Por C.J. Polychroniou¹/Truthout
Publicação do 11/05/22

Esta semana, a Organização Meteorológica Mundial advertiu que o mundo tem 50% de chance de constatar o aumento de 1,5ºC no aquecimento global acima dos níveis pré-industriais, com previsão de ocorrer dentro dos próximos cinco anos. Mesmo aqueles que comungam da teoria do copo meio cheio tendem a concordar que os esforços mundiais empreendidos até agora, no sentido de combater a crise climática, embora significativos em alguns aspectos, não tenham sido suficientes. De fato, a economia global continua a depender em grande escala dos combustíveis fósseis, que ainda são responsáveis por cerca de 80% do fornecimento de energia.

Os alertas sobre uma catástrofe climática inevitável contidos no segundo e terceiro parágrafos da mais recente revisão, no que tange à ciência climática, feita pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) das Nações Unidas, divulgados em 28 de fevereiro e 4 de abril de 2022, respectivamente, foram completamente ignorados em meio à guerra na Ucrânia e ao aumento exorbitante dos custos de energia.

Nos Estados Unidos, a resposta do governo Biden ao aumento dos preços do gás foi retomar a perfuração de petróleo e gás em território estadunidense e anunciar “a maior liberação de petróleo das reservas estratégicas de petróleo de todos os tempos”. Os demais países têm respondido de forma bem parecida, a partir de uma postura imediatista em relação às consequências da guerra na Ucrânia.

O mundialmente renomado acadêmico-ativista Noam Chomsky luta com as consequências desse tipo de pensamento imediatista, em meio a tensões militares crescentes, como podemos constatar nesta entrevista exclusiva concedida para a Truthout. Chomsky é o pai da linguística moderna e um dos mais citados estudiosos da história moderna, além de ser o autor de cerca de 150 livros publicados. Ele é docente e professor emérito de linguística do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e atualmente é um dos professores laureados nos quadros da Universidade do Arizona.

A transcrição a seguir foi ligeiramente editada para ampliar o conteúdo das informações obtidas e em nome da clareza.

– C.J. Polychroniou: Chomsky, a guerra na Ucrânia vem causando um sofrimento humano inimaginável, mas também traz consequências econômicas em nível mundial, além de ser uma notícia terrível para a luta contra o aquecimento global. De fato, como resultado do aumento dos custos de energia e das preocupações com a segurança energética, os esforços de descarbonização acabaram ficando em segundo plano. Nos Estados Unidos, a administração Biden adotou o slogan republicano “drill, baby, drill,” (“perfurem, pessoal, perfurem”), a Europa está empenhada em construir novos gasodutos e instalações de importação, e a China planeja aumentar a sua capacidade de produção de carvão. O senhor pode comentar sobre as implicações destes desdobramentos lamentáveis e explicar por que esse tipo de pensamento imediatista continua a prevalecer entre os líderes mundiais, mesmo em uma época em que a humanidade poderia estar à beira de uma ameaça existencial?

– Noam Chomsky: A última pergunta não é novidade. De uma forma ou de outra, isso sempre aconteceu ao longo da história.

Tome, por exemplo, este caso, que foi exaustivamente estudado: Por que os líderes políticos entraram em guerra em 1914, extremamente confiantes em sua própria virtude? E por que os intelectuais mais proeminentes de cada país em guerra se alinharam com entusiasmo apaixonado em apoio a seu próprio Estado – isso sem falar em um punhado de dissidentes, sendo que os mais proeminentes desse grupo foram presos (Bertrand Russell, Eugene Debs, Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht)? Não se tratava de uma crise terminal, mas foi suficientemente grave.

Esse padrão de comportamento remonta há muitos anos na história. E nada mudou, salvo alguns exemplos em contrário, até que, em 6 de agosto de 1945, tivemos notícias de que a inteligência humana havia chegado ao seu nível mais alto, ao ponto em que, em um piscar de olhos, o homem foi capaz de cometer um extermínio generalizado.

