Javier Milei: como um outsider a favor da venda de órgãos foi destaque nas eleições primárias da Argentina. O candidato da ultradireita, admirador de Trump e aliado do bolsonarismo e do Vox espanhol, foi o mais votado neste domingo (13), alcançando o apoio de 30% dos argentinos.

REDAÇÃO ELDIARIO.ES, Madrid/Espanha

O candidato à presidência Javier Milei, fundador do partido A Liberdade Avança, surpreendeu nas eleições primárias na Argentina, cujos resultados apontam um giro do país rumo à extrema direita.

Nas eleições PASO (primárias, abertas, simultâneas e obrigatórias), nas quais os eleitores são convocados a votar em seus candidatos favoritos entre os apresentados por todos os partidos, a formação de Milei obteve mais de 30% de apoio. O pleito serve como uma fotografia eleitoral antes das eleições à presidência.

Milei, de 52 anos, parece ter convencido um terço do eleitorado com as suas denúncias contra “as castas” e “os políticos”, os sindicatos e, algumas vezes, “os jornalistas”. Por outro lado, não dedicou palavras hostis a empresários, à Igreja e aos donos de terras, nem a ex-presidentes de direita como o falecido peronista Carlos Menem ou o conservador Mauricio Macri.

Entre seus seguidores mais fieis há youtubers, corretores financeiros, figuras midiáticas, pregadores da ultradireita nostálgica da ditadura militar argentina, antifeministas e conservadores de todas as cores.

Em seu programa, defende o fim do aborto legal, o livre porte de armas e o fim da educação sexual nas escolas. Também afirmou que o aquecimento global é outra das mentiras do socialismo”. Em várias ocasiões diante da mídia, disse que quando criança sofreu maus-tratos físicos e verbais dos pais: “Para mim, eles não existem – Estão mortos”, dizia em 2018.

As últimas pesquisas antes das primárias davam ao candidato menos de 20% das intenções de voto, mas as sondagens se equivocaram

Propostas econômicas radicais

O economista e ex-assessor da Corporação América, um dos principais empórios econômicos argentinos, após sua vitória nas primárias arremeteu contra “essa aberração chamada ‘justiça social’, que é injusta porque implica um tratamento desigual frente à lei e “é baseada em roubo”.

O hiperliberalismo econômico que A Liberdade Avança propõe inclui a dolarização da economia, que poderia levar entre 9 e 24 meses até a circulação cotidiana do dólar nas ruas argentinas. Também propõe o fechamento do Banco Central do país e a privatização da saúde e da educação, somado ao encerramento do Estado, eliminando subsídios e baixando impostos e gastos com obras públicas. Uma “mudança de 180 graus”, define Milei.

O seu liberalismo econômico extremo o levou inclusive a apoiar a compra e venda de órgãos humanos, uma questão polêmica em sua campanha eleitoral, mas que aparentemente não deixou de lado. “É mais um mercado. Vocês podem pensar como um mercado. O problema é quando tudo tem que ser regulado pelo Estado”, critica.

Em sua habitual retórica contra a classe política tradicional, algo comum nas extremas direitas de todo o mundo, o candidato prometeu: “Estamos frente ao fim do modelo de castas, baseado nessa atrocidade que diz que, onde há uma necessidade, há um direito, mas se esquece que esse direito precisa de ser pago”. Pelo contrário, isso “se traduz num alto défice fiscal: dos últimos 122 anos, a Argentina teve défice durante 112”.

“No início do século 20, a Argentina teve 22 crises, produtos do défice fiscal, e hoje é o país com a maior pressão fiscal do mundo”, afirmou diante de seus seguidores, encontrando um terreno fértil na desastrosa economia argentina, com uma inflação galopante e uma taxa de pobreza que aumentou nos últimos anos (atualmente a pobreza de renda é de 39%, segundo dados oficiais).

De tertuliano a candidato presidencial

Os meios de comunicação abriram as portas da política para Milei quando fez sucesso nas redes sociais. Ao perfil tecnocrático, o economista agregou a si uma personalidade exuberante que fazia com que suas participações televisivas compensassem em termos de audiência.

Em meados de 2021, fundou o A Liberdade Avança para disputar as eleições legislativas. Nas primárias de setembro daquele mesmo ano, pela primeira vez como candidato, Milei obteve 13% dos votos na cidade de Buenos Aires, convertendo o seu recém-nascido partido na terceira força mais votada.

