NOTA PRETA

Por Mauro Viana

 

Nascida em Calcutá, em 1970, a pesquisadora indiana, Ananya Roy nos convida a viajar pela problematização das chamadas megacidades embutidas em “Cidades Faveladas’ como uma intervenção nas epistemologias e metodologias dos estudos urbanos.

Crítica das formas, pelas quais, as cidades do Sul global são estudadas e representadas, tanto na academia quanto no senso comum; ela parte do conceito de Antônio Gramsci de “subalternidade” para discutir o que denominou como – “urbanismo subalterno”.

Para Roy, o urbanismo subalterno se ocupa da teoria da megacidade e espaços das classes trabalhadoras ou favelizadas. Na contramão, as narrativas hegemônicas, o olhar do “urbanismo subalterno” enxerga a favela como lugar de “habitação subsistência, auto-organização e política”. Por esta razão, ela destaca as chamadas estratégias analíticas emergentes.

Ancorado nas categorias que transcendem as conhecidas metonímias do subdesenvolvimento (a megacidade, a favela, a política de massa e o hábitos dos despossuídos), o “urbanismo subalterno” se empenha em discutir quatro categorias: periferias, informalidade urbana, zonas de exceção e espaços cinzentos. Segundo a autora, estas categorias provêm do Sul global. Para Roy, a simples procedência destas categorias já provoca um abalo nos “entendimentos ontológicos e topológicos de sujeitos e espaços subalternos”.

A partir deste ponto, a pesquisadora pinça uma diversidade de autoras e autores dos estudos urbanos contemporâneos para estabelecer um confronto conceitual entre ‘megacidade” e “cidade global”. No entender da pesquisadora indiana, torna impossível a própria categoria da cidade global.

Por quê? Porque a autora lê os limites, as porosidades e as fragilidades de todos os centros globais como impedimentos. Na missão de comprovar a dependência relacional de economias aparentemente distantes de combustíveis fósseis e mão de obra barata, ela relaciona a megacidade ao “subalterno” dos estudos urbanos. Antes aprofundamento analítico dos conceitos de periferias, informalidade urbana, zonas de exceção e espaços cinzentos, Roy defende que “a megacidade é uma metonímia para subdesenvolvimento, Terceiro Mundismo, Sul global”.

E o que é metonímia?

– Metonímia, figura de retórica que, consiste no uso de uma palavra fora do seu contexto semântico normal, por ter uma significação que tenha relação objetiva, de contiguidade, material ou conceitual, com o conteúdo ou o referente ocasionalmente pensado.
Apesar de evocar “uma condição humana abjeta, mas inspiradora que vive na imundície e no esgoto” a megacidade é o cartão-postal do terceiro mundo. Em outras palavras: a favela se tornou no mais comum itinerário, por meio do qual, a cidade do Terceiro Mundo (ou seja, a megacidade) é reconhecida. “Eu não uso o termo ‘itinerário’ casualmente”. Hoje, a favela do Terceiro Mundo é um itinerário, um “trânsito turístico” (Freire-Medeiros, 2009).

– Os exemplos são os passeios turísticos pela favelas. Os roteiros incluem a favela da Rocinha no Rio de Janeiro, na Township de Soweto em Joanesburgo, nos Kampungs de Jacarta e, na favela de Dharavi em Mumbai.

Como fio condutor do pensamento de Roy está centrado na dicotomia megacidade x cidade global, dominação x subalternidade sul global x norte global, ela segue ressignificando a falta de formalidade e de institucionalidade das zonas de exceção como teoria da agência. Ou seja: as megacidades ou favelas contemporâneas se converteram importantes paradigmas do urbanismo subalterno.

Na condição de paradigma, promove a reparação de sociedade civil (Gramsci) em política popular. A diferença está na pauta de reivindicações por habitação e subsistência por “grupos da população cuja própria subsistência ou moradia envolvem a violação da lei”. Segundo a autora, a reorganização social e econômica das megacidades evidenciam a promiscuidade entre os governos oficiais e poder paralelo com as milícias empreendedoras na produção e gestão da miséria.

As referências bibliográficas de Cidade Faveladas congregaram escolas marxistas, pós-colonialistas cujo ponto de convergência é o trânsito acadêmico pelas periferias, informalidades urbanas, zonas de exceção e espaços cinzentos. A viagem investigativa de Ananya Roy, pelas entranhas do urbanismo subalterno, a faz concluir que são necessárias novas geografias para mapear os mundos favelados.

– No meu trabalho anterior, argumentei que o estudo da metrópole do século XXI requer novas geografias da teoria (Roy, 2009). O urbanismo subalterno é de fato uma dessas abordagens. É um desafio vital e mesmo radical às narrativas apocalípticas e distópicas da megacidade. No entanto, o urbanismo subalterno tende a permanecer vinculado ao estudo dos espaços da pobreza, das formas essenciais da agência popular, do habitus dos despossuídos, do empreendedorismo das economias auto-organizadas. Estou interessada em um conjunto de projetos teóricos que perturbam o urbanismo subalterno e, portanto, quebram com os entendimentos ontológicos e topológicos da subalternidade.

REFERÊNCIAS:

ROY, Ananya. Cidades faveladas: repensando o urbanismo subalterno. In: E-Metropolis. N. 31, ano 8, dez/2017. _______Slumdog Cities: Rethinking Subaltern Urbanism. In: International Journal of Urban and Regional Research, 35:2, 223-238.