Observando de perto esse padrão de comportamento, ao longo dos anos, uma conclusão básica a que chego me parece óbvia: qualquer que seja a política estratégica, não se está falando em nome da segurança – pelo menos, na segurança da população. Isso é, na melhor das hipóteses, uma preocupação marginal. Isso vale também para as ameaças existenciais. Temos que procurar em outro lugar.

Um bom ponto de partida, penso eu, é o que me parece ser o princípio mais bem estabelecido da teoria das relações internacionais. Refiro-me à observação feita por Adam Smith de que os “Mestres da Humanidade” — que, em sua época, eram os comerciantes e fabricantes da Inglaterra, vale dizer —, são os “principais arquitetos da política [estatal]”. Eram os que usavam o seu poder para assegurar que seus próprios interesses “fossem atendidos de forma mais peculiar” por mais “dolorosos” que fossem os efeitos sobre os demais, incluindo o povo da Inglaterra, porém, de forma mais brutal, as vítimas da “injustiça selvagem dos europeus”. Seu alvo particular era a selvageria britânica na Índia, então em seus estágios iniciais, já suficientemente horripilantes.

As coisas não mudam muito, quando as crises se tornam existenciais. Os interesses imediatistas prevalecem. A lógica é clara em sistemas competitivos, como nos mercados sem regulamentação. Aqueles que não jogam o jogo logo estarão fora das quatro linhas. A concorrência entre os “principais arquitetos da política”, no sistema estatal, tem propriedades um tanto quanto semelhantes, mas devemos ter em mente que a segurança da população está longe de ser um princípio norteador, como a história mostra claramente.

Você está muito certo sobre o impacto horrível da criminosa invasão russa na Ucrânia. A discussão nos Estados Unidos e na Europa se concentra no sofrimento na própria Ucrânia, de forma bastante razoável, enquanto aplaudimos a nossa política de acelerar a miséria, que não me parece nada razoável. Vou voltar a esse ponto.

Já falamos que a política de escalada da guerra na Ucrânia, em vez de se buscar medidas para acabar com o conflito, tem um impacto terrível e que ultrapassa as fronteiras da Ucrânia. Como amplamente divulgado, a Ucrânia e a Rússia são grandes exportadores de alimentos. A guerra cortou o fornecimento de alimentos às populações desesperadas e carentes, particularmente na África e na Ásia.

Tomemos apenas um exemplo, o da pior crise humanitária do mundo, de acordo com a ONU: o Iêmen. Mais de 2 milhões de crianças passando fome, relata o Programa Mundial de Alimentação. Quase 100% dos cereais são importados, “sendo a Rússia e a Ucrânia responsáveis pela maior parte do trigo e dos produtos derivados do trigo (42%)”, além da farinha re-exportada e do trigo processado, que tem origem na mesma região.

Essa crise vai muito além. Tentemos ser honestos a esse respeito: a perpetuação da guerra é, simplesmente, um programa de assassinatos em massa em grande parte do Sul Global.

Isso para dizer o mínimo. Há um debate corrente nos meios de comunicação supostamente sérios a respeito de como os Estados Unidos seriam capazes de vencer uma guerra nuclear com a Rússia. Esse tipo de debate beira a insanidade criminosa. E, infelizmente, as políticas orquestradas pelos EUA e a OTAN oferecem muitos cenários possíveis para o rápido extermínio da sociedade humana. Considerando apenas um desses cenários, Putin se absteve até agora de atacar as linhas de suprimento por onde a Ucrânia recebe armamento pesado. Não será uma grande surpresa se essa postura de moderação mudar, aproximando a Rússia e a OTAN de um conflito direto, com um caminho fácil para uma escalada de reciprocidades, que pode muito bem levar a um rápido adeus.

