantil e membro do PCP na clandestinidade, sendo como tal perseguido pela PIDE, polícia política do fascismo.

1971: Atravessa a fronteira “a salto” (ilegalmente) rumo a Paris, seguindo daí para Bruxelas, onde obtém o estatuto de refugiado das Nações Unidas.

1973: Segue para a União Soviética, onde trabalha como locutor da Rádio Moscovo para Portugal e a África de expressão portuguesa.

1974: No fim deste ano, e a seguir à Revolução dos Cravos, regressa a Portugal e colabora com vários jornais e a antiga Emissora Nacional (EN).

1975: Em finais deste ano, regressa a Moscovo, mas desta feita como correspondente internacional da EN e, mais tarde, da Rádio Televisão Portuguesa (RTP).

1982-1989: Trabalha na RTP em Lisboa como repórter, apresentador e comentador.

1989-1995: De novo em Moscovo, cobre como jornalista o desmembramento da União Soviética e a democratização do Leste da Europa: Rússia, Roménia, Bulgária, Checoslováquia, RDA, Polónia e Hungria, assim como os conflitos na Abkhásia, Geórgia, Nagorno-Karabakh, Moldávia, Chechênia e Afeganistão.

1995- 1998: Correspondente da RTP em Bruxelas.

1998-2000 – Correspondente da RTP em Washington.

2000-2004: Cobre várias guerras e conflitos: Albânia, Palestina, Afeganistão, e também a invasão do Iraque em 2003 pelas tropas americanas, sendo o primeiro repórter do mundo a transmitir imagens ao vivo do início dos bombardeios americanos a Bagdad.

2003: Publica o livro “A Guerra em Directo”, com a chancela da Verbo.

2004-2012: Desempenha funções na diplomacia como conselheiro de Imprensa da Embaixada de Portugal no Brasil nos dois primeiros mandatos do presidente Lula da Silva.

2013: Aposenta-se e mantem-se no Brasil.

2019: Doutoramento em “Ciências de Comunicação” pela Universidade do Minho, em Braga com uma tese que serviu de base ao seu novo livro “Portugal-Brasil: Raízes do Estranhamento” publicado em 2021.

2022: Regressa a Portugal e ao “seu” Alto Alentejo.

Carlos Fino recebeu, ao longo da sua carreira de jornalista, inúmeros prémios e condecorações, nacionais e internacionais. Tem cerca de 37.000 “followers” no Facebook, tendência crescente.


A PRESSENZA publicou também há poucos dias uma entrevista em vídeo com Carlos Fino realizada pela UTAD TV que pode ser vista aqui.

Mais informações sobre o entrevistado aqui: https://pt.wikipedia.org/wiki/Carlos_Fino


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