Após o seu primeiro sucesso eleitoral, Pablo Stefanoni, historiador argentino e autor do livro ‘A rebeldia se tornou de direita?’, explicou ao elDiario.es que “Milei encarna um liberalismo de direita que não existia na Argentina. Algumas coisas da direita alternativa global ressoam nele, por isso sua reivindicação de Trump, sua ligação com Bolsonaro e o Vox. Emerge como um outsider, um personagem excêntrico, esteticamente nos antípodas dos antigos liberais argentinos. Milei é visto, até agora, com aversão nas fundações liberais tradicionais.”

Antes desse encontro com as urnas, Javier Ortega Smith, secretário-geral do Vox, esteve em Buenos Aires como convidado de uma conferência organizada por Victoria Villaruel, a segunda candidata na lista de Milei. No encontro, o dirigente espanhol convidou a construir uma alternativa à esquerda radical na Argentina: “Proponho a vocês, tal como propusemos aos nossos compatriotas na Espanha, que busquem uma alternativa, mas não uma alternativa eleitoral de curto prazo, mas sim geracional.”

Milei às vezes utiliza o mesmo discurso da ultradireita espanhola, como o negacionismo em relação a ditadura e à memória histórica, dum país como a Argentina, onde a recente ditadura militar (1976-1983) é culpada por cerca de 30 mil desaparecidos.

Já Villaruel, candidata a vice-presidente de Milei, assinou o documento fundador do Foro de Madrid, criado em 2020 para combater a esquerda na “iberosfera”, introduzindo A Liberdade Avança no universo Vox, uma fonte de inspiração em seu caminho para a Casa Rosada (sede do Governo na Argentina).

O candidato ultraliberal também usa o adjetivo “comunistas” como um insulto aos seus adversários políticos e qualificou as políticas de memória e reparação como mera “doutrinação”, ideias todas amplificadas pelo mundo intelectual e jornalístico que o vem acompanhando desde sua ascensão meteórica.

Em um primeiro momento, o mercado eleitoral de Milei foi o dos “desiludidos”, tais  como o ex-presidente Macri (2015-2019), a quem sempre isentou de sua raiva. Porém, mais tarde, sua mensagem permeou setores populares ligados ao peronismo. Os problemas econômicos da Argentina deram a Milei a oportunidade de pescar o cansaço, sobretudo na classe média e média-baixa.

As últimas pesquisas antes das primárias davam ao candidato menos de 20% das intenções de voto, mas as sondagens se equivocaram mais uma vez e as propostas radicais de Milei, assim como sua “varinha mágica” para a economia, parecem ter atraído um em cada três argentinos que foram votar neste domingo (apesar de o voto ter caráter obrigatório, a abstenção não acarreta punições).

Milei, acima das expetativas

Ninguém previa que Milei seria o candidato mais votado em todo o arco político. Além disso, a vitória de Milei é ainda mais significativa, pois A Liberdade Avança foi a força mais votada em 17 das 24 províncias, do norte andino à Patagônia: cidades industriais, agrícolas, mineradoras, de alta densidade ou pouco habitadas. Milei venceu em Córdoba e Santa Fé, segunda e terceira províncias mais populosas e com grande poder econômico.

Na noite de domingo, após conhecer os resultados, o candidato afirmou que sua proposta representa uma “alternativa competitiva que não só porá fim ao kirchnerismo, mas acabará com a casta parasita, tola e inútil deste país”.

Milei pediu o apoio dos eleitores que não foram às urnas neste domingo para completar a “revolução liberal”, tendo em vista o primeiro turno das eleições presidenciais de 22 de outubro. A participação nas primárias foi quase sete pontos percentuais menor do que em 2019, ficando ligeiramente abaixo de 70%.

O atual sistema das primárias foi implantado há 12 anos e serve como uma espécie de sondagem para as eleições presidenciais, que também contam com uma votação peculiar: o vencedor do primeiro turno deve superar 45% dos votos ou obter entre 40% e 45% e mais de dez pontos percentuais acima do segundo colocado para poder evitar um segundo turno, que neste ano seria em 19 de novembro.

Confirmando a guinada à direita, a segunda mais votada foi a ex-ministra da Segurança Patricia Bullrich, a candidata com posições mais radicais dentro da coaligação conservadora Juntos pela Mudança que, com pouco mais de 28% dos votos, ficou ligeiramente à frente de União pela Pátria – a aliança dominante de centro-esquerda que alcançou 27% dos votos, graças ao apoio obtido pelo centrista Sergio Massa (21%).


Tradução: Guilherme Ribeiro

O artigo original pode ser visto aquí