O mais provável, na verdade altamente provável, é que a humanidade morra de forma mais lenta devido ao envenenamento do planeta. O relatório mais recente do IPCC deixou bem claro que, para que haja esperança de um mundo habitável, devemos parar de usar combustíveis fósseis o quanto antes, agindo com atitudes firmes, até que eles sejam logo eliminados. Como você bem destacou, o efeito da guerra em curso é acabar com as iniciativas muito limitadas que estão sendo adotadas, de fato para revertê-las e acelerar a corrida ao suicídio.

Há, naturalmente, uma grande alegria nas diretorias das grandes empresas dedicadas à destruição da vida humana na Terra. Hoje em dia, esses executivos estão livres das restrições e da ladainha de ambientalistas irritantes, bem como têm sido elogiados por salvar a civilização que agora são encorajados a destruir de forma ainda mais rápida. Os fabricantes de armas compartilham sua euforia sobre as oportunidades oferecidas pelo conflito que parece não ter fim. Esses empresários têm sido encorajados a desperdiçar recursos escassos que são extremamente necessários para fins humanitários, no que diz respeito à alimentação e moradia. Assim como seus parceiros nessa destruição em massa, as grandes empresas do setor ligado aos combustíveis fósseis, o que os fabricantes de armas estão fazendo é nadar no dinheiro arrecadado com os impostos pagos pelos contribuintes.

O que poderia ser melhor ou, olhando por uma perspectiva diferente, o que poderia ser mais insano? Faríamos bem em recordar as palavras do presidente Dwight D. Eisenhower em seu discurso que ficou conhecido como a “Cruz de Ferro”, em 1953:

Cada arma fabricada, cada navio de guerra lançado ao mar, cada foguete disparado significa, no final das contas, um roubo daqueles que passam fome porque não recebem alimentos, daqueles que passam frio porque não têm o que vestir. E esse mundo das armas não está gastando dinheiro sozinho. Eles gastam o suor dos seus operários, a genialidade de seus cientistas, as esperanças de seus filhos. O custo de um bombardeiro pesado moderno equivale ao de uma escola moderna de tijolos, que poderia ser construída em mais de 30 cidades. Equivale a duas usinas elétricas, cada uma abastecendo uma cidade de 60.000 habitantes. Estamos falando de dois hospitais de alto nível, totalmente equipados. Falamos de aproximadamente 80 quilômetros de pavimentação de estradas com concreto. Pagamos por um único combatente o equivalente a meio milhão de alqueires de trigo. Pagamos por um único navio de guerra, por exemplo, por um contratorpedeiro (navio de guerra que protege a frota contra ataques de submarinos inimigos) o equivalente a construção de moradias que poderiam abrigar mais de 8.000 pessoas…. Não se pode chamar isso de um modo de vida, de forma alguma, em qualquer sentido verdadeiro. Sob a nuvem da guerra ameaçadora, encontra-se a humanidade pendurada em uma cruz de ferro.

Essas palavras dificilmente poderiam ser mais apropriadas hoje em dia.

Voltemos ao porquê de os “líderes mundiais” seguirem nesse rumo doido. Primeiro, vejamos se conseguimos encontrar alguém que mereça receber essa denominação, a não ser em tom irônico.

Digamos que houvesse; eles se dedicariam a pôr um fim ao conflito da única maneira possível: pela diplomacia e pelo estadismo. Os contornos gerais de um acordo político há muito foram compreendidos. Já discutimos sobre esse tipo de acordo antes e também documentamos a determinação dos Estados Unidos (tendo a OTAN a reboque) para minar a possibilidade de um acordo diplomático, de forma muito aberta e com visível orgulho. Não deveria haver necessidade de reviver toda essa desastrosa história novamente.

