ARTES VISUAIS

Por CWeA Comunicação

 

A humanista rebelde, filósofa do inconsciente e psiquiatra que negou a loucura como doença para tratá-la com arte foi homenageada em 2017 na série de mostras Ocupação Itaú Cultural. A exposição é acolhida agora pelo MII, em sua nova galeria, no edifício modernista que abrigou o Espaço Aberto ao Tempo, atualmente anexado à sede do museu. Ela marca, ainda, os 70 anos da sua criação pela própria Nise, em 1952, e a retomada das atividades para o público, além da mostra de longa duração. Do asilo ao Parque: 70 anos de história

 

 

a Ocupação Nise da Silveira é inaugurada no mais novo espaço do Museu de Imagens do Inconsciente – uma área revitalizada de mil metros quadrados do prédio recém-anexado à sede, que ganha o nome de Espaço Almir Mavignier, artista que criou os ateliês terapêuticos com Nise (1905-1999). A exposição exibe cartas, fotografias e manuscritos, além de 16 pinturas de artistas que frequentaram os ateliês criados por ela em 1946. Ainda, vídeos como o documentário Imagens do Inconsciente (1983-1986, 205 min), de Leon Hirszman; o raro registro da de Nise caminhando com Carl Gustav Jung (1875-1961), durante o II Congresso Internacional de Psiquiatria, realizado em 1957, em Zurique, Suíça, e a animação premiada “Estrela de oito pontas” (1996, 12 min), com imagens e histórias de Fernando Diniz, um dos artistas do ateliê da psiquiatra, dirigido por Marcos Magalhães.

Coincidindo com a reabertura da instituição para o público e marcando as suas sete décadas de existência, a exposição apresenta o universo desta mulher que dedicou sua vida à psiquiatria de forma peculiar, lutou contra as terapias de choque desde os anos de 1940, introduziu no Brasil a psicologia analítica de Jung, pautou seu trabalho pelo afeto, rejeitou as desigualdades e a rigidez das igualdades.

Em parceria do Itaú Cultural com a Sociedade Amigos do MII, a mostra tem curadoria dos Núcleos de Comunicação e de Educação e Relacionamento, da instituição de São Paulo, e do diretor do museu no Rio de Janeiro, Luiz Carlos Mello. As obras de revitalização do edifício agora incorporado ao MII, tiveram apoio do próprio Itaú Cultural – que também garantiu toda a estrutura de iluminação, sonorização e expografia –, do BNDES e da Prefeitura do Rio.

A Ocupação no MII

A Ocupação, vista em São Paulo em 2017 no Itaú Cultural, revela de maneira ampla o acervo pessoal de Nise, abrigado no MII. A mostra apresenta centenas de peças, entre a vasta correspondência da psiquiatra – como as cartas que trocou com Jung –, fotos pessoais, documentos que ganharam importância histórica, manuscritos, estudos, publicações, poemas – um deles, ela escreveu para o pai, inspirado em um dos Noturnos de Frederic Chopin. Encontra-se, ainda, estudos feitos por ela, depoimentos de familiares, amigos e colegas de trabalho. Também há livros que escreveu e outros que usou como referência para seus estudos. Dentro da acessibilidade, há pranchas táteis em todas as salas, com a descrição de alguns itens de cada módulo, e libras nos audiovisuais.

No conjunto, a exposição, que fica aberta por um ano no Museu, leva o visitante a percorrer com intensidade a vida e obra desta brasileira singular nascida em Maceió, Alagoas.

O visitante é recebido por uma grande fotografia cortinada de Nise, abrindo caminho para o universo que ela compartilhou. Atrás desta imagem vem um corredor ladeado por cinco salas expositivas. É neste espaço que o público ganha intimidade com a vida dela, começando por sua infância e seguindo a trajetória que resultou no importante legado que deixou: sua vida e família, a prisão, a volta da clandestinidade quando retomou o trabalho no serviço público e, contrariando o establishment, criou a Seção de Terapêutica Ocupacional e Reabilitação (Stor), cujo principal objetivo era estimular o tratamento de seus clientes (ela não os chamava “pacientes”) por meio de atividades, principalmente as artísticas.

Ao fundo, é exibido, em sala privada, o filme Imagens do inconsciente. Trata-se de um documentário realizado em 1986 pelo cineasta Leon Hirszman (1937-1987) sobre três casos de reabilitação psicossocial conduzidos por Nise e uma entrevista com ela. Os artistas são Fernando Diniz (1918-1999), Adelina Gomes (1916-1984) e Carlos Pertuis (1910-1977), que frequentaram os ateliês criados pela psiquiatra.

Outros vídeos ajudam a absorver ainda mais a atmosfera de sua vida, suas ações, seu pensamento e o quanto o seu trabalho se desdobrou. Um deles é um raro vídeo mostrando Nise com C.G. Jung feito durante o II Congresso Internacional de Psiquiatria, realizado em 1957 em Zurique. Outro é a animação Estrela de oito pontas, de Fernando Diniz, um dos artistas do ateliê de Nise. Dirigido por Marcos Magalhães, esse desenho animado ganhou vários prêmios no Brasil e no exterior, incluindo o Kikitos no Festival de Gramado.

A mostra se desdobra por mais quatro salas. Na primeira delas, destaca-se um grande mapa-múndi apontando os lugares no mundo onde a ciência e a filosofia de Nise da Silveira tocaram com sua delicadeza e garra. Trocando cartas e ideias, ou presencialmente, o seu pensamento alcançou 31 cidades, em nove países – Brasil incluído.

