Os efeitos da guerra na Ucrânia chamaram a atenção do mundo para os preços de energia. No entanto, a insegurança alimentar também está aumentando e é provável que piore.

Por John P. Ruehl*

Com uma das terras mais férteis do mundo, o apelido de cesta de pão da Europa é um eufemismo do potencial agrícola da Ucrânia. Junto da Rússia, os dois países concentram cerca de 14% das exportações mundiais de milho, 22% de colza/canola, 27% de trigo e 30% de cevada, bem como quase 70% das exportações mundiais de óleo de girassol. A Rússia também é a maior exportadora de fertilizantes do mundo e por isso o sistema alimentar global encara ao mesmo tempo os desafios das sanções ocidentais sobre a Rússia e dos custos mais altos tanto das importações quanto do cultivo dos alimentos.

Desde fevereiro, a Rússia controla algumas das regiões agrícolas mais vitais ao leste e sudeste da Ucrânia. O exército russo também impediu o acesso da Ucrânia a seus portos no Mar Negro recentemente, deixando o país basicamente sem saída para o mar e incapaz de exportar sua produção de alimentos aos mercados internacionais.

Entretanto, apesar da guerra certamente ter agravado a crise alimentar mundial, ela foi precedida pela alta dos preços dos alimentos em 2007 e 2011, além do aumento testemunhado devido à COVID-19, após décadas de queda nos preços dos alimentos em termos reais. Em 2021, dados da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) mostraram mais aumentos massivos nos preços de carne, leite, cereais, óleos vegetais e açúcar que superaram a alta anterior vista em 2007 e 2011.

Desde o início da Guerra da Ucrânia, os preços dos alimentos dispararam ainda mais. A situação destacou os níveis decrescentes da autossuficiência alimentar ao redor do mundo, a qual a FAO define como “a proporção em que um país consegue atender suas necessidades alimentares com sua própria produção nacional.” A autossuficiência alimentar cai mundialmente desde os anos de 1960, particularmente na África, mas também em países como o Japão.

Com base nas tendências atuais, a projeção é que apenas 14% dos países alcancem a autossuficiência alimentar até o fim do século, de acordo com um artigo do jornal Environmental Research Letters. Portanto as importações se tornarão continuamente mais vitais para o número cada vez maior de países incapazes de atender às suas necessidades alimentares por meio da produção interna. Porém, a volatilidade progressiva dos preços dos alimentos desde 2007 tem testado a viabilidade e competência deste sistema.

A segurança alimentar, capacidade de atender às demandas alimentares por meio da produção interna e das importações, também diminuiu em todo mundo nos últimos anos. Enquanto os países mais ricos que se desenvolveram com menor autossuficiência de produção alimentar antes conseguiam suportar os custos crescentes das importações, agora também estão sendo afetados pela escassez alimentar.

À parte da Guerra da Ucrânia e da interrupção das cadeias de suprimentos mundiais durante a pandemia da COVID-19, outros fatores também agravaram esses problemas. Em 2000, a população global equivalia a cerca de 6,1 bilhões de pessoas e hoje equivale a 7,9 bilhões. Os hábitos alimentares mundiais também mudaram, com o aumento substancial do consumo de carne per capita nos últimos 20 anos. Altas taxas de obesidade, antes limitadas à Europa e América do Norte, hoje prevalecem ao redor do mundo.

Com mais bocas para alimentar, a segurança alimentar mundial também vem sendo ameaçada pela perda de solo arável devido a erosão, poluição, mudança climática e a crescente escassez de água nas últimas décadas. Essas questões foram parcialmente compensadas pelo aumento da eficiência na produção alimentar e na globalização, o que permitiu aos países que vendessem o excedente de alimentos em um mercado competitivo.

No entanto, a Guerra da Ucrânia intensificou esses problemas. Além de suprimir a capacidade de exportação da Ucrânia, a Rússia reduziu significativamente as exportações agrícolas e de alimentos a “países hostis” no despertar das sanções, cortando o fornecimento da maioria dos alimentos exportados para o mundo Ocidental, bem como para o Japão e Coreia do Sul.

No entanto, mesmo os exportadores líquidos, como a Rússia, estão em apuros, com o Kremlin anunciando em março que iria “suspender as exportações de trigo, meslin, centeio, cevada e milho para a União Econômica Euroasiática (UEE)” — bloco econômico liderado pela Rússia — até 31 de agosto para garantir sua própria reserva interna de alimentos.

A crise alimentar instigou outros países a despender grandes esforços para fortalecer suas posições a fim de proteger os sistemas de abastecimento de alimentos. Os EUA importaram mais de US$ 1 bilhão em fertilizantes da Rússia, em 2021. Em uma tentativa de contrabalancear a dependência agrícola americana com a Rússia, o presidente Joe Biden destinou, em 1° de junho, US$ 2,1 bilhões para fortalecer o sistema alimentar da nação.