Um refrão comum é que “Mad Vlad” (uma menção ao doido do Putin) é tão insano, e tão imerso em sonhos selvagens de reconstruir um império e talvez conquistar o mundo, que não adianta nem ouvir o que os russos estejam dizendo, ou seja, se for capaz de escapar da censura dos EUA e encontrar alguns fragmentos na TV estatal indiana ou na mídia do Oriente Médio. E certamente não há necessidade de contemplar um compromisso diplomático com essa criatura. Portanto, não vamos sequer explorar a única possibilidade de acabar com esse horror da guerra e continuar nessa escalada do conflito, não importa quais sejam as consequências para os ucranianos e para o mundo.

Os líderes ocidentais, incluindo grande parte da classe política, estão agora consumidos com duas linhas majoritárias de pensamento: a primeira é que a força militar russa é tão avassaladora que logo poderá tentar conquistar a Europa Ocidental, ou mesmo avançar mais além. Assim, temos que “lutar contra a Rússia naquele território” (passando por cima de corpos ucranianos) para que “não tenhamos que lutar contra a Rússia em nosso território”, vale dizer, em Washington, D.C. É o que nos adverte Adam Schiff, um democrata, presidente da Comissão Permanente de Inteligência da Câmara dos Deputados dos EUA.

A segunda linha de pensamento é que a força militar russa demonstrou ser um tigre de papel, tão incompetente e frágil, e tão mal comandada, que não consegue conquistar cidades a poucos quilômetros de sua fronteira defendida em grande parte por um exército de cidadãos.

Esse pensamento é o objeto de muita alegria. O primeiro suscita o terror em nossos corações.

Orwell definiu “pensamento duplo” como a capacidade de ter em mente duas ideias contraditórias e acreditar em ambas, uma maldição apenas imaginável em Estados ultratotalitários.

Caso fosse adotado o primeiro pensamento, devemos nos armar até os dentes para nos proteger dos planos demoníacos do tigre de papel, mesmo que os gastos militares russos sejam uma fração dos gastos da OTAN, sem considerar os EUA. Aqueles que sofrem de perda de memória ficarão felizes em saber que a Alemanha tomou a dianteira e poderá em breve superar a Rússia em gastos militares. Agora Putin terá que pensar duas vezes antes de conquistar a Europa Ocidental.

Para repetir o óbvio, a guerra na Ucrânia pode terminar com um acordo diplomático, ou com a derrota de um dos lados, seja rapidamente ou decorrente de um estado de agonia prolongada. A diplomacia, por definição, é um jogo entre o dar e o receber. Cada lado deve aceitar as regras desse jogo. Nesse caso, da guerra na Ucrânia, ato contínuo a um acordo diplomático, deve ser oferecido a Putin alguma rota de fuga.

Ou aceitamos a primeira opção, ou seja, a diplomacia, ou a rejeitamos. Isso pelo menos não é controverso. Se a rejeitarmos, estaremos escolhendo a segunda opção. Como essa é a preferência quase universal no discurso ocidental, e continua a ser a política dos EUA, vamos considerar o que isso implica.

A resposta é simples: A decisão de rejeitar a diplomacia significa que faremos um experimento para ver se o cachorro maluco e irracional se afastará silenciosamente, no caso de derrota total, ou se ele usará os meios que certamente tem para destruir a Ucrânia e preparar o cenário para a guerra terminal.

E enquanto conduzimos esse grotesco experimento com a vida dos ucranianos, garantiremos que milhões de pessoas passem fome devido à crise alimentar, brincaremos com a possibilidade de uma guerra nuclear e correremos entusiasmados para destruir o ambiente que sustenta a vida.

É claro que é possível que Putin simplesmente se renda e que ele se abstenha de usar as forças que estão sob o seu comando. E talvez possamos simplesmente rir das perspectivas de recorrer às armas nucleares. Factível, sim, mas que tipo de pessoa estaria disposta a fazer essa aposta?

