O dia 16 de março de 2022 marcou o 34º aniversário do infame ataque perpetuado pelas forças de Saddam Hussain sobre a população curda de Halabja, norte do Iraque. Especialistas concluíram posteriormente que a população foi alvo de um “ataque letal com um coquetel de gás mostarda e dos agentes nervosos tabun, sarin e VX”.

O gás mostarda é um agente vesicante que causa bolhas na pele e queimaduras graves ao contato direto com a pele. Já os agentes nervosos têm efeitos devastadores sobre o funcionamento do sistema nervoso. Milhares de pessoas morreram devido aos sintomas do horrendo ataque químico e muitos sobreviventes ainda sofrem com as consequências de longo prazo.

No 34º aniversário de um dos piores ataques químicos na região, entrevistamos Khder Kareem, ex-prefeito de Halabja. Ele relata o impacto do ataque sobre as pessoas e as consequências que ainda persistem.

— Conte-nos o que ocorreu em 16 de março de 1988 em Halabja

— A localização geográfica de Halabja no Curdistão, no norte do Iraque, é muito estratégica. A população dessa região sempre esteve contra a ditadura e organizava manifestações e protestos contra o governo de Saddam Hussein. Às 11h35 da manhã do dia 16 de março de 1988, o regime efetuou um ataque com armas químicas, massacrando sua própria gente. Quando começou o intenso bombardeio, muitas pessoas se esconderam nos porões. Logo depois da primeira onda de bombas, vieram outras que liberaram as armas químicas no ar. Houve um odor característico de maçã. Depois disso, muita gente foi encontrada morta nos seus porões.

— Qual foi o impacto das armas químicas nas pessoas ao seu redor?

— O gás teve muitos efeitos nas pessoas. Enquanto elas estavam tentando sair de casa para escapar dos bombardeios, o gás começou a causar dificuldade para respirar, queimaduras na pele, além de diversas outras complicações respiratórias. Cinco mil civis faleceram, mais de dez mil procuraram refúgio no Irã, e doze mil ficaram feridos. Algumas famílias perderam seus filhos a caminho do Irã. Após 34 anos, nem todos foram encontrados.

— Que tipo de consequências em longo prazo resultaram do uso de armas químicas na população?

— Houve muitas consequências em longo prazo que podemos registrar até o momento: dificuldade em respirar, abortos espontâneos, complicações respiratórias crônicas e efeitos psicológicos também. Muitos sobreviventes ainda sofrem com essas consequências duradouras e estão tomando medicamentos nos últimos 34 anos.

— Qual foi a resposta humanitária da comunidade internacional desde 1988?

— Fotos do massacre circularam em jornais de todo o mundo, mas a resposta humanitária foi insuficiente, pois o ataque ocorreu durante a guerra Irã-Iraque. As pessoas ainda hoje estão sofrendo. A questão foi assumida pela Organização para a Proibição de Armas Químicas (OPAQ) e o ataque classificado como genocídio.

— Que tipo de assistência as vítimas precisam agora?

— Em primeiro lugar, apoio psicológico, em seguida, um bom tratamento médico. E por fim, precisam saber que o mundo não vai esquecer o que aconteceu com elas.

O ex-prefeito de Halabja, Khder Kareem, discursa em uma reunião da Organização para a Proibição de Armas Químicas em Haia

 

Entrevista feita por Aayushi Sharma e Tony Robinson da Organização do Tratado do Oriente Médio


Traduzido do inglês por Graça Pinheiro / Revisado por Doralice Silva

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