Em março, a União Europeia destinou cerca de € 1,5 bilhão para auxiliar o sustento dos setores agropecuários do bloco e também flexibilizou os regulamentos sobre o Pacto Ecológico Europeu, incluindo restrições sobre a terra disponível para cultivo. Apresentado em 2019 com o intuito de diminuir e eliminar as emissões de gases do efeito estufa, a marginalização do Pacto Ecológico acentuou a gravidade da situação.

Quando os preços começaram a aumentar rapidamente em 2021, a China foi acusada de estocar grãos. Em dezembro, o país detinha cerca de metade da reserva mundial de grãos, e de acordo com dados fornecidos pelo Departamento de Agricultura dos EUA, durante a primeira metade de 2022, estimava-se que a China teria metade da reserva mundial de trigo, 60% da reserva de arroz e quase 70% do milho.

Mais de uma dúzia de países baniram parte ou todas as exportações de alimentos até o fim deste ano ou início do próximo, e tais medidas provavelmente não serão as últimas. O último salto do preço do trigo, que subiu mais de 40% desde janeiro, seguiu o anúncio da Índia de que iria proibir as exportações após uma onda de calor que destruiu as plantações no país. Como segundo maior produtor de trigo do mundo, a decisão da Índia acertou outro golpe na insegurança em torno dos mercados mundiais de alimentos.

O Sri Lanka sofre efeitos mais drásticos. Em 2021, o presidente, Gotabaya Rajapaksa, decretou a proibição de fertilizantes sintéticos, pesticidas e herbicidas com o intuito de tornar o setor agrícola do país totalmente orgânico até 2030. Em meio a objeções de que a proibição se tratava de uma mera tentativa de reduzir as importações e manter as reservas de moeda estrangeira do Sri Lanka, esta mudança acabou por dizimar a produção interna de alimentos.

Tendo enfrentado uma crise econômica em 2019, a pandemia e o aumento dos custos de alimentos e energia como consequência da Guerra da Ucrânia, o Sri Lanka ficou inadimplente pela primeira vez na história, em maio. Outros países economicamente instáveis correm risco de um destino parecido, com o Sri Lanka vivenciando protestos violentos.

As consequências caóticas do aumento dos custos dos alimentos já podiam ser vistas há mais de uma década. O preço dos alimentos foi um fator decisivo para a deflagração da primavera árabe, que viu protestos, quedas de governos e levou a guerras civis. Em geral, cerca de 40% a 50% das importações de alimentos da região árabe vêm da Ucrânia e da Rússia, o que indica que a região é particularmente vulnerável à insegurança alimentar.

Mesmo antes da invasão da Ucrânia, um número crescente de pessoas ao redor do mundo enfrentava a subnutrição. O ano passado bateu um recorde de alta de quase 193 milhões de pessoas passando por insegurança alimentar aguda em 53 países e territórios, de acordo com o Relatório Global sobre Crises Alimentares (GRFC).

Junto a milhões de ucranianos que precisarão de ajuda alimentar este ano, safras abaixo do esperado e conflitos em outras partes do mundo apontam que países como Iêmen, Burkina Faso, Quênia, Nigéria, Níger, Somália e Sudão do Sul também são países de alto risco, além de mais duramente afetados pelo aumento dos custos dos alimentos.

Apesar da crise alimentar ter instigado os governos a adotar políticas nacionalistas para se protegerem, há alguns exemplos de cooperação internacional. A Índia concedeu ao Sri Lanka bilhões de dólares em empréstimos desde o início de sua crise econômica, bem como entregas de emergência de alimentos.

Enquanto isso, os Estados europeus tentam desenvolver rotas alternativas de transporte para os alimentos ucranianos longe dos portos controlados pela Rússia no Mar Negro, ao mesmo tempo, o ministro das relações exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, visitou a Turquia, em 8 de junho, para discussões que incluíam a criação de um corredor no Mar Negro para viabilizar a distribuição dos grãos da Ucrânia para o resto do mundo.

No entanto, assim como a energia, a comida também tem sido usada como arma de política externa. Confrontados com o fato de que a insegurança alimentar é uma das maiores vantagens do presidente russo, Vladimir Putin, contra o Ocidente, é esperado que ele garanta ainda mais que a atual crise alimentar continue. O ex-presidente russo, Dmitry Medvedev, declarou em 1° de abril que as exportações de alimentos eram uma arma “silenciosa mas ameaçadora” que a Rússia pretendia usar.

A Agência Federal de Investigação dos Estados Unidos (FBI) também alertou contra os crescentes ataques cibernéticos e possíveis sabotagens de instalações agrícolas e de alimentos nos Estados Unidos. Com a crise alimentar global se aproximando de uma nova fase, aumentar as exportações ucranianas, encorajar a cooperação internacional e desenvolver iniciativas agrícolas adicionais serão cruciais para vencê-la.


Este artigo foi produzido por Globetrotter.

* John P. Ruehl é um jornalista australiano-americano que mora em Washington, D.C. Ele é editor contribuinte da Strategic Policy e colaborador de várias outras publicações de relações exteriores. Atualmente ele está terminando um livro sobre a Rússia, que será publicado em 2022.

 

Traduzido do Inglês por Jenifer Araújo/ Revisado por: Doralice Silva