A resposta é: os líderes ocidentais, descaradamente, de mãos dadas com a classe política. Isso tem sido óbvio, durante anos, e até mesmo motivo de declarações oficiais. E para garantir que todos entendessem, a posição foi reiterada com bastante ênfase, em abril, na primeira reunião mensal do “Grupo de Contato”, que inclui a OTAN e os países parceiros. A reunião não foi realizada na sede da OTAN em Bruxelas, na Bélgica. Pelo contrário, todas as pretensões foram abandonadas e a reunião foi realizada na Base Aérea de Ramstein, que, tecnicamente falando, localiza-se em território alemão, mas no mundo real pertencente aos EUA.

O secretário da Defesa Lloyd Austin abriu a reunião com uma declaração em que afirma que “a Ucrânia acredita piamente que pode vencer, assim como todos aqui presentes”. Portanto, os dignitários reunidos não devem hesitar em despejar armamento de ponta na Ucrânia e persistir nos demais programas, orgulhosamente anunciados, para trazer a Ucrânia efetivamente para a estrutura da OTAN. Em sua sabedoria, os dignitários presentes e seu líder garantem que Putin não terá as reações que todos sabem que ele é capaz.

O registro do planejamento militar por vários anos, na verdade por séculos, indica que “todos aqui presentes” podem, de fato, apegar-se a essas crenças fantásticas. Quer assim procedam ou não, eles estão, claramente, dispostos a realizar um experimento envolvendo a vida dos ucranianos e o futuro da vida na Terra.

Uma vez tenhamos a garantia sobre esta alta autoridade de que a Rússia observará passivamente tudo isso sem reação, poderemos adotar outras medidas para “integrar a Ucrânia à OTAN, de uma vez por todas”, de acordo com os objetivos do ministério da Defesa ucraniano, instituindo a “total compatibilidade do exército ucraniano com os exércitos dos países da OTAN” e, dessa forma, garantindo também que nenhum acordo diplomático possa ser alcançado com qualquer governo russo, a menos que a Rússia seja de alguma forma transformada em um satélite dos EUA.

A política atual dos EUA exige uma guerra prolongada com vistas a “enfraquecer a Rússia” e garantir a sua derrota total. A política é muito semelhante ao modelo afegão dos anos 1980, que hoje, na verdade, é abertamente defendido nos altos escalões pela ex-secretária de Estado Hillary Clinton, por exemplo.

Como esse objetivo se aproxima da política atual dos EUA, mesmo um modelo de trabalho, vale a pena observar o que realmente aconteceu nos anos 1980, quando a Rússia invadiu o Afeganistão. Felizmente, hoje em dia temos um relato detalhado e autorizado feito por Diego Cordovez, que dirigiu os bem-sucedidos programas da ONU, que puseram fim à guerra, e do ilustre jornalista e acadêmico Selig Harrison, que tem ampla experiência na região.

A análise da dupla Cordovez-Harrison derruba completamente a versão recebida. Eles demonstram que o fim da guerra se deveu a uma cuidadosa diplomacia administrada pela ONU, não pela força militar. As forças militares soviéticas eram plenamente capazes de continuar em guerra. A política dos EUA de mobilizar e financiar os islamistas radicais mais extremistas para lutar contra os russos se resumiu em “lutar até o último afegão”, concluem, em uma guerra por procuração para enfraquecer a extinta União Soviética. “Os Estados Unidos fizeram o seu melhor para evitar o surgimento de um papel a ser desempenhado pela ONU”, ou seja, evitaram que a organização desempenhasse esforços diplomáticos, cuidadosamente empreendidos, que fossem capazes de pôr fim à guerra.

A política dos EUA aparentemente atrasou a retirada russa que havia sido contemplada pouco depois da invasão, o que, como demonstram, tinha objetivos limitados, que não guardavam semelhança com os objetivos impressionantes da conquista mundial que foram conjurados na propaganda estadunidense. “A invasão soviética não foi claramente o primeiro passo de um plano mestre expansionista de uma liderança unida”, escreve Harrison, confirmando a conclusões do historiador David Gibbs com base nos arquivos soviéticos divulgados.