O espaço expositivo, também abriga pinturas de seus clientes históricos e documentação e iconografia dos temas que permearam o seu percurso, como arte e psiquiatria, sua relação com Jung e as mandalas, grupo de estudos sobre o mesmo Jung, animais coterapeutas – para Nise, os animais tinham grande importância –, campos de estudo, influências e referências em sua vivência –como o objeto que ela chamava de seu brasão indígena, formado por umapeneira, para filtrar o trabalho retirando os excessos, e dois abanadores para manter viva a paixão pelo trabalho. Destacam-se, nesse percurso, o Museu e a Sociedade Amigos do Museu de Imagens do Inconsciente, criada por Nise para garantir a continuidade do trabalho após sua aposentadoria.

O Museu de Imagens do Inconsciente, criado por Nise da Silveira, em 1952, e a Sociedade Amigos do Museu de Imagens do Inconsciente, constituída em dezembro de 1974, às vésperas de sua aposentadoria, para dar continuidade ao seu trabalho e ao seu legado, têm destaque no percurso da exposição.

Museu de Imagens do Inconsciente

Instalado em um antigo complexo hospitalar psiquiátrico, no bairro do Engenho de Dentro, Zona Norte do Rio de Janeiro, o Museu de Imagens do Inconscienteabrange quatro edifícios: Humberto Franceschi (sede), Espaço Almir Mavignier (anexo, que será inaugurado no dia 10 de setembro de 2022), Garagem Criativa Gladys Schincariol e Ateliê Fernando Diniz. Desde 2011, a Sociedade Amigos do Museu de Imagens do Inconsciente vem desenvolvendo projetos de modo a que toda a área em que o MII está inserido seja transformada no Parque Nise da Silveira. Em julho de 2012, o mesmo decreto que criou o Instituto Rio Patrimônio da Humanidade, órgão da Prefeitura, estabeleceu a criação do Parque Nise da Silveira. Com perto de 80 mil metros quadrados, e um total de doze edificações (incluindo as do MII), o Parque Nise da Silveira está ganhando forma. Já foi criado o Bosque D. Ivone Lara, com perto de 6 mil metros quadrados, batizado em homenagem à grande compositora e cantora nascida em 1921 e falecida em 2018, que foi enfermeira e teve atuação destacada na atenção à saúde mental, sendo ainda aluna de Dra. Nise em Terapêutica Ocupacional. Nos últimos anos, as melhorias no Museu de Imagens do Inconsciente compreendem a ampliação das áreas totais de 948m2 para 2.337 m2, do espaço expositivo de 253,4m2 para 584,9m2, e da administração, de 55,9m2 para 83,1m2.

O MII foi selecionado três anos seguidos para receber Emendas Parlamentares do Congresso Nacional, cujos recursos foram destinados ao inventário de 50 mil obras do lote das 128 mil tombadas pelo IPHAN – de um universo total de 400 mil obras do acervo – e a construção de um site bilíngüe, com 400 obras e textos informativos, em fase de finalização. Atualmente está em curso a digitalização de três dos quinze documentários realizados pela equipe do MII sob a supervisão da própria Dra. Nise, e dirigidos por Luiz Carlos Mello: “Emygdio: um caminho para o infinito” (45′), “Os Cavalos De Octávio Ignácio (30′) e “Arqueologia da Psique” (75′).

Sociedade de Amigos do MII

Em dezembro de 1974, às vésperas da aposentadoria da Dra. Nise da Silveira, um grupo de colaboradores, liderados pela educadora Zoé Noronha Chagas Freitas, criou a Sociedade Amigos do Museu de Imagens do Inconsciente (SAMII). Em sua ata de fundação encontram-se nomes de importantes personalidades de destaque no campo da cultura, das artes e da política.

Presidida por Marcos Lucchesi, grande amigo da Dra. Nise, e tendo como vice-presidente o compositor e museólogo Eurípedes Júnior, que trabalhou com ela, a SAMII é a responsável pelos grandes projetos que o Museu de Imagens do Inconsciente (MII) tem desenvolvido desde então. A partir de parcerias com instituições públicas e privadas, a SAMII tem garantido a melhoria das edificações do MII, do trabalho de técnicos e pesquisadores, documentação e o acondicionamento do acervo e sua catalogação, o apoio constante às atividades terapêuticas e à pesquisa, exposições, documentários e publicações.

Ao longo dessa trajetória importantes nomes de nossa cultura estiveram à sua frente, sempre mantendo o comprometimento com o trabalho da Dra. Nise e da equipe do Museu. O tombamento de parte do acervo pelo IPHAN e o Registro do Arquivo Pessoal da mestra no Programa Memória do Mundo na UNESCO são resultados de iniciativas da SAMII para proteger e divulgar esse importante legado. O projeto de Expansão do MII, atualmente em execução, inclui a luta pela transformação do antigo hospício em um Parque público, ideia que a SAMII lançou oficialmente em 2011 e desde então tem incessantemente lutado pela sua concretização.

SERVIÇO

Ocupação Nise da Silveira

Museu de Imagens do Inconsciente

Rua Ramiro Magalhães, 521

Engenho de Dentro, Rio de Janeiro (RJ)

Visitação: terças-feiras a sábado, das 10h às 16h

Classificação indicativa: Livre

Entrada: gratuita

Acessível em Libras