O chefe da CIA em Islamabad, que conduziu diretamente as operações, resumiu o argumento principal de forma bem simples: o objetivo era matar soldados russos – dar à Rússia o seu Vietnã, como proclamado por funcionários do alto escalão dos EUA, revelando a colossal incapacidade de entender qualquer coisa sobre a Indochina, que foi a marca registrada da política dos EUA durante décadas de massacre e destruição.

A dupla Cordovez-Harrison escreveu que o governo dos EUA “estava dividido desde o início entre ‘sanguinários’, que queriam manter as forças soviéticas presas no Afeganistão e assim vingar o Vietnã, e ‘negociadores’, que queriam forçar sua retirada por meio de uma combinação de diplomacia e pressão militar”. É uma distinção que aparece com muita frequência. Os sanguinários geralmente vencem, causando danos irreparáveis. Para “o decisor”, seria cômodo tomar emprestada a autodescrição feita por George Bush pai, de que é mais seguro parecer durão do que parecer mole demais.

O Afeganistão é um caso em questão. Na administração Carter, o secretário de Estado Cyrus Vance foi um negociador, que sugeriu compromissos de longo alcance que quase certamente teriam impedido, ou pelo menos restringido ao extremo, o que se pretendia que fosse uma intervenção limitada. O conselheiro de Segurança Nacional Zbigniew Brzezinski foi o sanguinário da vez, com a sua intenção de vingar o Vietnã, o que quer que isso significasse em sua confusa visão de mundo, e de matar russos, algo que ele entendeu muito bem, e apreciou muito.

Brzezinski prevaleceu. Ele convenceu Carter a enviar armas para a oposição que procurava derrubar o governo pró-russo, antecipando que os russos seriam arrastados para um pântano ao estilo do Vietnã. Quando isso aconteceu, ele mal conseguia conter o seu enorme deleite. Ao ser perguntado mais tarde se ele tinha algum arrependimento, Brzezinski descartou a pergunta como sendo ridícula. Seu sucesso em atrair a Rússia para a armadilha afegã, alegou, foi responsável pelo colapso do império soviético e pelo fim da Guerra Fria – algo totalmente sem sentido. E quem se importa se isso prejudicou “alguns muçulmanos agitados”, como os milhões de cadáveres, deixando de lado incidentes como a devastação do Afeganistão e a ascensão do islamismo radical.

A analogia afegã está sendo defendida publicamente hoje, e mais importante ainda, está sendo implementada na política.

A distinção entre negociador e sanguinário não é novidade nos círculos da política externa. Um exemplo famoso dos primeiros dias da Guerra Fria foi o conflito entre George Kennan (um negociador) e Paul Nitze (um sanguinário), vencido por Nitze, que lançou a base para muitos anos de brutalidade e quase destruição. A dupla Cordovez-Harrison endossa explicitamente a abordagem de Kennan, com amplas evidências.

Um exemplo próximo a Vance-Brzezinski é o conflito entre o secretário de Estado William Rogers (um negociador) e o conselheiro de Segurança Nacional Henry Kissinger (um sanguinário) sobre a Política do Oriente Médio nos anos de Richard Nixon. Rogers propôs soluções diplomáticas razoáveis para o conflito árabe-israelense. Kissinger, cujo desconhecimento da região era monumental, insistiu no confronto, que culminou na guerra de 1973, conflito em que houve uma séria ameaça de guerra nuclear e que Israel venceu por pouco.

Esses conflitos são (quase que) perenes. Hoje só há sanguinários nos altos escalões. Eles chegaram ao ponto de promulgar uma Lei de Arrendamento Mercantil de grandes proporções para a Ucrânia, que foi aprovada quase por unanimidade. A terminologia é projetada para evocar a memória do vultuoso programa de arrendamento, que trouxe os EUA para a guerra europeia (como pretendido) e ligou os conflitos europeus e asiáticos em uma Guerra Mundial (não intencional). “O programa de arrendamento uniu as lutas separadas na Europa e na Ásia para criar, até o final de 1941, o que chamamos propriamente de Segunda Guerra Mundial”, escreve Adam Tooze. É isso que queremos nas circunstâncias bem diferentes de hoje?

Se é isso o que queremos, como parece ser o caso, vamos ao menos refletir sobre as possíveis implicações. Isso é muito grave para que ocorra novamente.

Isso pressupõe que houve uma rejeição descontrolada dos tipos de iniciativas diplomáticas que, na verdade, colocaram um fim à invasão russa do Afeganistão, apesar dos esforços dos Estados Unidos para impedi-las. Portanto, colocaremos em prática uma experiência para ver se a integração da Ucrânia na OTAN, a derrota total da Rússia na Ucrânia e os novos movimentos para “enfraquecer a Rússia” serão observados passivamente pelos líderes russos, ou se eles recorrerão aos meios de violência que inquestionavelmente possuem para devastar a Ucrânia e preparar o terreno para uma possível guerra generalizada.

Enquanto isso, ao prolongar o conflito em vez de tentar resolvê-lo, impomos custos pesados aos ucranianos, levamos milhões de pessoas à morte por inanição, lançamos o planeta em chamas ainda mais rapidamente para a sexta extinção em massa e, com sorte, escapamos de uma guerra terminal.

Sem problemas, é o que o governo e a classe política têm a nos dizer. A experiência não traz risco algum porque a liderança russa está certa de aceitar tudo isso com equanimidade, passando tranquilamente para o amontoado de cinzas da história. Quanto aos “danos colaterais”, eles podem se juntar às fileiras dos tais “muçulmanos agitados” de Brzezinski. Pego emprestada a frase que Madeleine Albright tornou famosa: “Estamos diante de uma escolha muito difícil, mas o preço… achamos que vale a pena pagar”.

Tenhamos ao menos a honestidade de reconhecer o que estamos fazendo, e de olhos bem abertos.

As emissões globais alcançaram um recorde em 2021, então o mundo voltou a uma abordagem “vamos falar de negócios, só para variar”, uma vez que o pior da pandemia da COVID-19 já passou – por enquanto. O quão programado pode ser o comportamento humano? Somos capazes de assumir deveres morais em relação aos seres humanos do futuro?

É uma questão profunda, a questão mais importante que podemos contemplar. A resposta é desconhecida. Pode ser útil pensar nisso em um contexto mais amplo.

Considere o famoso paradoxo de Enrico Fermi: colocando a questão de forma bem simples, onde eles estão? Distinto astrofísico, Fermi sabia que há um grande número de planetas ao alcance do contato potencial que têm as condições de sustentar a vida e uma inteligência superior. Porém, mesmo sendo perseverantes em nossa busca, não fomos capazes de encontrar vestígio algum de sua existência. Então, onde eles estão?

Uma resposta que tem sido seriamente proposta, e que não pode ser descartada, é que a inteligência superior se desenvolveu inúmeras vezes, mas provou ser letal: descobriu os meios para se autoaniquilar, mas não desenvolveu a capacidade moral para impedi-la. Talvez isso seja até uma característica inerente ao que chamamos de “inteligência superior”.

Atualmente, estamos empenhados em um experimento para determinar se esse princípio sombrio se aplica aos humanos modernos, uma chegada muito recente à Terra. Estamos falando de algo em torno de 200.000-300.000 anos, o que seria um piscar de olhos em se tratando de evolução da humanidade. Não há muito tempo para encontrarmos uma resposta ou, mais precisamente, para determinar a resposta, como faremos, de uma forma ou de outra. Isso é inevitável. Ou agimos para mostrar que nossa capacidade moral chega ao ponto de controlar nossa capacidade técnica de destruir, ou jogamos a toalha.

Um observador extraterrestre (suponha que exista algum) concluiria, infelizmente, que a lacuna é imensa demais a ponto de evitar o suicídio das espécies e, com ela, a sexta extinção em massa. Mas o nosso observador extraterrestre pode estar redondamente enganado. Essa decisão está em nossas mãos.

Há uma medida aproximada dessa lacuna existente entre a capacidade de destruir e a capacidade de conter esse desejo de morte: é o chamado Relógio do Juízo Final do Boletim dos Cientistas Atômicos. A distância dos ponteiros desse relógio em relação à meia-noite pode ser considerada como uma indicação da distância que esse intervalo representa. Em 1953, quando os Estados Unidos e a então União Soviética detonaram artefatos termonucleares, o ponteiro dos minutos foi ajustado para dois minutos antes da meia-noite. O relógio não andou novamente em direção à marca fatídica, até que veio o mandato de Donald Trump. No último ano da administração Trump, os analistas abandonaram o ponteiro dos minutos e o trocaram pelo ponteiro dos segundos: 100 segundos para meia-noite, onde o relógio encontra-se parado. No próximo mês de janeiro, esse relógio será novamente acertado. E não é difícil de se chegar à conclusão que o ponteiro dos segundos deve se aproximar mais da meia-noite.

Essa questão macabra veio à tona com uma clareza brilhante, em 6 de agosto de 1945. Naquele dia o mundo recebeu duas lições: 1ª) a inteligência humana, em toda a sua glória, estava se aproximando da capacidade da destruição total, uma conquista alcançada em 1953; e 2ª) a moral como um atributo da humanidade ficou muito para trás. Poucos mesmos se importaram, inclusive as pessoas da minha idade, que se lembrarão muito bem. Vivenciar essa experiência hedionda, a qual assistimos com certo entusiasmo nos dias de hoje, e o que ela implica, torna difícil de se enxergar alguma melhora na situação; isso para colocar as coisas de uma forma mais branda.

Ocorre que ainda não chegamos a responder à pergunta que não quer se calar. O fato é que o nosso conhecimento é limitado para chegarmos a uma resposta. Temos que nos limitar a observar de perto o único caso de “inteligência superior” que conhecemos, e perguntar o que ela pode sugerir como resposta.

Bem mais importante que tudo isso, é que podemos agir se quisermos de verdade chegar a uma resposta. E a resposta que todos nós esperamos está em nossas mãos, só que não há tempo a perder.


¹ C.J. Polychroniou é um cientista político/ economista político, autor e jornalista que lecionou e trabalhou em várias universidades e centros de pesquisa na Europa e nos Estados Unidos. Atualmente, seus principais interesses de pesquisa estão na política e na economia política dos Estados Unidos, na integração econômica europeia, na globalização, nas mudanças climáticas e na economia ambiental, além da desconstrução do projeto político-econômico do neoliberalismo. É um colaborador regular da Truthout e participa do Projeto Intelectual Público da Truthout. Publicou dezenas de livros e mais de 1.000 artigos que foram reproduzidos em vários periódicos, revistas, jornais e sites de notícias populares. Muitas de suas publicações foram traduzidas para vários idiomas, incluindo árabe, chinês, croata, holandês, francês, alemão, grego, italiano, japonês, português, russo, espanhol e turco. Seus livros mais recente são: Optimism Over Despair: Noam Chomsky On Capitalism, Empire, and Social Change (2017); Climate Crisis and the Global Green New Deal: The Political Economy of Saving the Plane (tendo Noam Chomsky e Robert Pollin como principais autores, 2020); The Precipice: Neoliberalism, the Pandemic, and the Urgent Need for Radical Change (uma antologia de entrevistas com Noam Chomsky, 2021); e Economics and the Left: Interviews with Progressive Economists (2021).


Traduzido do inglês por José Luiz Corrêa / Revisado por Graça Pinheiro

O artigo original pode ser visto aquí